Agente que matou Rayshard Brooks acusado de homicídio, Trump defende polícia

Presidente dos Estados Unidos afirma que a polícia “não tem sido tratada correctamente”. Procurador responsável pela acusação considera que afro-americano morto a tiro pela polícia não constituía ameaça.

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Procurador do condado de Fulton, Paul L. Howard Jr., a anunciar a acusação ERIK S. LESSER/epa

Garrett Rolfe, o polícia branco que matou a tiro o afro-americano Rayshard Brooks num parque de estacionamento de um restaurante de fast-food em Atlanta, foi acusado de 11 crimes, entre eles o de homicídio.

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Garrett Rolfe, o polícia branco que matou a tiro o afro-americano Rayshard Brooks num parque de estacionamento de um restaurante de fast-food em Atlanta, foi acusado de 11 crimes, entre eles o de homicídio.

Em conferência de imprensa, o procurador distrital do condado de Fulton, Paul L. Howard Jr, afirmou que Brooks, de 27 anos, nunca “constituiu qualquer ameaça”, o que não impediu Garrett Rolfe de o balear nas costas por duas vezes e de o pontapear quando este já estava no chão. Além disso, segundo a acusação, Rolfe gritou “apanhei-o!”, depois de disparar. Caso seja condenado, Rolfe pode ser sentenciado a prisão perpétua ou até pena de morte.

A morte de Rayshard Brooks ocorreu na noite da passada sexta-feira, em mais um assassínio de um cidadão negro às mãos de polícias brancos captado em vídeo, poucas semanas depois de George Floyd ter sido sufocado até à morte por um polícia de Mineápolis, gerando uma onda de protestos contra o racismo e a violência policial.

A polícia foi chamada depois de várias pessoas denunciarem que um homem estava a bloquear o trânsito, depois de ter adormecido no drive-thru. Brooks, que estava alcoolizado, conversou durante cerca de 40 minutos com dois polícias, antes de tentar fugir, acabando por ser baleado depois de, alegadamente, ter tentado roubar um taser a um deles.

Garrett Rolfe foi despedido no dia seguinte, enquanto o outro polícia envolvido, Devin Brosnan, foi colocado em funções administrativas. Na quarta-feira, Brosnan foi acusado de três crimes, incluindo o de agressão agravada. Decidiu colaborar com as autoridades, mas disse que não vai testemunhar contra Rolfe e garante ser inocente.

Trump defende agente

Horas depois de ser conhecida a acusação contra os dois polícias de Atlanta, Donald Trump deu uma entrevista à Fox News, defendendo Garrett Rolfe. “Não podemos resistir a um polícia e, se discordarmos, temos de agir depois”, disse o Presidente dos EUA. “Estava fora de controlo, toda a situação estava fora de controlo”, acrescentou Trump, referindo-se ao incidente que resultou na morte de Rayshard Brooks.

Durante a entrevista, Trump revelou que conversou com o advogado de Garrett Rolfe, que lhe terá dito que o polícia ouviu um som que parecia um tiro, daí ter agido.

“Não sei se acredito nisso necessariamente, mas é algo muito interessante e talvez até tenha mesmo sido assim”, afirmou Trump. “Eles vão ter de descobrir. Agora, é com a justiça. Espero que ele [Rolfe] receba um tratamento justo, porque a polícia não tem sido tratada correctamente no nosso país.”

Mudanças na polícia 

Depois de conhecidas as acusações contra os dois polícias, segundo o The New York Times, vários polícias de Atlanta não comparecerem ao trabalho na noite de quarta-feira, num aparente acto de protesto. Um sindicato que representa o departamento de Atlanta condenou a acusação a Rolfe e Brosnan, classificando-a como “prematura” e “politicamente motivada”.

Já a família de Rayshard Brooks congratulou-se com a acusação, apesar de reconhecer que ainda é muito cedo para garantir que será feita justiça, tendo em conta que o processo ainda está no início.

“Foi feita justiça hoje? Ainda não”, disse o advogado L. Chris Stewart, que representa a família Brooks. “Mas talvez um dia este país melhore no policiamento e todos nos possamos unir”, acrescentou.

O advogado congratulou-se com a colaboração de Devin Brosnan com as autoridades, elogiando a “coragem do oficial Brosnan ao dar um passo em frente e afirmar que o que aconteceu foi errado”. “São polícias assim que podem trazer mudanças”, disse.

Após o início das manifestações contra o racismo na sequência da morte de George Floyd, muitos polícias colocaram-se ao lado dos manifestantes, ajoelhando-se contra o excesso de violência.

No caso da morte de Rayshard Brooks, além de Garrett Rolfe ter sido despedido de imediato, Erika Shields, chefe da polícia local, demitiu-se no dia seguinte. Já a mayor de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, apontada como uma das possíveis escolhas de Joe Biden, presumível candidato do Partido Democrata às presidenciais de Novembro, para a vice-presidência, anunciou uma série de medidas administrativas para a polícia, obrigando outros agentes a interferir quando um colega usa força desproporcional.