“Agora tudo é racismo”

Lutar contra o racismo é não aceitar com o sorriso amarelo a piada preconceituosa. Lutar pela humanidade é não ter medo de reagir quando, sob forma de piadas veladas, se ataca tudo o que é diferente de nós.

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Manifestação anti-racismo em Lisboa rui gaudencio

Tu que não compreendes o que se passa: eu também não compreendo. Não compreendo como é que o ser humano consegue encontrar na mínima diferença algo para odiar em vez de celebrar a diversidade. Não compreendo como é que evoluímos tanto e continuamos a perpetuar os mesmos actos de ódio. Mas, principalmente, não compreendo como é que a reacção ao “não compreender” não é tentar ouvir a versão do outro, mas sim negá-la.

“Para ti é tudo racismo!”
“És bonita para uma preta.”
“Deves ter mistura de branco para seres assim.”
“Tu não és realmente preta, és branca por dentro.”
“Essa história clínica está escrita em Prétugues!” (professora da faculdade)
“Vou chamar o senhor X que também é preto e vocês falam um com o outro.” (professor da faculdade)
“Tu deves saber muito de doenças infecciosas.” (professor da faculdade)
“Não quero ser visto por uma médica preta!”
“Volta para a tua terra!”
“De onde és? Portugal? Não vá, a sério, de onde és? Mas de onde?”
“Eu devo ser preto para trabalhar assim!”
“Eu devo ser preto para me tratarem assim!”
“Eu também estive na Guiné. Depois de sair de lá estragaram tudo. Não sabem manter nada.”
“Olha, já perguntaste se vai algum preto como tu ao evento?”
“Olha tu vais-te casar com um branco, não vais? É que és diferente, assim não se estraga.”
“Estás a malhar uma conga?”
“Eu não poderia casar contigo, a minha família não aceitaria.”
“Olha lá, que tal brincarmos a um jogo, és a escrava e sou o teu master.”
Revendo um vídeo do Mogli – O livro da Selva e aparecem uns macacos: “Olha lá, é a Sara.”

Isto aconteceu comigo, já são banalidades e são apenas alguns exemplos. A lista é longa e, na realidade, é bem mais agressiva para outras pessoas. Comigo nunca chegou à agressão física — exceptuando o dia em que um miúdo na escola me deu um murro na barriga por eu ser preta. Mas como culpar uma mente inocente que talvez tenha sido conspurcada pelo que o rodeia? O que levará uma criança a esmurrar outra pelo seu tom de pele? Lembrando um exemplo de uma amiga, o que levará uma menina de quatro anos a querer lavar-se para deixar de ser preta?

Sou privilegiada, confesso. Tenho a certeza de que se tivesse crescido noutro bairro, e talvez noutro país, as coisas poderiam ter sido piores. Mas o facto de as coisas poderem ser piores não pode ser justificação para não as melhorarmos. Gostaria que a maioria da minha família portuguesa tivesse permanecido cá e não tivesse emigrado por nunca se sentir realmente parte da sociedade. É muito difícil explicar que diariamente somos renegados do nosso próprio país, da nossa própria sociedade. O constante “De onde é que és?” não é assim tão inocente.

Não é estranho sermos tantos e quando olhamos à volta não vermos representatividade? Será que existe algo de profundamente errado connosco ou profundamente errado com o sistema?

Gostaria que não aceitássemos esta realidade como algo banal. Que os meus pais não relatassem experiências bem piores. Quando a minha mãe entrou num serviço novo, o cepticismo sobre as suas capacidades era geral. A defesa de uma amiga dela foi dizer “ela não é como as outras”. Ela não é como as outras... que outras? Engraçado que as outras são sempre parte do imaginário recheado de preconceitos. Quantas pessoas pretas conhecerão estes indivíduos que nos elogiam (“deselogiando”) de forma dissimulada?

Lutar contra o racismo é não aceitar com o sorriso amarelo a piada preconceituosa. Lutar pela humanidade é não ter medo de reagir quando, sob forma de piadas veladas, se ataca tudo o que é diferente de nós.

Lutar por todos nós é, quando um doente diz que não quer ser visto por mim, tu estando presente na sala lhe dás uma resposta adequada (ao invés de me vires depois dizer “fiquei passada com o que ele disse”). É dizeres algo e seres uma voz activa, é usares a tua voz que, infelizmente para muita gente, é mais importante do que a minha. É não me dizeres “é só uma piada, não podes levar tudo tão a peito” — desculpa se levo a minha identidade a peito. Durante muito tempo aceitei as piadas, acaba por ser uma forma de sobrevivência e de adaptação. Infelizmente, ao responder há sempre o medo de se ser vista como a preta espalhafatosa, a que se vitimiza, a que tem raiva dentro de si.

O simples facto de ainda me perguntarem se existe racismo em Portugal deixa-me estupefacta. Sendo que a maioria destas pessoas depois assume a posição do “não, isso não pode ser bem assim”. Negares o problema é fazeres parte dele. Os hinos de que é necessário ser-se anti-racista estão a ecoar e é disso mesmo que se trata. Se nós ainda nem o admitimos, como é que vamos resolver? Se ainda oiço pessoas a dizer que a nossa colonização foi pacífica e não havia cidadãos de segunda, como é que vamos crescer?

Já tive amigas cuja premissa era “se não gostas assim tanto do país, muda-te”. Mas desde quando criticar algo errado na sociedade me tira o direito de viver nela? Principalmente quando é a partir da crítica que pode surgir a mudança e o crescimento. Porque é que que podemos criticar todas as outras esferas, mas dizer algo deste género é ser anti-nacionalista? Eu sou portuguesa, gosto do meu país, mas confesso que já tive momentos em que eu própria pensei que seria mais fácil apenas sair — porque cansa. Cansa justificares-te constantemente, provares constantemente que não és aquilo que os outros já delinearam na sua mente, tentares lutar contra o estereótipo que os outros têm na cabeça. Cansa... E nem sempre estou emocionalmente disponível para responder à letra, como quando disse ao senhor que me mandou para a minha terra que nasci em Portugal, sei cozinhar bacalhau e vivi em Trás-os-Montes.

A revolução é algo de difícil compreensão para a mente do não oprimido. Reportando aos Estados Unidos, se tens dificuldade em perceber como é que se forma tal violência no meio disto tudo vê o vídeo do Trevor Noah (do programa Daily Show with Trevor Noah), que explica de maneira exemplar que, se tens um contrato com a sociedade, e esta durante anos consecutivos não cumpre a sua parte e mata os teus, porquê manteres as normas da mesma? Informa-te, lê, procura saber as diferentes experiências. Se tudo isto é tão inimaginável e de difícil compreensão, dá-te grato por não as carregares contigo.

O facto de existir alguém a sofrer não te tira o teu sofrimento. Essa é outra teoria: “mas eu também sofro muito”. Correcto, mas isto não é uma competição. O meu sofrimento não desvaloriza o teu. Eu não te estou a atacar. Não precisas de te pôr numa posição defensiva, relatar exemplos de racismo não é uma luta contra a tua cor. Isto é uma luta de todos nós contra o racismo.

Li pessoas a criticarem personalidades que deram a voz pela causa: “foca-te em Portugal, isto já é ridículo”. Não nos esqueçamos que muitas vezes são as lutas dos outros países que nos abrem os olhos para as nossas próprias imperfeições. E a única maneira de o fazer é admiti-las. Eu vou ser sempre vista como a voz inflamada e vitimizada (“para ti é tudo racismo”). Tu podes ser a voz da mudança. A mudança faz-se não só quando as pessoas que não têm voz se revoltam, mas também quando as pessoas que a têm se unem ao coro. Pode não ser justo, mas a tua apatia é encarada por mim como te ser indiferente termos os mesmos direitos.

“Eu não vejo cor, é um ser humano a matar outro ser humano.” Eu não quero que não vejas cor, eu quero que celebres a minha. Um dia vai ser só um ser humano a matar outro (“só”...). Mas ainda não estamos nesse ponto. Eu ainda não sou vista como tua igual por muitas pessoas. Eu quero que vejas a minha cor e quero que me ames, não independentemente disso, mas também por isso. Sou preta, tenho orgulho em sê-lo, mas é apenas uma parte do que sou.

Cada vez que acedo às redes sociais sou inundada por uma tristeza profunda. Não compreendo porque é que o ser humano é assim. Mas eu tenho esperança que, se crescemos em tantas coisas, vençamos também esta batalha. Não julgues tão depressa, informa-te. Não alinhes em piadas fáceis, ensina. Não esperes que o teu amigo preto esteja sempre disposto a debater o tema: ele vive com ele. Se estás cansado de ouvir este tema, imagina como é experienciá-lo diariamente. Observa, olha e aprende. Vê se reparas em como são tratados colegas teus de acordo com a cor que apresentam. Interroga-te sobre a representatividade à tua volta. Não negues a existência de algo que é gritado em plenos pulmões há anos. À bela maneira portuguesa, “não faças ouvidos moucos”.

“Agora tudo é racismo”. Não, sempre foi racismo, agora já existem vozes suficientes para o dizer.