Em tempo de protestos anti-racistas, Bélgica e Londres reavaliam os seus heróis

Estátua do rei Leopoldo II dos Belgas é retirada de Antuérpia e presidente da câmara de Londres anuncia comissão para avaliar diversidade de monumentos.

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Uma estátua do rei Leopoldo II dos belgas foi retirada esta terça-feira do bairro de Ekeren, em Antuérpia, para ser limpa e restaurada, por causa dos danos que tem sofrido - os últimos no fim-de-semana - devido à associação do soberano ao colonialismo em África. Mas pode ser retirada definitivamente, reconheceu o presidente da câmara, Koen Palinckx.

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Uma estátua do rei Leopoldo II dos belgas foi retirada esta terça-feira do bairro de Ekeren, em Antuérpia, para ser limpa e restaurada, por causa dos danos que tem sofrido - os últimos no fim-de-semana - devido à associação do soberano ao colonialismo em África. Mas pode ser retirada definitivamente, reconheceu o presidente da câmara, Koen Palinckx.

Tal como nos Estados Unidos ou no Reino Unido, também na Bélgica há um movimento de protesto que visa as estátuas e a toponímia que celebra figuras históricas ligadas ao esclavagismo ou ao passado colonial daqueles países. O rei Leopoldo II, que reinou de 1865 a 1909, ficou na memória por ter conseguido para os belgas o Congo - hoje República Democrática do Congo -, que governou com grande brutalidade. 

Uma petição que exigia a retirada de todas as estátuas de Leopoldo II das ruas belgas recolheu em poucos dias 53 mil assinaturas. Outra estátua do rei foi coberta de tinta no Museu de África em Tervuren, na Flandres, entre outros ataques à memória de Leopoldo. As manifestações contra o racismo despertaram a indignação ainda bastante viva contra o antigo soberano.

Em 2019, quatro especialistas independentes da ONU aconselharam a Bélgica a pedir desculpa pelas “atrocidades” da colonização, recorda a RTBL. O papel do rei Leopoldo II na colonização deveria ser reconhecido para se poder “fechar este capítulo sombrio da história”.

A História e a leitura que as diferentes épocas fazem dos acontecimentos e dos comportamentos das figuras históricas é um território escorregadio, que dá sempre azo a polémicas. No Reino Unido, os protestos anti-racistas fizeram também questionar monumentos e até figuras incontornáveis - como o próprio primeiro-ministro Winston Churchill.

O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, anunciou nesta terça-feira a criação de uma comissão para avaliar a diversidade dos monumentos nos espaços públicos da capital britânica, na sequência do derrube de uma estátua de um comerciante de escravos em Bristol e da polémica em torno do graffiti na estátua de Winston Churchill chamando-lhe “racista”.

“A diversidade da nossa capital é a nossa maior força, mas as nossas estátuas, nomes de ruas e espaços públicos reflectem uma época passada. É uma verdade desconfortável que a nossa nação e cidade devam grande parte da sua riqueza ao seu papel no tráfico de escravos e, embora isso se reflicta nos nossos espaços públicos, a contribuição de muitas das nossas comunidades para a vida na nossa capital tenha sido intencionalmente ignorada. Isso não pode continuar”, justificou Sadiq Khan, citado pela Lusa.

A Comissão para a Diversidade nos Espaços Públicos vai olhar para murais, arte de rua, estátuas, nomes de ruas outro tipo de monumentos e avaliar os respectivos significados para depois fazer recomendações. 

Khan admitiu que os protestos do movimento Black Lives Matter, desencadeados pela morte de George Floyd durante uma operação policial nos EUA, “chamaram a atenção, e bem”, para este problema, mas defendeu a importância de serem tomadas as “medidas certas”.

A decisão acontece depois de uma estátua do comerciante de escravos do século XVII Edward Colston, um controverso monumento de bronze erigido em 1895 no centro da cidade, ter sido derrubada no domingo em Bristol, arrastada pelas ruas e lançada para as águas do porto da cidade.

O Governo britânico prometeu processar por vandalismo os responsáveis pelo derrube da estátua de Colston, assim como aos manifestantes que danificaram a estátua do antigo primeiro-ministro Winston Churchill em Londres, junto ao Parlamento, onde foi escrito a grafite “era um racista”.

Embora seja considerado um herói por ter conduzido o país durante a II Guerra Mundial na guerra contra a Alemanha nazi, Churchill era um firme defensor do Império Britânico e expressou pontos de vista racistas.

“Ninguém é perfeito, seja Churchill, seja Gandhi, seja Malcolm X”, admitiu Sadiq Khan à BBC, ao defender que a estátua de Churchill continue de pé.

A destruição da estátua de Colston revigorou os activistas da Universidade de Oxford que pedem a remoção de uma estátua de Cecil Rhodes, um imperialista vitoriano na África do Sul que fez fortuna nas minas e financiou bolsas de estudo na universidade. Uma petição do grupo Rhodes Must Fall (Rhodes deve cair) para remover a estátua falhou em 2016, mas está planeado um novo protesto, tendo sido colocada uma faixa onde se lê: “Rhodes, tu és o próximo”.

Em Edimburgo, na Escócia, há pedidos para remover uma estátua de Henry Dundas, um destacado político do século XVIII que atrasou a abolição britânica da escravatura durante 15 anos. O presidente da Câmara de Edimburgo, Adam McVey, disse que “não ficaria com qualquer sensação de perda se a estátua de Dundas fosse removida e substituída por outra coisa ou deixada como plinto”.