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Boneca Ovamwila, Angola/António Rento/MNE
Série Ciências Sociais em Público (X) - Testemunho

Um filme de bonecas: fazer antropologia através do cinema

Uma pesquisa transnacional sobre cultura material. Um documentário etnográfico rodado numa aldeia agropastoril do Sul de Angola. A reação de duas audiências: estudantes do secundário, em Portugal, e protagonistas do filme, em Angola.

“Que horror!” Um dos jovens não se conteve ao ver a boneca de madeira que desembrulhei de um pano. Horror?, perguntei. “Sim. Parece vudu!” Não era a primeira vez que estava perante uma tal reação. Já me tinha acontecido alguns anos antes, quando transportei essa boneca na bagagem de cabine de um voo entre Portugal e Inglaterra. O tronco de madeira fez apitar a máquina de raio X do aeroporto, e foi preciso mostrar como a boneca era maciça, e não oca, não podendo, pois, esconder algo dentro. O modo apressado e desajeitado com que o segurança começou a desembrulhar o pano levou-me a imaginar as inúmeras fiadas de missangas do penteado da boneca a quebrarem-se, e a espalharem-se pelo chão. Pedi para ser eu a desembrulhá-la. Felizmente assentiu. Ao vê-la, perguntou, meio a brincar, meio curioso: é para fazer vudu?

Bonecas deste género são feitas em Angola, na região sul do país. Nas zonas rurais vive-se do cultivo e da criação de gado, sobretudo bovino, em sistemas de produção familiar. Nestes contextos, é usual as crianças pequenas brincarem com tudo o que apanham à mão, e, à medida que vão crescendo, começarem a fazer os seus próprios brinquedos. Na época da colheita do milho, algumas aproveitam os carolos que sobram das maçarocas debulhadas para fazer bonecas imitando pessoas que as rodeiam — mães, filhas, bebés. Basta um pouco de cera de abelha ou resina de árvore para o peito e penteados; e restos de pano para as vestir. Feitas com materiais naturais, as bonecas duram algum tempo. Ao avançarmos pela estação seca, começam a rarear, e são depois substituídas por outras brincadeiras. Até a próxima colheita dar uma nova oportunidade de as fazer.

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Boneca de carolo de milho proveniente de Angola e à guarda do Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa António Rento/MNE

A pesquisa antropológica que desenvolvi no Sul de Angola ao longo de 2011 teve por base um estudo anterior sobre 84 bonecas artesanais produzidas nesta região, e que estão à guarda do Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa. A informação sobre estas bonecas — fossem feitas a partir de um carolo de milho, de madeira ou mesmo de sementes — era escassa. Apercebi-me da existência de outras coleções de bonecas do Sul de Angola em museus noutros países, e interessei-me por entender a relação entre os modos das suas recolhas, maioritariamente ocorridas durante o longo colonialismo português e com um caráter fortemente transnacional, e a sua produção local, de que pouco se parecia saber. Depois de visitar curadores e bonecas em vários museus europeus, passei um ano em Angola, numa abordagem que incluía realizar um documentário focado na vivência de camponeses e pastores no território de onde essas bonecas tinham saído.

Não foi uma boneca feita a partir de um carolo de milho que lançou a expressão de horror nos jovens portugueses, ou a de surpresa do segurança do aeroporto, mas sim uma de madeira, mais trabalhada. Ao pesquisarmos tópicos que podem ser estranhos para a maior parte das pessoas que nos rodeiam, quando nos deparamos com estas reações, tentamos traduzir essa estranheza em algo que possa ser familiar ao nosso interlocutor. Por isso me dediquei a produzir um filme que me ajudasse tanto a indagar como a transmitir a vivência de pessoas associadas à produção destes intrigantes artefactos.

A rodagem do filme no Sul de Angola

Como antropóloga, propus-me conhecer o quotidiano das populações rurais do Sul de Angola. Acabei, um pouco acidentalmente, por familiarizar-me com uma aldeia de montanha onde os moradores não falam português. O passo seguinte foi conseguir alguma fluência em olunyaneka, a sua língua, e construir relações que me permitissem perceber como a produção de bonecas entra no quotidiano. Passados seis meses de estadia propus aos meus anfitriões fazer um filme que incluísse o meu pedido de uma boneca de madeira. Por essa altura já sabia que, dez anos antes, a minha anfitriã tinha feito uma boneca destas para a sua filha mais velha. Estava a viver em casa de uma potencial artesã. Perfeito. Queria construir um retrato íntimo que mostrasse o lado humano que me parecia faltar a bonecas destas nos museus.

Durante a rodagem fui filmando as diferentes fases da construção da boneca, e outras atividades que mostrassem um pouco do quotidiano destas pessoas. Aprendi dimensões importantes sobre a mestria técnica necessária para a produção artesanal destas bonecas de madeira, tal como o domínio do manejo de catana ou da técnica de cestaria. Na montagem do filme incorporei também uma das razões que explicam a raridade destas bonecas. A subsistência destas comunidades depende de inúmeras tarefas manuais quotidianas. Há sempre muito para fazer e o tempo livre é escasso. O título do filme enfatiza esse trabalho quotidiano sempre presente: Fazer pela Vida na Estação Seca.

Jovens lisboetas como público

Um filme feito com base em pesquisa etnográfica tem vários usos, um deles o de servir para difusão da pesquisa. Mostrá-lo a dois públicos distintos foi uma experiência especialmente marcante. Um dos públicos era um grupo de 20 jovens finalistas do ensino secundário (11.º e 12.º anos), interessados em conhecer o trabalho de cientistas sociais através da iniciativa “Aventuras com as Ciências Sociais”, da Universidade de Lisboa, durante uma semana no verão de 2018.

Após a reação inicial horrorizada à boneca que tinha nas mãos, propus vermos o filme e saber depois o que achavam sobre ela. Estamos a falar de jovens que veem filmes ao mesmo tempo que olham para o telemóvel. Mas esta postura por si só não é um indicador de desinteresse. Pelo contrário, após o filme, grande parte do grupo mostrava-se entusiasmado. As perguntas surgiam do nada — e eram muitas. Como é viver numa aldeia, onde dormia, o que comia, como aprendi a falar a língua daquelas pessoas.

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Madukilaxi rodeada pelas duas filhas mais novas e netos, terminando uma boneca a pedido, 2018 DR

Todos os protagonistas do filme usam uma fiada de missangas ao pescoço, adorno semelhante ao penteado da boneca. Para a sessão, tinha pensado propor aos jovens que cada um fizesse uma pulseira de missangas para si. Essa atividade permite ganhar na prática uma noção da mestria necessária para construir a boneca, e introduzir noções estéticas que aprendi durante a estadia na aldeia. Só que a conversa depois do filme prolongou-se tanto que pensei que já não teríamos tempo — o programa dos jovens era apertado. Perante a minha indecisão, os jovens responderam que seriam rápidos. A adesão do grupo à proposta convenceu-me. Todos optaram por fazer uma pulseira de acordo com os preceitos locais que apresentei.

Antes disso, na transição da plateia para o palco onde fariam as pulseiras, deu-se a segunda reação à boneca que me surpreendeu. Ao aproximarem-se dela, alguns dos jovens pediram para tirar fotografias à boneca e com a boneca. Um deles não se conteve, dizendo que era tão “fofa”. Como é que um filme foi capaz de transformar a reação daquele público? O que é que o documentário mostra para alterar a perceção que aqueles jovens passaram a ter da boneca?

De uma forma mais eficaz que qualquer conversa, o filme abre uma janela para o quotidiano de uma família que vive numa quinta agropastoril. Este quotidiano revela-se através de um triângulo de relações humanas, entre a atarefada mãe, o seu bebé de três anos e eu, por detrás da câmara. A bebé Lipuleni, algumas vezes confundida como menino, seduz grande parte dos espectadores pela maneira como participa no mundo que a rodeia, e no modo como a boneca que está a ser feita pela mãe, por vezes em colaboração comigo, a cativa. Ver o interesse e a vontade da menina por aquela boneca ajuda a torná-la “fofa”.

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Fotograma do filme onde Madukilaxi termina a boneca. Nos últimos quatro anos Fazer pela Vida na Estação Seca foi exibido vários festivais internacionais DR

Aldeões angolanos como público

Em 2018, regressei à aldeia com capacidade de projetar o filme. Para os aldeões que novamente me receberam, o filme é um retorno sobre a pesquisa mais acessível do que um artigo ou livro. Os protagonistas são iletrados, e o documentário é falado na sua língua. Para mim, este retorno só se tornou possível dois anos depois de concluído o filme, quando consegui financiamento para fazer mais trabalho de campo na aldeia. A rodagem do filme foi em 2012, terminei a montagem em 2016. Ao longo desse processo, optei por combinar agendas: o meu interesse em transmitir o que tinha aprendido sobre a produção de bonecas, e o dos meus protagonistas em mostrar um pouco da sua vida.

A aldeia onde o filme foi rodado fica perto do Morro Maluco. Há quem diga que o morro ganhou esse nome porque, ao olharmos para ele de longe, nunca vemos os seus três picos. Consoante a posição em que estamos, um pico esconde sempre um dos outros dois. O morro é o mesmo, a nossa perspetiva é que muda. Em contraste com a jovem audiência lisboeta, as reações dos próprios protagonistas, vizinhos e conhecidos a este filme, torna bem evidente a questão da perspetiva. Isto é, o lugar a partir do qual olhamos para as coisas determina o que vemos — e o que não vemos.

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Sabemos pouco sobre as pessoas que produziram muitos dos artefactos à guarda de museus. Retratos noturnos de Madukilaxi e da filha Kabuka, durante o serão, 2012 DR

Sempre que se mostra um filme aos seus protagonistas, julgamos todas as decisões que tomámos durante o processo de construção. O que para um público não familiarizado com o contexto pode passar por normal, foi medido e discutido por esta audiência mais que habituada com a vida representada no ecrã. Por exemplo, a filha mais velha da minha anfitriã questionou o modo pouco usual como numa cena a sua mãe cozinha arroz, uma ementa excecional. Muitos se riram de um enorme cigarro que Madukilaxi fuma numa outra cena, também ele uma exceção, depois de vários dias de abstinência forçada por falta de tabaco. A própria Lipuleni, cinco anos mais velha em 2018, envergonhou-se de várias atitudes que se via a ter. Mas um sobrinho de Madukilaxi fez uma crítica que me mostrou o valor de algumas das escolhas que fiz na montagem. Mpeguessela comentou que o filme tinha um equilíbrio, servia para mostrar a dureza da sua vida, mas também como sabiam fazer uma coisa bonita.

Semelhante a uma boneca de vudu, estes dois públicos, cada um à sua maneira, mostraram-me contornos eficazes do filme que produzi: do horror à “fofura”, do normal à exceção. Os jovens estudantes portugueses renderam-se ao lado pessoal e íntimo de quem produz laboriosamente bonecas destas, e ao contexto da sua produção. Os aldeões mostraram-me os limites do que surge representado como a sua normalidade, mas também a decisão acertada de construir um filme com base numa dupla agenda de investigação, a deles e a minha.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico.


Inês Ponte, antropóloga, ICS-ULisboa


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