A covid-19 chegou ao maior campo de refugiados rohingya no Bangladesh, onde há 500 mil pessoas

Era uma questão de tempo, diz a organização Save the Children. “O alastramento ao campo Cox’s Bazar parece agora inevitável, com um potencial de mortes inimaginável”.

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Duas pessoas de um campo de refugiados rohingya no Bangladesh têm covid-19, anunciaram nesta quinta-feira as autoridades, sublinhando que os dois infectados com o coronavírus não estão no recinto que alberga quase meio milhão de pessoas.

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Duas pessoas de um campo de refugiados rohingya no Bangladesh têm covid-19, anunciaram nesta quinta-feira as autoridades, sublinhando que os dois infectados com o coronavírus não estão no recinto que alberga quase meio milhão de pessoas.

Os especialistas em saúde têm advertido para o risco de a doença alastrar nestes campos onde as condições sanitárias são muito precárias e onde vivem os refugiados desde a ofensiva militar birmanesa de 2017 contra esta minoria muçulmana no estado de Rakhine, ofensiva que foi classificada de limpeza étnica pelas Nações Unidas.

O campo chama-se Cox’s Bazar e, diz a organização não-governamental Save the Children, “assiste-se ao desenrolar da crise em todo o mundo sabendo que era apenas uma questão de tempo até o vírus chegar ao maior assentamento de refugiados na Terra”.

O responsável local de Saúde, Abu Toha Bhuiyan, disse que os dois refugiados estão em isolamento, e que foram aplicadas medidas preventivas no campo, onde se estão a realizar testes. 

Porém, prossegue a Save the Children, "com o registo dos primeiros casos confirmados na comunidade local em Cox’s Bazar, a alastramento ao campo parece agora inevitável, com um potencial de mortes inimaginável”.

Em meados de Abril, as autoridades do Bangladesh impuseram um confinamento rígido ao campo e aos seus arredores depois de uma terem sido registados uma série de casos de covid-19 nas imediações.

Outra medida aplicada, que adensou o perigo, foi a proibição de entrada dos funcionários das organizações humanitárias que prestam, entre outros, serviços de saúde aos rohingya. Ao todo, um milhão de pessoas foram encerradas em campos de más condições de saneamento básico e habitação.

“Só serviços médicos e alimentares de emergência podem continuar a entrar em Cox's Bazar e com precauções extra”, anunciou na altura do encerramento o comissário para os Refugiados, Mahbub Alam Talukder, citadpo pela AFP.

A maior parte dos refugiados chegou aos campos depois da operação militar birmanesa em Rakhine. Entre 2017 e 2018, 750 mil pessoas desta minoria étnica - considerada a mais perseguida do planeta - entraram no Bangladesh, juntando-se aos que já ali viviam para fugir da perseguição e assassínios. 

A Human Rights Watch considerou que os 350 mil rohingya que permanecem na Birmânia estão em perigo, também devido ao alastramento da pandemia e das poucas protecções de que dispõem e fraquíssimos cuidados de saúde. 

O Bangladesh tem nesta quinta-feira registados 18.863 casos de covid-19 e 283 mortes, segundo mapa interactivo da americana John Hopkins University, que agrega os dados mais recentes.