Opinião

Não, não podemos

Deixar a defesa pública e o poder negocial de um apoio maior aos países do Sul europeu na extrema-esquerda espanhola, além de um erro tremendo, é dar cabo da possibilidade desse apoio se concretizar.

Não é só o populismo da direita que se torna impróprio para consumo no espaço público europeu em tempos de covid-19. O da esquerda também e um e outro acabam por se confundir.

O líder do Podemos espanhol, Pablo Iglesias, que com 12% dos votos chegou a vice-presidente do governo espanhol, destila em cada intervenção a mesma retórica anti Bruxelas que também se ouve nas palavras de Isabel Camarinha. O primarismo é parecido, com a atenuante, apesar de tudo, que o primeiro ocupa o lugar que ocupa em Espanha e a última é a líder da CGTP portuguesa. Se há alguma forma dos países do sul da Europa descredibilizarem-se neste novo jogo de forças em relação aos países do Norte, é relembrarem-lhes do cargo que ocupa este senhor num desses países. Ou ele fazer parte de qualquer negociação futura. Com a ameaça já gasta do desmantelamento da União Europeia como pano de fundo, Iglesias pretende que a Espanha e outros países do Sul recebam um apoio financeiro ilimitado por parte da UE, sem que qualquer organismo europeu exerça um controlo sobre a aplicação desses fundos. Ora, para além da injustiça que isto representaria para alguns países que cortaram nos gastos governamentais e olharam para a sua dívida externa, também se ultrapassaria algumas das linhas vermelhas do projeto europeu.

Não se pode passar da receita fechada do neoliberalismo para outra de faz de conta que roça o mesmo nacionalismo bacoco, mas camuflado, e é ainda mais desastrosa e irresponsável. 

Ao contrário do governo português e sem qualquer interesse na social-democracia, Pedro Sanchez deixou-se engolir por algumas forças extremas da esquerda, ficando refém delas e formando um executivo onde comunistas e separatistas ocupam lugares preponderantes. Entre outros, os gastos públicos estaduais dispararam quase de forma imediata há largos meses. A meio de março, quando a Europa toda já sabia da gravidade e seriedade do vírus em parte pelo que chegava de Itália, o número de casos em Espanha e na Alemanha era similar. Até que o executivo espanhol decidiu optar por um rumo diferente. Mantiveram-se ações como a parada do orgulho feminista e outra de orgulho gay que juntaram milhares de pessoas nas ruas de Madrid e Barcelona. É impossível calcular os efeitos que isto teve dias depois no esgotar do sistema nacional de saúde espanhol, mas as imagens e relatos destas manifestações, já na altura, deixaram muitos perplexos.

Mesmo depois, faz sentido apelar hoje ao sentido de solidariedade de um governo como o alemão para apoiar os países do sul. Para além do interesse na defesa da coesão da União Europeia que ainda se supõe que tenha, é também através desse apoio que devem procurar salvaguardar o país na crise económica. O espaço europeu é o mesmo. Isso será facilmente explicável ao contribuinte alemão. O que já não, é dizer-lhe por cima que quem controlará os gastos do pacote financeiro despendido a Espanha é Pablo Iglesias. O mesmo é dizer-lhe que quando é para ajudar, deve-se fechar-se os olhos e confiar cegamente na gestão e aplicação financeira do Podemos. Além da ideia ser irrisória e fruto de alguém que vive em lalaland, temo que se algum dia visse a luz do dia, aí sim, poucos meses depois, viveríamos a machadada final no projeto europeu.

Até ao surgimento desta pandemia, António Costa tinha conquistado algum capital político na União Europeia através dos resultados económicos e sociais em Portugal. Para lá do acordo “parlamentar” com a esquerda, a essência do executivo português também foi social-democrata e isso refletiu-se se na maioria das políticas prosseguidas e na redução acentuada da despesa pública nacional. Logo por aí, deixar a defesa pública e o poder negocial de um apoio maior aos países do Sul europeu na extrema-esquerda espanhola e com este tipo de ideias, além de um erro tremendo, é dar cabo da possibilidade desse apoio se concretizar. Tal como será fazermos parte desta narrativa apresentada pelo Pablo Iglesias. Com alguma razão e com o olhar no passado recente da governação espanhola, facilmente se recuperará a Norte, o discurso de endividamento constante do Sul. Até que apareça a Alemanha para resolver o problema.

Não, não podemos.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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