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De Pacheco Pereira a Nuno Rogeiro: quem vence o campeonato nacional de estantes de livros?

Com as câmaras a entrarem nas casas dos comentadores televisivos, a análise estende-se às estantes de livros. O campeonato nacional, promovido pela satírica Uma Página na Rede Social, está a decorrer no Twitter. “Acaba por ser uma marca desta época bizarra”, diz quem os pôs a competir.

Quando as “câmaras” começaram a entrar de forma amadora nas casas dos comentadores televisivos, os gráficos interactivos e o pano verde dos estúdios ficaram à porta. No lugar deles, ergueu-se um cenário de fundo que se tornou norma nos espaços de comentário em programas nacionais e internacionais: metros e metros de prateleiras repletas de livros, dos fascículos criteriosamente organizados por número a obras soltas empilhadas, casualmente, na horizontal (mas com a lombada à vista).

Quem assistia do sofá de casa, passou a dividir a atenção entre a análise da actualidade e a análise aos títulos que conseguia desvendar por detrás de quem falava. “Fui reparando nesta dinâmica de mostrar muitos livros como pano de fundo e, sempre que reparava, fazia um screenshot da entrevista”, comenta ao P3 o gestor da satírica Uma Página na Rede Social, que pediu para não ser identificado neste artigo. Poucos telejornais depois, tinha acumulado uma biblioteca de bibliotecas.

Estava a admirar “a muralha de livros” que preenchia todo o fundo da videochamada por Skype do comentador da SIC Nuno Rogeiro, quando soube o que “tinha de ser feito": “Acho que ele estava atento ao facto que os comentadores tentavam de alguma forma corroborar aquilo que diziam com uma extensa estante de livros atrás e disse: já agora, cá vai a minha. Pareceu-me a altura ideal para começar o campeonato nacional de estantes. Era a candidatura definitiva.”

No Twitter, o campeonato lançado em Março ainda não chegou a um vencedor. Para tentar vencer os milhares de livros no arquivo e biblioteca de José Pacheco Pereira, que na sua última crónica no PÚBLICO recorda a leitura dos primeiros capítulos da Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis, Ricardo Araújo Pereira filmou-se sozinho na biblioteca da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. “Na verdade, nunca foi uma competição”, comentou um utilizador do Twitter, perante a captura de ecrã que mostra uma pequena fracção da biblioteca do historiador “de que todos falavam”. Um outro utilizador entrega a “menção especial de surpresa” ao Manifesto Comunista, visível durante um comentário de Luís Marques Mendes.

Em casa, Luís Aguiar-Conraria e Daniel Oliveira decidiram mostrar mais do que o rectângulo da televisão permite ver e publicaram fotografias da totalidade das estantes. “Para a fauna das redes, aquartelada nas suas residências, as estantes com livros são a forma de os comentadores televisivos esmagarem os telespectadores com a sua pretensa sapiência”, escreveu Aguiar Conraria, numa crónica no Expresso que também menciona o campeonato — que, aliás, poderia originar uma competição mundial.

O The New York Times analisou os hábitos de leitura de algumas “celebridades convidadas a falar a partir de casa, frequentemente em frente das suas bibliotecas pessoais”. No Guardian, o apresentador britânico Adrian Chiles admitiu ter puxado os livros para a frente, de forma a garantir a sua (óbvia) presença, sem que os títulos fossem revelados durante as videochamadas, confessa, num texto que impõe as estantes de livros como o “maior símbolo de estatuto da era Zoom”. “Livros apropriados poderiam ser entregues à entrada de casa, por homens com máscaras, de forma a criar o visual certo”, ironiza.

Foi isso que começou a fazer uma livraria centenária de Boston, obrigada a fechar as portas em Março para conter a propagação do novo coronavírus. A equipa da Brattle Book Shop oferece-se para fazer a curadoria das prateleiras escrutinadas durante reuniões por videochamada, um serviço antigo com um propósito novo. “Olhar para os livros de alguém pode dizer-te muito sobre essa pessoa”, diz o dono da livraria, Ken Gloss, entrevistado pelo Boston Globe. “Põe lá atrás a impressão que queres dar.” Seguindo as escolhas dos primeiros clientes que pagaram pelo serviço, essa imagem é a de “alguém que lê bons livros e tem vários interesses” — “mas que também tem um lado mais leve e divertido”. Os livros sobre golfe são uma escolha popular.

“Haverá intelectuais reconhecidos que têm certamente uma biblioteca extensa em casa e estavam no seu ambiente natural”, comenta o árbitro do campeonato português de estantes. “Mas também me pareceu quase um elemento de ostentação. E esta foi a parte que achei mais piada. Como se a dada altura estivessem de facto a competir, a ver quem tinha a estante maior, para dizerem ‘reparem em tudo o que eu já li’”. Entretanto, em Abril, surgiu uma outra página de sátira no Twitter, para mostrar que “o que dizes não é tão importante como a estante de livros atrás de ti”. A Bookcase Credibility, uma referência à credibilidade que uma selecção de títulos pode acrescentar a uma gravação amadora, avalia a forma como comentadores enquadram as estantes no rectângulo que chega a casa de quem os vê.

“Acaba por ser uma marca desta época bizarra pela qual passamos, do confinamento, do trazer as televisões para casa”, diz o gestor do projecto Uma Página na Rede Social, que tem presença no Twitter e também no Facebook. “Quando olharmos para trás, daqui a cinco anos, vamos recordar-nos desta altura em quem muitas pessoas exibiam livros e livros atrás delas para mostrarem que são o melhor comentador de televisão.”

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