O Doente Molière regressa às livrarias

Um ano antes de receber o Prémio Camões 2003, o escritor brasileiro Rubem Fonseca (1925-2020) publicou na ASA esta novela policial que fez por encomenda para a colecção Literatura ou Morte, que partia sempre de uma personagem real do mundo literário (neste caso de Jean-Baptiste Poquelin, vulgo Molière). Dezoito anos depois, o livro regressa às livrarias pela Sextante Editora, que abre uma excepção, apesar das contingências no mercado, e presta homenagem ao seu autor recentemente falecido. O livro está em pré-venda, será lançado a 30 de Abril e pode ler aqui os primeiros capítulos.

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Rubem Fonseca dr

Sou um marquês de ilustre estirpe, da melhor nobreza, mas não sou escritor, apenas um leitor constante dos bons autores. Gostaria de escrever para teatro, de ser como o meu amigo Molière ou como Racine. Um dia escrevi uma tragédia e levei-a para Racine ler, pois estava inseguro, como todo autor iniciante. Esperava, é claro, que Racine gostasse da minha peça, evidentemente inspirada nos modelos gregos, como as que ele compunha. Racine, que ainda não era, nessa ocasião, o autor consagrado que viria a ser, perguntou se eu queria que me falasse com franqueza. Respondi que sim – que outra resposta poderia lhe dar? Então Racine me disse, sem rodeios, que eu desistisse de teatro. Se você tem vontade de escrever, acrescentou, escreva cartas, ou diários, não existem regras e nem é preciso talento para isso. Mas escrever para teatro, além de um dom especial, que você não tem, exige o conhecimento de inúmeros preceitos, que você ignora.

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Sou um marquês de ilustre estirpe, da melhor nobreza, mas não sou escritor, apenas um leitor constante dos bons autores. Gostaria de escrever para teatro, de ser como o meu amigo Molière ou como Racine. Um dia escrevi uma tragédia e levei-a para Racine ler, pois estava inseguro, como todo autor iniciante. Esperava, é claro, que Racine gostasse da minha peça, evidentemente inspirada nos modelos gregos, como as que ele compunha. Racine, que ainda não era, nessa ocasião, o autor consagrado que viria a ser, perguntou se eu queria que me falasse com franqueza. Respondi que sim – que outra resposta poderia lhe dar? Então Racine me disse, sem rodeios, que eu desistisse de teatro. Se você tem vontade de escrever, acrescentou, escreva cartas, ou diários, não existem regras e nem é preciso talento para isso. Mas escrever para teatro, além de um dom especial, que você não tem, exige o conhecimento de inúmeros preceitos, que você ignora.