A oportunidade que se vai perder

A evocação de uma memória faz-se à custa da sonegação de outra memória. Por isso, pode ser que estejamos perante uma oportunidade perdida: a de olhar para a poluição generalizada provocada pelas emissões de micro-partículas como o verdadeiro “inimigo a combater”, “custe o que custar”.

Continua a espantar-me o silêncio oficial generalizado perante a relação que patologistas e epidemiologistas têm evidenciado entre poluição atmosférica e quadros de imunodeficiência dos doentes internados com sintomas de infecção pela covid-19. Vale a pena olhar para a história para compreender este incómodo silêncio.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Continua a espantar-me o silêncio oficial generalizado perante a relação que patologistas e epidemiologistas têm evidenciado entre poluição atmosférica e quadros de imunodeficiência dos doentes internados com sintomas de infecção pela covid-19. Vale a pena olhar para a história para compreender este incómodo silêncio.

Sempre foi para mim um enigma a persistência temporal das celebrações do Dia do Armistício (11 de Novembro), da semana das papoilas à lapela e a ubiquidade dos padrões e estelas nacionais e locais evocativos dos soldados mortos durante a Primeira Guerra Mundial. Só agora começo a entender melhor os motivos desta verdadeira obsessão das entidades oficiais pelo estabelecimento e persistência de tais rituais colectivos e de tais inscrições em pedra que eternizam a memória da Grande Guerra nas paisagens dos centros urbanos europeus.

A construção da memória histórica não se faz apenas da vontade de organização em narrativa de acontecimentos críticos; faz-se também de selecção e apagamento de memórias por uma ou outra razão conflituantes com essa vontade. O Armistício em si foi, à época – ao contrário do que aconteceu com o 8 de Maio de 1945, na Europa e EUA – uma celebração parca. Havia uma razão para tal: a data coincidiu com o período final e mais trágico da segunda vaga da pandemia da gripe pneumónica. A historiografia desta pandemia contrasta com a das duas grandes guerras no sentido em que só na segunda metade dos anos setenta do século passado ela começou de facto a constituir-se como um corpus analisável. Por isso, só cem anos depois, ela é finalmente lembrada e integrada como conjunto tragicamente relevante na nossa memória histórica. Tão deslembrada ela foi que agora é chamada a “pandemia esquecida”.

Foto
Um hospital no Kansas (EUA) durante a epidemia de "gripe espanhola", em 1918 (National Museum of Health and Medicine)

Ficou para a história mundial como a “gripe espanhola”, não porque se tivesse originado em Espanha mas porque, tendo Espanha permanecido neutra na Primeira Guerra, a imprensa não foi sujeita a censura governamental e por isso o alastramento tremendo da epidemia letal foi sendo regularmente reportado (ainda que imputado a contaminação estrangeira: em espanhol, ficou conhecida como o “soldado de Nápoles”).

Esta censura generalizada resultou do pânico dos governos dos países em guerra, fortemente desacreditados pelo horror inútil da guerra de trincheiras, perante a possibilidade de alastramento pandémico da revolta popular contra o regime czarista russo. O surto da gripe pneumónica foi ocultado e, em resultado, as medidas de prevenção só começaram a ser introduzidas quando ela já estava completamente fora de controlo. Em Portugal, o director-geral da Saúde, Ricardo Jorge, que tinha sido duramente criticado anos antes por ter introduzido uma cerca sanitária no Porto por ocasião de uma epidemia de peste bubónica, optou por não recomendar medidas de isolamento, o que fez com que Portugal fosse o país europeu mais atingido (com uma fatalidade de 2% da população).

A pandemia da gripe matou mais que as duas guerras mundiais. Causou uma quebra dos PIB nacionais igual ou superior ao da Primeira Guerra. Traumatizou tão fortemente as populações que acabou por ser co-responsável pela instalação de vários regimes autoritários e ditatoriais que prometiam, à custa da perda de liberdades individuais, a (re)construção de sistemas administrativos estatais eficientes, a vitória de ideologias sanitárias e higienizadoras.

A insistência de várias autoridades nacionais na celebração do Armistício deve ser imputada, em parte, a uma silenciosa admissão de culpa pelo fracasso na gestão da pandemia da gripe. A evocação de uma memória faz-se à custa da sonegação de outra memória. Quando hoje vários governantes falam de “guerra contra o coronavírus”, reelaboram inconscientemente construções narrativas que sintomaticamente obliteram outras possibilidades de compreensão dos acontecimentos. Por isso, pode ser que estejamos perante uma oportunidade perdida: a de olhar para a poluição generalizada provocada pelas emissões de micro-partículas como o verdadeiro “inimigo a combater”, “custe o que custar”.