Times Square em Nova Iorque, quase deserta em tempos de quarentena do novo coronavírus
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Times Square em Nova Iorque, quase deserta em tempos de quarentena do novo coronavírus Reuters/Brendan McDermid

O que se ouve em quarentena? Projecto reúne os sons do silêncio na pandemia

Projecto colaborativo Cities and Memory, que reúne sons de todo o mundo, está à procura de sons ambiente em tempos de covid-19. O criador, Stuart Fowkes, encara o momento como único de uma perspectiva sonora. “É como se tivéssemos retrocedido uns cem anos”.

Activo há cinco anos, o Cities and Memory é um projecto colaborativo, feito a partir de Oxford, no Reino Unido, que reúne sons de todo o mundo, alguns deles remisturados. Agora, em plena pandemia do novo coronavírus, novos sons são chamados a integrar a colecção #StayHomeSoundsStuart Fowkes, o criador, teve a ideia para esta nova colecção sonora quando a zona onde vive se “tornou cada vez mais silenciosa”, conta ao P3.  “O mundo estava a mudar de uma perspectiva sonora.”

Os sons que agora recebe, diferentes de tudo o que era submetido antes, são agrupáveis em diferentes categorias: os humanos, de resistência — como “uma canção anti-coronavírus passada numa rádio no Senegal” ou “os aplausos aos serviços de saúde britânico nas varandas” —, da natureza — “pássaros a chilrear onde antes não se podiam ouvir, abelhas nas árvores”, sinal de que “a natureza, de certa forma, está a regressar” — e sons do abandono — “espaços urbanos anteriormente concorridos”, como Times Square, em Nova Iorque, onde “agora quase só se ouve uma espécie de ar condicionado vindo dos edifícios”, qual cenário “saído de um 28 Dias Depois (Danny Boyle, 2002)”.

Com as submissões, Stuart apela às pessoas que inscrevam alguma descrição, “sobre como se sentem, como a quarentena as está a afectar, o que esperam ou temem”. “Estamos nisto juntos”, sublinha. Receber emails com preocupações de pessoas de todo o mundo “tem sido uma experiência bem comovente”.

O Cities and Memory já cobria, com mais de 3500 sons, 95 países em todo o mundo. A #StayHomeSounds — que “tinha de ser uma extensão natural do projecto em si” — já contava, aquando desta entrevista, com mais de 30 países, incluindo Portugal, com sons de BragaLisboa, Leiria e Porto. “A adesão tem sido enorme, a iniciativa só começou há dias e a ideia é continuar até ao fim do isolamento social global, para ouvirmos como o som nos pode ajudar a contar esta história”, reflecte Stuart.

“Qualquer um pode enviar um som, não é preciso equipamento de captação profissional; pode ser a partir do quintal, do terraço, da varanda” — “até mesmo com o recurso a um telemóvel”. E o projecto é mesmo sobre “stay home sounds” (sons de ficar por casa): “Não queremos ninguém a quebrar a lei ou a quarentena para gravar”. Do isolamento, Stuart já recebeu sons “que puseram muita imaginação ao serviço”, como o do casal na Suécia que pendurou uma guitarra eléctrica numa árvore e deixou que o vento e a neve lhe dessem música. Todavia, “quem tiver de ir trabalhar, ou deslocar-se por outros motivos de maior, as submissões são também muito apreciadas”.

Por agora, Stuart tem explorado os sons no raio próximo de distância de sua casa em Oxford, “a tentar encontrar ângulos mais interessantes, sons locais” que antes pudesse ter ignorado “por considerá-los demasiado familiares”. Itália é um país com o qual tem “particular ressonância emocional”, por laços familiares, e está “desejoso de receber, de aldeias e vilas, sons como sinos de igrejas”, que em tempos foram “a cola social que unia as comunidades, o som mais alto”.

“É como se tivéssemos retrocedido uns cem anos em termos de som (…) Para todas as nossas vidas, este é um momento único e também o é de uma perspectiva sonora”, tece. “Antes era fácil ignorá-lo, mas agora, ainda mais do que antes, gostava que as pessoas continuassem a ouvir o mundo ao seu redor. O som ao redor.”

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