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Pedir aos mais idosos para lerem histórias aos netos por telefone é uma das estratégias eficazes para os manter ocupados e sentirem-se úteis
Reportagem

“Não quero morrer da doença, mas também não quero morrer de solidão”

Resistem a cumprir o isolamento social, embora sejam a população em maior risco. Afinal, por que razão os idosos desafiam mais as regras? E como podem filhos, netos e outras redes de proximidade ajudar a mudar esta história?

A pandemia não estava no guião e improvisar já é verbo de conjugação difícil para Adelino Ribeiro. Num instante, sem avisos prévios nem lógica capaz de o convencer, pediram-lhe que interrompesse a vida como a conhecia: os dias arrumados entre a saída matutina de casa, fazendo das ruas geografia de encontro e conforto, e o regresso já com a noite instalada, deviam ser substituídos por horas a fio entre o vazio de quatro paredes. Para sua protecção. Adelino Ribeiro, “70 anos e mais alguns”, sabe-se só, mas rejeita admitir-se frágil também. “Já passei pela gripe asiática em 1957. E a gripe das aves e as vacas loucas”, argumenta com alguma hesitação enquanto baixa os olhos. “Sei que agora é pior… Não quero morrer da doença, mas também não quero morrer de solidão.”

No saco plástico pousado no banco de pedra onde se sentou, numa praça no centro Porto, traz o tupperware para acondicionar uma refeição comprada num restaurante. No bolso, o garfo para poder comer por ali: “Voltamos ao tempo da marmita”, sorri. Para Adelino Ribeiro, olhos “azuis esverdeados muito bonitos”, como lhe disse uma médica há mais de 30 anos, fechar-se em casa é, além do mais, uma impossibilidade. “Morria à fome. Não sei cozinhar e não tenho dinheiro para encomendar comida”. Mora sozinho em Vila Nova de Gaia, mas jura não haver restaurantes a servir na sua área. Por estes dias, insiste em apanhar o autocarro até ao Porto como se nada tivesse mudado, embora quase tudo seja diferente. Faltam-lhe as conversas na rua, as mesas dos restaurantes onde enganava a solidão, as casas de banho de cafés e dos shoppings abertas. E até o ruído das malas dos turistas nos passeios se revestem agora de nostalgia. Os riscos de sair à rua estão grafados em páginas de jornal, repetem-se na televisão e na rádio, multiplicam-se na internet. Adelino Ribeiro diz conhecê-los: “Trago um sabão rosa, uma garrafa de água e vou lavando as mãos. Mas não me peçam para ficar em casa.”

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“Trago um sabão rosa, uma garrafa de água e vou lavando as mãos. Mas não me peçam para ficar em casa", pede Adelino Ribeiro

A população envelhecida parece resistir mais às regras de isolamento impostas pelo surto de covid-19 –­ e vai deixando pais, filhos e governantes à beira de um ataque de nervos. Mas cair na diabolização ou resumir a interpretação desse comportamento a uma mera teimosia é inútil e errado, avisam especialistas. Sónia Dantas, psicóloga e psicodramatista, explica que a “rigidez mental” e a “necessidade de controlar” tendem a crescer entre as pessoas mais velhas. “Somos menos flexíveis quando envelhecemos. Temos o mundo mais organizado em termos de rotinas e cumpri-las dá uma sensação de normalidade e, neste caso, de falsa segurança.”

O combate ao coronavírus interferiu com as “dimensões mais básicas da sociabilização”: dar abraços, beijos ou um aperto de mão ganhou estatuto de perigo. A questão já se colocou noutras pandemias, como a gripe A ou mesmo o VIH, com a disseminação da doença também ligada aos comportamentos individuais e de grupo e uma curva epidemiológica dependente do nosso comportamento, recorda Sónia Dantas. Mas a dimensão e intensidade do desafio actual são novas.

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Se parte da resolução do problema está nas nossas mãos, por que razão esta população – a mais frágil e a quem a doença ataca mais fatalmente – desafia indicações das autoridades médicas, passeando nas ruas e saindo de casa com frequência? Adalberto Carvalho, doutorado em Filosofia e com estudos em Psicologia e Ciências da Educação, pede, antes de tudo, uma “atitude de grande compreensão” em relação aos mais velhos: “preservar e respeitar a dignidade das pessoas” e “não as tratar como crianças” é essencial. O contrário só reforçará “mecanismos de auto-afirmação” e contribuirá para mais resistências e conflitos. “Tudo o que não precisamos agora…”

Esperança de vida e experiência

As causas para a resistência podem ser várias. Desde logo, a “esperança e perspectiva de vida”. Adalberto Carvalho recorre ao exagero propositado para a mensagem ser clara: “Se aos 15 anos achamos que a vida é eterna, aos 70 ou 80 sabemos que a morte está próxima.” Por isso, “quando se pede a alguém com essas idades para ficar em casa e prescindir de aspectos comezinhos do seu quotidiano - como o simples passeio, jogar cartas na rua, pescar ou ver pescar, apanhar sol – a pessoa sente que lhe está a ser roubada mais vida”. Depois, há a experiência de vida e a dificuldade em aceitar como menor o seu “capital de saber”. E ainda um minguado medo da morte, diz Sónia Dantas,  recordando um outro factor: o facto de uma pessoa com mais de 65 anos ser percepcionada como idosa não significa que ela se caracterize assim. “Por isso se referem muitas vezes a um ‘velhote’ amigo como se não tivessem a mesma idade dele...” 

Sentado num banco de jardim na Rotunda da Boavista, José Moreira aproveita o sol de olhos fechados. Tem 71 anos e certezas absolutas: “Em casa uma pessoa fica pior. Sempre fui da liberdade, não é agora que vai mudar.” O risco de contágio é real, mas ele, jogador e treinador de futebol durante décadas, diz saber como fintá-lo: “Fico longe das outras pessoas e não me acontece nada.” Sozinho e um zero a culinária, não come refeições quentes há uma semana. Mas continua a sair de casa às nove da manhã e a regressar às oito da noite. “Compro um sumo, uma peça de fruta, um pão e um rissol no supermercado e como aqui. Ninguém se lembra que a alimentação fraca também provoca doenças.” Isso e a ausência de estímulo, argumenta: só passaram duas semanas e já acumula saudades dos salões de dança onde passava todas as sextas e sábados à noite: “Eram o meu psicólogo e fisioterapeuta.”

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Albino Ferreira, 76 anos, mora sozinho e não sabe cozinhar. Diz ter de sair todos os dias para comprar refeições

Para manter a “sanidade”, Albino Ferreira, 76 anos, precisa de “ar puro”. Sentado num pilar junto ao jardim de São Lázaro, óculos de sol e fato impecável, tem aos pés um saco plástico cheio de cascas de laranja: “Acabei agora de almoçar.” Mora a poucos minutos, também sozinho, mas aproveita a saída para mudar de cenário, com a promessa de se recolher dali a nada. Cumprir o confinamento é outra conversa. Mesmo com explicações matemáticas abundantes, não entende a lógica de não poder sair à rua se, em família, as pessoas também estão em contacto.

Pôr os idosos a ajudar também os ajuda

A mudança de chip é missão difícil, admite Sónia Dantas. Caso se cruzasse com Adelino, José, Albino, ou outros tantos como eles, dir-lhes-ia: “Percebo que estar em casa é muito difícil. Mas não é para a vida toda. É só um período e é necessário. Fale com os vizinhos à janela, amigos, filhos e netos, ligue para uma linha de apoio ou para a SOS Solidão. Sei que, por estes dias, se vai sentir mal, mas se não o fizer é possível que venha a sentir-se ainda pior. Quanto mais rapidamente todos fizermos isto, mais rapidamente volta tudo ao normal.”

Filhos, netos, vizinhos e outras redes de proximidade como as juntas de freguesia têm também um papel crucial. Verdade válida para todas as faixas etárias: “Mantermo-nos ocupados reduz a ansiedade, angústia e pânico.” Com os idosos, devem ser adoptadas estratégias para que continuem a sentir-se úteis: pedir-lhes para contarem histórias aos netos ao telefone, conselhos sobre como entreter os mais pequenos ou receitas culinárias, pedir-lhes para ligarem a amigos das mesmas idades e saber se precisam de auxílio. As linhas de apoio psicológico – a do Serviço Nacional de Saúde e da Ordem dos Psicólogos (que tem vários folhetos com dicas para estes dias), o SOS Solidão ou as criadas pelas autarquias – podem ser importantes. Mas Sónia Dantas sugere mais proactividade: as próprias juntas de freguesia devem referenciar pessoas e pedir-lhes para referenciarem amigos.

No fundo, procurar estratégias para enganar o relógio e promover o envelhecimento activo mesmo no meio da inactividade, aconselha. O desafio é encarado, estes dias, pela Universidade Popular do Porto (UPP). Todas as semanas, a instituição elabora um boletim com inúmeros conselhos e ideias para manter a mente e corpo a funcionar – nem que seja a partir do sofá. Já em preparação está também a passagem dos cursos diurnos – onde a média de idade dos alunos é superior a 70 anos – para o mundo virtual, conta o presidente Sérgio Vinagre. “A interacção pessoal é muito mais rica e não estávamos preparados para isto”, admite. “Mas estamos a adaptar-nos e continuaremos a cumprir o nosso papel.”

Para esse combate à solidão todos estão convocados. Embora esse sentimento tenha “mais relação com a qualidade da rede afectiva do que com a faixa etária”, algumas ferramentas para o combater – sobretudo tecnológicas – estão menos acessíveis aos idosos. E isso complica-lhes a tarefa. Adalberto Carvalho coordena o Observatório da Solidão, do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo, e já tem em andamento uma investigação sobre os efeitos desta “solidão forçada”. “A pandemia dizima os idosos, mais de 20% da nossa população, física e emocionalmente.” Nessas idades, informa a partir de estudos prévios, 80% das pessoas admitem sentir-se sós - e isso deverá agravar-se agora. “Fenómenos ligados à depressão e o consumo de ansiolíticos devem crescer”, aponta, sem esconder o risco maior: “O extremo da solidão pode levar ao suicídio. É algo que poderá aumentar.”

O sol aquece o dia e Fátima Lima amorna a alma num banco de jardim do Marquês. Saiu para “fazer umas comprinhas” e decidiu sentar-se ali, aproveitando para cortar as unhas. “Dentro dos apartamentos a pessoa fica maluca”, justifica-se. A filha é enfermeira no Hospital de Santo António e “tem visto coisas que não são boas de ver”. Há dias, sentiu-se mal e foi parar à urgência: ataque de pânico. Mas Fátima Lima, 69 anos, não tem medo. Tal e qual Maria José, 78 anos, sentada num banco a alguns metros de distância: “Espero uma amiga, mas estou a ver que não vem…”, comenta, sem desistir de procurá-la. Há dias, de forma involuntária, um sénior descodificou a Adalberto Carvalho a ousadia de quem somou muitos anos, mas perdeu afectos e companhia: “Disse-me: ‘Sinto-me um sobrevivente. Todos os meus amigos morreram e eu não’. Esta frase explica muito…” 

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