O pangolim e nós

Um olhar atento sobre a origem do novo coronavírus revela que este pode ser consequência directa de uma relação insensata com a natureza. Talvez não seja só coincidência que o animal que transmitiu o vírus aos humanos, o pangolim, se encontre em perigo de extinção.

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O pangolim é o animal selvagem mais caçado do planeta e encontra-se em risco crítico de extinção. A hipótese, até agora incontestada na comunidade científica, é a de que os morcegos terão transmitido o vírus SARS-CoV-2 (responsável pela doença covid-19) aos pangolins e estes aos humanos. Vale a pena perceber em que contexto é que este animal, estranho e adorável, nos terá transmitido o vírus que parou o mundo. A contaminação ter-se á dado num mercado de Wuhan, China, com uma área de animais selvagens que são pré-vendidos ainda com vida para serem recolhidos, já mortos e esquartejados, cerca de 15 minutos mais tarde. Nestes mercados, cada exemplar vivo de um pangolim pode custar 600 dólares e é apreciado por inteiro: primeiro ferve-se em água para lhe serem extraídas as escamas que, depois de tostadas, moídas e cozinhadas, são usadas na medicina tradicional chinesa para curar malária, surdez ou reumatismo. A carne, geralmente estufada com gengibre e citronela, confere status a quem a serve.

O negócio da caça furtiva de pangolins rende milhões de dólares, resultantes do abate e captura de toneladas de animais por ano. Mas, um olhar atento revela que o negócio é maioritariamente intermediado por comunidades pobres que encontram no tráfico de animais uma oportunidade de subsistência. Nos mercados de animais selvagens vivos, misturam-se de forma caótica seres capturados em ecossistemas muito diferentes entre si, o que, somado ao stress e baixo nível imunitário dos animais, cria o ambiente certo para a transmissão de vírus intraespécies. Seguem-se transmissões zoonóticas; os vírus passam dos animais para os humanos. E eis-nos aqui chegados.

Em resposta à crise da covid-19, o governo chinês emitiu uma “Proibição Abrangente do Comércio Ilegal de Animais Selvagens, Eliminando os Maus Hábitos do Consumo de Animais Selvagens e Protegendo a Saúde e a Segurança das Populações” – onde interdita todo o comércio e ingestão de animais selvagens não aquáticos. Mas é omisso relativamente à produção e/ou captura de animais selvagens para fins medicinais, comercialização de peles ou investigação. Ou seja, as escamas dos pangolins vão continuar a ser procuradas. Não questiono a eficácia do medicamento obtido através destas escamas, pergunto se não será hora de o sintetizar em laboratório, evitando a extinção de mais uma espécie animal.

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Mercado de pangolins vivos numa aldeia remota entre a Brimânia e a China Ben Davies/LightRocket via Getty Images

Vazio fisiológico

Os pangolins têm um gosto pouco variado, alimentando-se apenas de térmitas e formigas, sendo capazes de as farejar até dois metros abaixo da terra, de as comer com uma língua do comprimento do seu próprio corpo, consumindo uma média de 70 mil formigas por ano. Em zonas da Ásia em que o pangolim entrou em extinção, as colónias de formigas-cortadeiras triplicaram, com consequências severas para a vegetação autóctone. São animais afáveis, que para protecção se limitam a soltar um cheiro nauseabundo e a enroscar-se em si próprios, ficando a parecer uma bola de escamas reluzentes. Sabendo do imenso fascínio que os humanos nutrem por bolas, é fácil perceber que na sua singularidade passiva, os pangolins se tenham tornado objecto de cobiça. Depois de séculos de predação, que aumentou exponencialmente ao longo do século XX, a existência dos pangolins é hoje assegurada na lei, mas são organizações no terreno que os protegem activamente da captura ilegal.

Na tradição chinesa existe a convicção de que é preciso preencher um vazio fisiológico, uma quebra na energia do corpo, que ocorre principalmente no Inverno, a que se dá o nome de jinbu. Acredita-se que este vazio seja preenchido com o consumo de animais selvagens, sendo o efeito mais tonificador se consumidos imediatamente depois de mortos. Pode não ser coincidência que tanto o surto de SARS (2002-2003) como o de covid-19 tenham eclodido durante o Inverno, estação em que o jinbu se faz mais sentir e cresce o consumo de animais selvagens.

Estas práticas, de perfil quase medieval, repetem-se um pouco por todo o mundo e exigem de nós gestos éticos e reparadores. Não basta declarar guerra ao vírus, como têm feito (quase) todos os dirigentes políticos mundiais, desconsiderando que esta pandemia, bem como todas as anteriores, são consequência directa da intrusão perigosa e dessensibilizada dos humanos nos ecossistemas terrestres. No interior destes desequilíbrios, os vírus encontram forma de saltar barreiras imunitárias e expandir-se. E se se trata agora de nos livrarmos de um deles, convém sabermos que a exposição foi nossa, reconhecendo a relação causal entre os nossos actos e a sua presença.

De qualquer modo, tratando-se então de uma guerra, talvez fizesse sentido desviar parte do orçamento gasto no sector militar para combater as causas últimas destes desequilíbrios sistémicos. Reforçar infraestruturas que permitem a saída da pobreza e investir em novas; promover a educação ambiental das populações para que estas possam fazer escolhas informadas; combater no terreno a caça furtiva e as causas que a possibilitam. Se travar esta guerra se resumir a investir milhões numa vacina, estaremos a curar uma pandemia sem cuidar de prevenir a próxima, que pode vir a ser mais letal e mais gráfica, nos sintomas e na morte. As nossas vidas podem vir a tornar-se num drible infernal de doenças endémicas.

A covid-19 parou o burburinho e a azáfama. O recolhimento a que nos obrigámos, #ficaemcasa, permite-nos olhar para o mundo (quase) sem nós. Durante este tempo de clausura chegam-nos ao telemóvel imagens e vídeos que nos fazem dar gargalhadas ou trazem lágrimas aos olhos. Chegam-nos mensagens com dados estatísticos, curvas em gráficos, que agora sabemos ler e que mostram como a terra e a atmosfera estão a recuperar sem o peso das nossas movimentações desconcertadas. O espaço telemediado que nos tem vindo a permitir estarmos próximos, espelha o quão juntos e a respirar o mesmo ar estamos na realidade. Talvez assim o conceito de casa comum se torne mais tangível para a larga maioria dos habitantes do planeta.

Mal se ache uma aberta vamos querer regressar às nossas vidas, e, para isso, voltar a confiar nas estruturas sociais e políticas existentes E aqui começa o problema. Tudo mudou dentro e fora de nós, mas as estruturas serão as mesmas. Vamos acordar para uma realidade que, perante desafios prementes, nos vai parecer um filme de época: esquerda e direita, democratas e republicanos, progressistas e conservadores – nada nos vai soar suficientemente moderno ou urgente. 

Talvez por isso seja o momento – até porque pode não vir a existir outro – que a definição de políticas, em todas as áreas da acção humana, seja antecedida pela leitura diligente do relatório IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C, das Nações Unidas, onde se aponta uma janela de 12 anos para evitar um aquecimento terrestre superior a 1,5º – o que ainda assim só deixará 30% dos corais marinhos vivos. O relatório é rico em explicações e em cenários alternativos, ilustrados de forma clara. A evidência mais repetida ao longo das suas páginas é a de que quaisquer soluções dependerão da capacidade de operar de forma síncrona e orquestrada. Dependendo da vontade integrada dos humanos, 12 anos terão que ser suficientes. Este vírus obrigou-nos a tomar medidas globais que, num futuro (muito) próximo, vamos ter de adoptar voluntariamente. E nesse sentido pode ter a utilidade de um ensaio geral.

Regresso aos pangolins, deixando expresso o desejo de os saber crescidos e multiplicados, para grande terror das formigas-cortadeiras, mas para bem de todos nós. O espaço de reflexão sobre a relação dos humanos com os animais, tem de ser ampliado, discutindo mesmo se os animais podem continuar a ter um papel central na alimentação humana, tendo por ponto de partida o relatório das Nações Unidas. Na realidade, teremos de em breve chegar a um contrato com o planeta, de que o Green New Deal dos democratas americanos pode ser um primeiro esboço – ainda que este por enquanto não refira o contributo da produção de mamíferos na emissão de gases e na desflorestação. Sem um contrato, a falta de qualidade do espaço comum, provocada por um vírus, por poluição ou pelo aquecimento global, nas suas infinitas manifestações, vai comprometer qualquer ideia de salvação individual ou grupal. Os ricos e os muito ricos continuarão a ter ilusões de superioridade, mas o ar sobre a ilha remota que comprarem vai ser o mesmo. Sem um contrato sério com a Terra, resta-nos enriquecer e comprar assento numa nave de Elon Musk em direção a Marte. Desejo sorte aos viajantes – vão precisar dela – mas não os invejo. Em Marte há metano no ar, faz muito frio (-127ºC com máxima de 20ºC) há violentas tempestades de poeira sobre extensas rochas de basalto negro e o pior, para pessoas muito ricas, é que não existe em Marte uma única planta, um único animal, nenhum oceano e nenhuma classe social inferior – nada que sugira ou assegure uma rica vida. Na verificável ausência de um planeta B, nenhuma solução passa hoje por regimes de excepção ou por formas declaradas de privilégio. E, felizmente, não existe fortuna capaz de comprar o oxigénio da terra toda.

Depois desta travagem brusca e niveladora, sucede-se a era pós-covid-19 – que pode bem vir a ser o princípio do fim do capitalismo tal como o conhecemos. Nessa era, d.C, tente-se perseguir, sempre que a hubris humana deixar, um belíssimo e muito antigo mandamento, uma regra de ouro, transversal a todas as religiões: fazer aos outros o que gostamos que nos façam a nós. Com uma adenda: que esta alteridade inclua os sistemas naturais. E talvez armados dessa nova postura, mais sensível, possamos começar a falar de humanismo. Até lá, ter cuidado, não morrer e não matar.