,Royalty-free
Getty Images
Conto em Tempo de Pandemia

Autocertificação (II)

Quando o mundo pára e tudo parece negro, faz algum sentido procurar os encantos da catástrofe? Ou a única maneira de sobreviver à catástrofe é, precisamente, procurar-lhe os traços salvíficos? Mas como e onde procurar a luz no meio da treva?

Suspender a respiração e contar até dez. Uma amiga dissera a Carlos, ainda a epidemia estava a gatinhar, na China, que era assim que uma pessoa ficava a saber se sofria de insuficiência respiratória. “Suspende a respiração e conta até dez, pausadamente. Se aguentares, está tudo bem”, dissera-lhe ela. Carlos postou-se em frente à porta fechada do quarto da filha, chamou por Sónia, depois disse-lhe:

— Suspende a respiração e conta até dez.

Ela perguntou para quê.

— Para saber se estás bem. Ouvi-te tossir há bocado.

Ela explicou que se engasgara.

— Suspende a respiração e conta até dez, já te disse.

Do outro lado da porta, Sónia respondeu:

— Tens medo de mim?

Apanhado de surpresa, Carlos ficou sem palavras.

— Como é possível amar-se alguém e ter medo dessa pessoa ao mesmo tempo? É possível?

Carlos respondeu:

— Não, não é. Ou se gosta ou se tem medo.

Notou uma mancha no tecto da sala, junto à porta do quarto de Sónia. Nunca tinha reparado. Seria humidade?

Sónia fazia listas de prós e contras de cada vez que tinha de tomar uma decisão importante. Fizera-o antes de comprar o bilhete de avião para regressar de Itália para Portugal, com escala em Amesterdão, já com a Itália em pleno estado de sítio. Demorara tanto tempo a compilar a lista que, quando apanhou o avião, por pouco não foi tarde de mais. Já no aeroporto de Amesterdão, soube que a Holanda acabara de cancelar todas as ligações aéreas com a Itália. A sua rebeldia era de uma estirpe peculiar. Era uma rebeldia organizada, metódica, sem impulsividade. Quando era pequena, o pai dizia que ela era um elemento de uma célula adormecida em território inimigo, a planear atentados. Sónia arredou para o lado o teclado do computador, pôs uma folha branca em cima do tampo da secretária, escreveu “Pandemia” no cabeçalho, depois traçou um risco de alto a baixo, dividindo a folha em duas colunas. No alto da coluna da esquerda, escreveu “Prós”. Do lado direito, escreveu “Contras”. Mal acabou de escrever a palavra “Contras”, arrependeu-se de o ter feito em letras tão gordas. Não sabia quanto tempo iam durar as restrições. Era preciso poupar papel. Escreveu na coluna da direita, em letra miúda:

Tudo se tornou finito.

Ouviu o pai entrar em casa. Pela primeira vez nos últimos quatro dias, Carlos saíra à rua. Tinha ido ao banco levantar dinheiro. Sónia colou o ouvido à porta. O pai falava com a mãe num tom a meio caminho entre o estupefacto e o assustado.

— Sabes o que eu vi ainda agora? Entrei no banco e estava um fulano com ar de pobre, de mendigo, a tossir para cima dos teclados das caixas multibanco. Tossiu ostensivamente e depois, com ar de desafio, olhou para as pessoas que estavam cá fora, na fila. Ninguém se aproximou dele, ninguém lhe disse nada. Nem sequer os funcionários do banco.

A mãe de Sónia perguntou a Carlos se levantara dinheiro. Ele respondeu que não, que não tivera coragem. Sónia voltou a sentar-se à secretária e escreveu na coluna dos “Prós”:

Agora já posso escutar às portas sem remorsos.

Pousou a caneta, ficou a olhar para o papel. Pegou novamente na caneta e escreveu por baixo:

Os mendigos podem finalmente vingar-se dos ricos.

Normalmente, quando fazia uma lista de prós e contras, formulava o dilema em termos simples e depois decidia num ou noutro sentido consoante o número de entradas que inscrevia em cada coluna. Naquele caso, não havia dilema nenhum. Mesmo que a lista tivesse mais “contras” do que “prós”, não estava nas mãos dela acabar com a epidemia. Não estava nas mãos dela decidir fosse o que fosse. Mas era preciso agir como se lhe coubesse uma qualquer decisão. Era preciso fingir. Quando mais não fosse, tratava-se de um mero exercício para passar o tempo. Escreveu, na lista de “Prós”, a terceira entrada:

Tenho muito tempo para mim.

Mas depois lembrou-se daquela vez, há uns anos, em que fora internada para ser operada à coluna. Entrara para o quarto logo de manhã e só fora operada ao final do dia. Levara consigo um livro e o computador portátil, mas, durante aquelas longas horas de espera, não conseguira ler uma só linha, não vira sequer um filme, uma série, nada. Só conseguia pensar na operação, só queria que o tempo passasse, não parava de olhar para o relógio. Na coluna dos “Contras”, escreveu:

Este tempo não serve para nada. É tempo-lixo.

PÚBLICO -
Getty Images

Carlos ouve os miúdos no andar de cima a lançarem-se pelo corredor fora, como bisontes assustados em direcção a um precipício. Admira-se de nunca os ouvir chorar. Álvaro enviou-lhe um texto que escrevera sobre a pandemia, um conto para publicar num jornal. Pediu-lhe a opinião. Apesar dos desentendimentos, eram grandes amigos. Carlos enervava-se com Álvaro, às vezes desligava-lhe o telefone na cara. No dia seguinte tornavam a conversar como se nada fosse. Eram como garotos, travavam amizade um com o outro a cada novo dia.

Sónia falou ao telefone com uma amiga, a Joana. Disse-lhe que queria estar com os avós, que não suportava a ideia de não os ver durante um mês, dois meses, talvez mais. Que os avós, fechados em casa, estavam a ficar deprimidos, que precisavam dela. Joana disse-lhe:

— Não podes visitá-los, não podes ser egoísta.

Depois fez uma pausa. Sónia pensou: “Ela está à procura de um argumento decisivo, como quem procura, na gaveta da cozinha, a melhor faca para cortar os legumes”. Joana disse-lhe então:

— Não podes pensar que os teus avós vão morrer a qualquer momento.

Sónia ficou desapontada. Naqueles tempos de guerra, as conversas telefónicas degeneravam muitas vezes em autênticas batalhas. Por momentos, temera sentir-se encurralada, reduzida à defensiva. Ao ouvir aquele argumento, percebeu que, afinal, o exército de Joana era uma tropa fandanga, camponeses arrebanhados à força para morrerem ao sol, nas areias de Alcácer-Quibir.

— Mas não é isso que toda a gente pensa agora? — respondeu, quase a custo, como que contrariada por ter razão, incomodada por lhe ser tão fácil reduzir a cacos aquele argumento. — Não estão todos, de repente, convencidos de que vão morrer a qualquer momento?

Depois de desligar, escreveu na coluna dos “Contras”:

As pessoas contradizem-se muito.

Depois riscou a frase, porque isso sempre acontecera. Talvez agora se notasse mais, é tudo. Em vez disso, escreveu:

A fragilidade de certos raciocínios vem ao de cima num instante.

O texto de Álvaro intitulava-se Autocertificação. Carlos achou-o interessante, mas disse a Álvaro que talvez não fosse aquele o momento de as pessoas exprimirem as suas idiossincrasias. Que a relação entre o escritor e o leitor talvez estivesse ferida. Álvaro respondeu-lhe que, nesse caso, a literatura morrera.

Sónia falava constantemente com os amigos ao telefone, às vezes por Skype. Alguns diziam-lhe que as mães e os pais se tinham transformado em monstros. Um colega da faculdade, o Henrique, disse-lhe que a mãe o proibira, aos gritos, de levar o cão à rua. Que o cão, agora, fazia cocó e chichi na marquise e que eles tinham de limpar. Que a casa cheirava a merda e a mijo. Naquela noite, Sónia sonhou que a Terra passara a ser habitada por monstros, pessoas com cabeças de animais, como deuses egípcios. Tinham corpos perfeitos, os homens eram musculados, as mulheres eram esbeltas, de seios belíssimos e ventres lisos, mas todos possuíam cabeças de animais. Sonhou que o pai tinha uma cabeça de íbis, com escamas de peixe coladas ao bico, a reluzirem com aquele brilho baço da madrepérola, e que a mãe tinha uma enorme cabeça de vaca, com uma nuvem de moscas a esvoaçar num carrossel à volta dos chifres. Deuses imundos, cobertos de suor, sentados à mesa, a discutir, a atirar comida uns aos outros. Só as vozes eram as mesmas. Fora assim que, no sonho, ela reconhecera o pai e a mãe, no meio dos outros deuses que se acotovelavam à volta da mesa.

Mandou uma SMS ao pai, a dizer que queria ir à casa de banho. Ele respondeu-lhe: “Podes ir. Mas põe a máscara e as luvas. Avisa quando voltares para aí.” Ela destrancou a porta do quarto e saiu. Agora, em vez de se limitar a fechar a porta, trancava-a à chave por dentro. Talvez fosse uma maneira de dizer aos outros e a si própria que estava ali fechada por vontade própria, não porque o pai a obrigasse, não porque o mundo a obrigasse.

O texto de Álvaro terminava com uma jovem, fechada no quarto pelos pais, de quarentena, a cantar a plenos pulmões a ária do catálogo, do Don Giovanni, usando os números da pandemia. Carlos reconheceu o episódio doméstico que ele próprio contara ao amigo, mas achou excessivo. Achou que ele estava a pisar o risco. Álvaro perguntou-lhe a que risco ele se referia. Mas, passada uma hora, mandou-lhe uma nova versão, em que a jovem cantava, em vez da ária do catálogo, o Non più andrai, farfallone amoroso, das Bodas de Fígaro, para fazer troça das metáforas militares que a pandemia fazia nascer como cogumelos venenosos, acabando a gritar “Cherubino alla vittoria, alla gloria militar!” Carlos respondeu-lhe que esta versão enfraquecia a personagem e tornava o final mais ambíguo. Debateram longamente o assunto, e Álvaro acabou por declarar que não sabia que final escolher. Que, pela primeira vez na vida, desejava que os outros decidissem por ele.

— Decide tu — pediu ao amigo.

PÚBLICO -
Foto
Getty Images

Sónia escreveu na coluna dos “Contras”:

No Skype, todos parecemos dez ou vinte anos mais velhos do que na realidade. Velhos e doentes.

Desejava ver crescer a coluna dos “Contras”. Embora cada uma das entradas nessa coluna a deprimisse mais, sentia que talvez fosse um passo para o final daquele pesadelo. Se os “Contras” se acumulassem em demasia, as próprias pessoas cairiam em si, poriam fim à loucura. Mas a verdade é que as entradas na coluna dos “Prós” também a deprimiam, pelo simples facto de existirem. Tudo a deprimia naquela doença planetária.

Álvaro confessou a Carlos recear que, ao publicar o texto no jornal, alguém achasse que a pandemia lhe estimulara a imaginação. Temia que alguém achasse que ele desejava o prolongar da pandemia, para poder continuar a escrever textos como aquele. Na cabeça dele, soou uma voz que não era a sua nem a de Carlos, a dizer: “textos de merda como aquele”. E disse ainda que aquela pandemia era uma coisa negra, medonha, capaz de contaminar tudo aquilo em que tocava. Capaz de contaminar a escrita, as palavras. Nesse aspecto, talvez Carlos tivesse razão. Aquela pandemia, contaminando as relações entre todas as pessoas, não podia deixar de contaminar as relações entre o escritor e quem o lê. Carlos sossegou-o, disse-lhe que escrever é um gesto solitário, sempre feito ao arrepio das comoções colectivas. É sempre um gesto egoísta. E que, num momento como aquele, tudo o que cheirasse vagamente a egoísmo seria apontado a dedo.

— Mas, às vezes — concluiu —, o nosso egoísmo pode ajudar os outros. Não os que nos estão mais próximos, talvez. Se escreveres bem, estarás sempre a ajudar os outros. Estarás sempre a ajudar quem te ler.

Sónia disse a Henrique:

— Dizem que estamos em guerra. Mas sempre nos apontaram, como exemplo da postura certa em tempo de guerra, o comportamento dos ingleses durante o Blitz. De dentes cerrados, a continuarem a sua vida normal.

PÚBLICO -
Foto
Londres depois de um bombardeamento das tropas alemãs

Henrique respondeu-lhe que as bombas não são contagiosas. Matam onde caem e pronto. E perguntou-lhe se, sendo assim, ela achava que a solução certa era um deixa-andar à Boris Johnson. Sónia ficou irritada, respondeu que não gostava de ser comparada com populistas e oportunistas como esse imbecil.

— Não é isso que eu quero dizer — continuou, já a galope, de lança em riste. — O que eu digo é que os ingleses, durante o Blitz, não se fecharam nas caves a ler brochuras sobre as bombas dos alemães, a analisar ao pormenor as estatísticas, a debater quantas pessoas, em média, eram mortas por cada uma das variedades de bombas. Tomaram as suas precauções e continuaram a viver. Só isso.

Depois de desligar, escreveu na lista dos “Contras”:

Quem não entra em histerismo arrisca-se a ser comparado ao Trump ou ao Bolsonaro.

E pensou: “Podem fazer-se perguntas incómodas durante um bombardeamento?” E depois: “Fazer perguntas incómodas não será, precisamente, a melhor maneira de aguentar um bombardeamento sem enlouquecer?”

Carlos abriu os olhos. Era de manhã. Lembrou-se da cena da véspera, no banco, o sem-abrigo a tossir para cima dos teclados das caixas multibanco. Pensou: “Porque é que ele se limitou a tossir? Porque é que não escarrou? Ninguém lhe teria feito nada. Ele gozava de uma impunidade total.” Depois lembrou-se do que vira ao regressar a casa, na rua transversal àquela onde eles moravam. Um homem da idade dele, cinquenta e tais, de máscara e luvas, parado no asfalto, a falar com uma velhinha que, apoiada no parapeito da janela, se debruçava do segundo andar de um prédio. No momento em que passou, ouviu o homem a dizer em voz muito alta, para se fazer entender àquela distância e vencer o obstáculo da máscara que lhe cobria a boca:

— Cuide de si, mãe. E não beba tanto, que o seu problema é só esse.

Arredou os lençóis, sentou-se na cama. Pensou: “É possível gostar muito de alguém e ter muito medo dessa pessoa, é possível sentir pelos outros muitas coisas ao mesmo tempo, amor e medo e inveja e aversão e repugnância e instinto protector. Não é preciso escolher a cada momento.” Viu as horas. Eram onze da manhã, a casa estava em silêncio.

Parado diante da porta fechada do quarto da filha, pediu-lhe:

— Suspende a respiração e conta até dez. É para teu bem.

Sónia mandou-o passear. Carlos ergueu a mão, aproximou-a da maçaneta da porta, hesitou. No momento em que ia tocar-lhe e rodá-la, viu o sangue a escorrer. Sem dar por isso, num gesto automático, quase reflexo, arrancara com os dentes, momentos antes, uma pele do indicador, junto à unha. Lambeu o sangue num gesto ávido, depois arrependeu-se. Olhou para o alto. A mancha no estuque do tecto, pareceu-lhe, era agora maior, marmoreada, como a pele de um animal. Ou como a pele de um velho. Como a sua pele, cheia de sinais.

— Suspende a respiração e conta até dez, Sónia — pediu em voz alta, cansada. — Sou eu que te peço.

Sentada à secretária, com a porta do quarto trancada à chave, por dentro, num silêncio obstinado de criança amuada ou de animal doente, Sónia pegou na caneta e escreveu na coluna dos “Prós”:

Tudo se tornou finito.


19 de Março de 2020
[email protected]