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LUSA/PAULO NOVAIS
Reportagem

Samuel criou um bosque onde trata as árvores pelo nome

Há mais de 20 anos, numa quinta agrícola abandonada em Vila Nova de Poiares, Samuel Vieira começou a criar um bosque. Terreno com cerca de três hectares é hoje um refúgio natural.

A Quinta da Moenda, em Vila Nova de Poiares, não era mais do que um espaço tomado pelo mato nos anos 1990. Samuel Vieira decidiu transformar o terreno num bosque nativo, sempre de mãos dadas com a natureza. Tudo começou há mais de 20 anos, quando era ainda estudante na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e decidiu criar, com um grupo de amigos, um refúgio para animais abandonados, na Quinta da Moenda.

Naquela quinta agrícola abandonada com cerca de três hectares, situada numa encosta, Samuel encontrou uma floresta dominada por mato alto e acácias, onde as oliveiras morriam de pé com falta de sombra e o solo era tão seco que criava nuvens de poeira no Verão. Decidiu que tinha que mudar a situação, na altura a pensar na protecção dos cães e gatos contra possíveis fogos numa zona acostumada a eles.

Chegou à quinta sem saber distinguir um carvalho de um castanheiro, conta à Lusa Samuel Vieira, hoje com 53 anos. “Era um jovem que variava entre poucos e nenhuns conhecimentos”, acrescenta. Leu livros, ouviu as dicas dos seus amigos Joaquim Sande Silva, hoje professor na Escola Superior Agrária de Coimbra, e Miguel Cruz, especialista em incêndios florestais na Austrália, e foi aplicando o conhecimento no terreno.

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Samuel Vieira Paulo Novais/Lusa

Joaquim Sande Silva recorda que é comum levar os seus alunos até àquele espaço para mostrar “como alguém que não tem formação em engenharia florestal consegue fazer melhor do que muitos engenheiros florestais por esses país fora, simplesmente sabendo aprender e observando como a natureza funciona, apoiado por alguma literatura”. “Neste momento, está a par de qualquer técnico florestal com formação superior”, acrescenta.

Hoje, Samuel percorre o espaço e aponta para as árvores, dizendo os nomes científicos de cada uma das espécies que foram despontando ao longo de mais de duas décadas, bem como algumas histórias das plantas que ainda se lembra de ver pequenas e mirradas. O terreno, que era emprestado, acabou por ser doado pela proprietária, Maria do Carmo Nogueira, à Liga Para a Protecção da Natureza (LPN). Os animais que por lá estavam acabaram por ser transferidos para Montemor-o-Velho em 2006, restando desses um cão louro afável, de nome Capitão Duarte.

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“Capitão Duarte” Paulo Novais/Lusa

Depois de anos a dividir as horas entre a quinta, os animais e o trabalho, Samuel centra-se naquele bosque que foi ajudando a moldar ao longo do tempo, com muito pouca plantação — não terá plantado mais de 30 árvores nestas duas décadas, algumas delas teixos e azevinhos, cada vez mais raros no país, e que decidiu reintroduzir.

Ali optou por tirar aquilo que não interessava, como acácias, tojos e urzes, e dar um empurrão a árvores que foram germinando de forma natural. Neste momento, a Quinta da Moenda é uma espécie de “pequena reserva” ainda em construção, onde se encontram o salgueiro, o amieiro, o sabugueiro, o castanheiro, a pereira e a macieira selvagens, o carvalho-negral, o carvalho-cerquinho e o carvalho-roble, a espécie mais predominante no bosque.

“Este carvalho”, diz, apontando para uma árvore jovem com três ou quatro metros de altura, “a primeira vez que o conheci era uma coisinha pequenina”, que dava pela anca. Ao longo do bosque que foi moldando, há árvores com que tem uma relação mais forte. “Lembro-me, em termos personificados, de muitas delas, de quando eram pequenitas e que fui tratando e podando”, recorda.

Há o Matuzalém, o único carvalho grande que já estava na quinta, a cerejeira Troika, que plantou no local onde uma cadela com o mesmo nome se deitava para apanhar sol, ou o Primus, um carvalho que foi uma dessas árvores que necessitou de cuidados especiais. “Foi atingido por um fungo e era como se deitasse sangue negro. O fungo atacava os vasos e parecia que produzia uma espécie de alcatrão. Parecia que ia morrer por causa daquilo”, conta. Ao longo do tempo, foi limpando o carvalho, tirando a madeira apodrecida e acabou por se curar, restando uma “cicatriz” no tronco do Primus a registar esses tempos.

“A natureza fez a maior parte do trabalho”

Grande parte do bosque parece, por esta altura, algo cinzento, com a maioria das árvores sem folhas, que rebentarão com o começo da Primavera. “Deveriam ter vindo daqui a uns tempos, que vai ficar mais bonita”, diz Samuel, que também gosta de ver a floresta assim, contrastando com o verde eterno dos eucaliptais e acaciais. “Aquele é o Portugal verde”, conta, a rir-se.

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Paulo Novais/Lusa

Joaquim Sande Silva recorda que aquele “Portugal verde” nada tem a ver com a floresta nativa da região, bastando apenas socorrer-se da toponímia da zona, onde vários nomes não são mais que derivações de palavras como castanheiro, carvalho ou sobreiro. Chega-se à zona que ladeia uma ribeira e a diferença é ainda mais evidente. De um lado um acacial, do outro floresta nativa, sem mato.

Mas nem sempre foi assim junto da ribeira. Do lado da Quinta, também a acácia era rainha e dona do espaço, até Samuel chegar e começar um trabalho paciente e persistente, que levou ao desaparecimento dessa espécie invasora, em cerca de três anos de intervenção, sem usar uma gota de herbicida. “Não se pode dizer que foi uma coisa só minha. A natureza fez a maior parte do trabalho”, vinca.

Joaquim Sande Silva recorda-se bem de como era a quinta: “uma brenha de mato, misturada com algumas folhosas”. O também membro da Observatório Técnico Independente dos Incêndios chama a atenção para a terra que se pisa do lado da quinta, perto da ribeira, tapada por uma boa camada de folhagem das árvores e heras. “É muito difícil espécies arbustivas, como urzes, tojos ou espécies exóticas como as acácias instalarem-se aqui”, nota o docente da Escola Agrária, enquanto toca no solo negro e húmido.

A partir deste momento, não é necessário grande trabalho de limpeza e constantes intervenções de sapadores para garantir que as acácias não retornam. “Aqui, deixámos de precisar de fazer intervenções”, nota o docente, salientando como hoje se está perante uma floresta que, para além de bonita, é mais resistente a incêndios.

Samuel contempla a floresta, que vinca sempre que é mais uma criação da natureza do que sua, e afirma que ver as árvores crescer é como a surpresa de um pai quando repara que o filho está mais velho. “Só passado algum tempo é que nos apercebemos o quanto já cresceram”, diz, assustando-se sempre que se lhe recorda que já lá vão mais de 20 anos desde que chegou àquela quinta.

Mas a floresta que foi criando e vendo crescer não é apenas um projecto ou um legado que deixa, é também um sítio onde se pode encontrar com os seus pensamentos, onde relaxa. “Eu devo muito mais à mata do que a mata a mim”, vinca Samuel, cuidador de animais, convertido em cuidador de árvores.

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