Rui Moreira lamenta demissão de Regina Guimarães do Conselho Municipal de Cultura

Escritora demitiu-se depois da folha de sala de um espectáculo seu não ter sido publicada. Rui Moreira diz que Regina Guimarães “vai fazer falta”, mas fala numa realidade com “utilidade política” que “não corresponde à realidade”

Foto
Escritora já não integra o Conselho Municipal de Cultura Fernando Veludo/ nFactos

O presidente da Câmara Municipal do Porto lamentou esta quinta-feira a demissão da escritora Regina Guimarães do Conselho Municipal de Cultura porque “vai fazer falta” e acrescentou que nunca lhe pediu, quando a convidou, que “avalizasse fosse o que fosse”.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

O presidente da Câmara Municipal do Porto lamentou esta quinta-feira a demissão da escritora Regina Guimarães do Conselho Municipal de Cultura porque “vai fazer falta” e acrescentou que nunca lhe pediu, quando a convidou, que “avalizasse fosse o que fosse”.

“Lamento, por isso, que apresente a demissão do Conselho [Municipal de Cultura]. Vai-nos fazer falta. Tenho pena que não me tenha escrito, ou telefonado, e pedido que agendasse um conselho para tratar deste ou daquele assunto. A Regina foi sempre muito interventiva nas sessões em que participou e sabe bem que nunca, por um momento que fosse, lhe limitei a liberdade. Nunca a censurei, nunca a condicionei”, diz o autarca na missiva.

“Compreenderá que não me sinta, eu próprio, condicionado por uma narrativa que, desculpe, pode ter utilidade política mas não corresponde à realidade”, acrescenta o independente Rui Moreira, numa carta endereçada a Regina Guimarães e a que a Lusa teve acesso.

A escritora demitiu-se do Conselho Municipal de Cultura da Câmara do Porto, decisão que comunicou por carta ao presidente da autarquia e que tem a ver com uma “dessemelhança de concepções”.

“A decisão tem a ver com os acontecimentos recentes, com a questão da censura, com o facto de que o próprio conselho parece não ter julgado prioritário reunir-se por uma coisa destas. Não estou lá a fazer nada porque o que a mim parece essencial, não parece essencial ao Conselho. Há aqui uma dessemelhança de concepções do mundo”, referiu, em declarações à agência Lusa, Regina Guimarães.

No dia 3 de Fevereiro, Regina Guimarães acusou a direcção do Teatro Municipal do Porto (TMP) de ter censurado um texto da sua autoria no qual criticava a noção de cidade líquida de Paulo Cunha e Silva, ex-vereador que morreu em 2015. O texto foi escrito para integrar a folha de sala - que não chegou a existir - do espectáculo TURISMO, da Companhia A Turma, com texto original e encenação de Tiago Correia que subiu ao palco nos dias 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Posteriormente, a 10 de Fevereiro, o presidente da câmara reiterou a sua total confiança no director do TMP, Tiago Guedes, que tinha sido acusado de censurar o texto de Regina Guimarães, sublinhando que sempre entendeu que o texto devia ter sido publicado. O voto de confiança de Rui Moreira, que acumula o pelouro da Cultura desde que Paulo Cunha e Silva morreu em 2015, foi anunciado no início de uma reunião de executivo municipal, depois de um encontro informal e privado onde foi ouvido Tiago Guedes.

Na missiva, Rui Moreira lembrou que, quando a convidou, nunca lhe pediu que avalizasse fosse o que fosse, tendo-a convidado a título individual pelo reconhecimento de que tem uma opinião, um passado, uma experiência e uma visão crítica que é útil à cidade. “Nunca calei ninguém”, garantiu.

Rui Moreira assumiu que o seu texto deveria ter sido publicado na folha de sala, conclusão unânime do executivo municipal, contudo recordou que o teatro foi devolvido à cidade e não deixará que, por este episódio, seja capturado. “Sim: o seu texto não deixaria de recolher as críticas que, aliás recolheu, mas isso é o preço da liberdade. Da sua liberdade de se expor. Essa é uma matéria da sua consciência”, frisou.

A escolha dos conteúdos é uma competência exclusiva dos directores artísticos, sublinhou, acrescentando que não é do presidente da câmara, nem da Regina, nem aleatória. “Recordo-lhe, a terminar, o seguinte: a expressão artística, a do teatro em particular, é política. Isso não pode significar que seja apropriada pela política ou pelo sectarismo. Isso não. O teatro é sempre político mas não é da política. À política, pelo menos aquela que eu defendo e em que acredito e milito, compete garantir o equilíbrio sempre ténue entre a liberdade individual e colectiva e a integridade e a coerência da criação artística”, concluiu.