Romeu e Julieta são dois cometas a caminho da explosão

John Romão encena no Teatro Nacional D. Maria II, até 1 de Março, o clássico de Shakespeare – agora numa versão pós-binária, ou mesmo pós-sexual. Os dois amantes são corpos em queda: presas da velocidade, nem sequer se tocam.

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Mariana Monteiro e João Cachola são Romeu e Julieta, dois corpos em queda Filipe Ferreira

Aquilo que vemos em palco são cinco corpos em queda. Cinco corpos num limbo, a caminho da morte. Benvólio, Mercúcio, Tebaldo, Romeu e Julieta entalados entre céu e terra, entre vida e morte, “entre estados”, como descreve John Romão acerca da sua versão de Romeu e Julieta em estreia esta sexta-feira no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde fica até 1 de Março.

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Aquilo que vemos em palco são cinco corpos em queda. Cinco corpos num limbo, a caminho da morte. Benvólio, Mercúcio, Tebaldo, Romeu e Julieta entalados entre céu e terra, entre vida e morte, “entre estados”, como descreve John Romão acerca da sua versão de Romeu e Julieta em estreia esta sexta-feira no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde fica até 1 de Março.

“Estes corpos parecem ter uma nostalgia do futuro, ou saudades da morte”, diz o encenador. “Estão bem enquanto mortos e acordam para voltar a morrer.” Para Romão, o texto de Shakespeare é dominado pela velocidade – e daí também os corpos em queda –, numa corrida para a “morte, lugar onde se cumprirá o seu amor, o seu desejo, e onde sentirão que os seus corpos estão vivos”. A morte aparece aqui como “apogeu da velocidade”, como lugar de encontro – e como momento em que estas personagens marcantes da história do teatro se despem de camadas e de títulos. Ou seja, deixam de ser Capuletos ou Montéquios, deixam de ser homens ou mulheres, deixam até de nos aparecer como seres sexuais.

Tratando-se Romeu e Julieta de um dos textos mais representados de sempre, e dos mais presentes no chamado imaginário popular, esse facto que poderia ser dissuasor ou desanimador é para John Romão, bem pelo contrário, de um magnetismo irresistível. Apesar de admitir ao PÚBLICO que nunca tivera “a intenção de trabalhar um texto clássico da dramaturgia universal”, interessava-lhe trabalhar em palco alguns destes conceitos, nomeadamente “o corpo contemporâneo e o lugar que ele ocupa”. Mas havia também esse dado aliciante de mexer num texto “muito rico a nível de expectativas e do conhecimento pré-adquirido que o público já tem e que acaba por ser uma arma brutal para um encenador, porque se pode trabalhar com expectativas e imaginários já criados em torno do texto”.

Embora possam não ser tantos assim aqueles que leram Romeu e Julieta, não há quem não tenha uma ideia clara daquilo que o texto representa – por muito que possa ser equivocada, como nos mostrou o Nature Theatre of Oklahoma na sua abordagem à peça. “Essa narrativa tão concreta que existe no imaginário de cada espectador”, diz John Romão, “é muito interessante”. “Costumo dizer que Romeu e Julieta é quase um produto cultural, que nos pertence a todos e está enraizado na nossa sociedade, da cultura elitista à cultura popular”, acrescenta. Daí que o encenador se ocupe a “despir” as expectativas do público, por exemplo, ao fazer desaparecer todas as personagens adultas da peça. “Os adultos são uma espécie de figuras de poder ou de autoridade que não precisamos que existam no plano físico”, justifica John Romão. “Até porque é, muitas vezes, à luz das leis que vivemos e que nos permitimos fazer ou não coisas. E isso responde a uma certa imaterialidade – o poder é imaterial.”

Esse poder invisível abastece, afinal, aquele que é, no entender do encenador, o lugar de encontro entre Romeu (João Cachola) e Julieta (Mariana Monteiro): a transgressão. Aquilo que os dois jovens amantes descobrem através do seu desejo é “o poder da transgressão, que é também o poder do amor e da morte, todos num mesmo plano.” Pensando a morte como um lugar seguro, Julieta diz a dada altura: “Se tudo isto correr mal, tenho sempre a possibilidade de morrer.” Essa possibilidade é outra marca que Romão quis imprimir ao seu espectáculo. Cada gesto e cada fala carregam em si o potencial do triângulo formado por amor, morte e transgressão. E é por isso que vemos estes corpos em queda, num não-lugar, num estado de potencial, em que a concretização está sempre por se cumprir.

Lutas e beijos sem toque

A transgressão, por outro lado, alia-se à exclusão dos adultos como uma imagem de recusa em viver a partir de uma herança – genética, familiar ou social. Romeu e Julieta aparecem-nos aqui como motores de uma construção individual e de uma decisão consciente em não se aterem à inevitabilidade de serem quem lhes diziam que tinham de ser. Julieta, acredita o encenador, “está já morta naquela casa”, enquanto Romeu é “um anti-corpo”, perguntando-se em vários momentos-chave da peça onde estará ele – como se todos procurassem encontrá-lo numa fisicalidade que Romão lhe quer negar, por achar que este existe sobretudo enquanto “impulso para a morte”.

Também por isso, Romeu e Julieta encontram-se no tal não-lugar, numa peça em que quase não existe toque – nem nas cenas de luta, nem nos corpos que se desejam e se beijam, reflexo de um tempo presente em que as relações acontecem tantas vezes num plano virtual. É essa também a velocidade que reclama John Romão. A velocidade da luz em que vivemos, ligados à corrente, na possibilidade de estarmos em milhentos lugares em simultâneo e, na verdade, em nenhum deles fisicamente. Em rigor, o único contacto em palco assenta na relação com personagens secundárias e alheias a este movimento em queda, no precipício para a morte. Como se os gestos terrenos não deixassem de existir mas fossem completamente incapazes e irrelevantes para o estado a que Romeu e Julieta se entregam, “como dois cometas prestes a chocarem numa explosão”, desligados de um mundo em que não podem ou não conseguem estar juntos.