Reino Unido proíbe carros novos com motor a combustão em 2035, híbridos incluídos

O anúncio de Johnson não é inédito, mas não só diminui o prazo de transição para a total eliminação de combustíveis fósseis, como junta ao bolo os automóveis apoiados num sistema híbrido.

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David Attenborough (à direita) juntou-se a Boris Johnson (à esquerda) na apresentação da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Reuters/POOL

A comercialização de veículos com motor térmico, seja alimentado a gasolina ou gasóleo, e mesmo que se apoie num sistema híbrido, será proibida a partir de 2035 no Reino Unido — ou mais cedo, se uma mais rápida transição for possível, avança a Reuters. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Boris Johnson, durante a cerimónia de apresentação da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, agendada para Novembro, em Glasgow. “Temos de lidar com nossas emissões de CO2”, disse Johnson, esta terça-feira, no Museu de Ciência de Londres, citado por aquela agência. “Como país e como sociedade, como planeta, como espécie, devemos agir agora.”

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A comercialização de veículos com motor térmico, seja alimentado a gasolina ou gasóleo, e mesmo que se apoie num sistema híbrido, será proibida a partir de 2035 no Reino Unido — ou mais cedo, se uma mais rápida transição for possível, avança a Reuters. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Boris Johnson, durante a cerimónia de apresentação da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, agendada para Novembro, em Glasgow. “Temos de lidar com nossas emissões de CO2”, disse Johnson, esta terça-feira, no Museu de Ciência de Londres, citado por aquela agência. “Como país e como sociedade, como planeta, como espécie, devemos agir agora.”

Numa altura em que o cerco à indústria automóvel aperta, de forma a reduzir drasticamente as emissões de gases poluentes, vários países e cidades avançam com restrições de circulação, sobretudo a carros diesel: Paris, Madrid, Cidade do México e Atenas planeiam proibir os veículos a gasóleo de entrar nos centros urbanos até 2025; em Lisboa, a autarquia revelou, na semana passada, a decisão de tirar os carros da Baixa da cidade, com um projecto que ainda não tem data de conclusão definida. Já em França a perspectiva é para que a venda de carros novos movidos a combustíveis fósseis seja interdita a partir de 2040.

Neste sentido, o anúncio de Johnson não é inédito. Mas, não só diminui o prazo de transição para a total eliminação dos combustíveis fósseis, como junta ao bolo os automóveis apoiados num sistema híbrido, isto é, veículos que contam com uma pequena bateria e um engenho eléctrico, que os torna capazes de percorrerem curtas distâncias em modo eléctrico (habitualmente, até dois quilómetros desde que a uma velocidade constante e contida). Além disso, os dois motores (gasolina ou diesel e eléctrico) trabalham em conjunto, potenciando a poupança de combustível e a redução de emissões.

E, além destas medidas terem merecido o aplauso do activista climático David Attenborough, presente no evento, a decisão pode ser ainda um aliciante para as marcas que estão já a apostar nas soluções de mobilidade eléctrica ou a hidrogénio. Isto, numa altura em que as vendas de automóveis no Reino Unido ainda reflectem uma clara preferência pelos motores térmicos: 90% dos carros vendidos são a gasolina ou a gasóleo.

As razões, explica a Reuters, estarão relacionadas com a disponibilidade limitada de pontos de carregamento. Algo que poderá ser ultrapassado após, em 2019, o governo britânico ter anunciado o reforço da rede com um investimento de 2,5 milhões de libras (2,95 milhões de euros), destinados à criação de mais de mil pontos de carga em zonas sobretudo residenciais.

A decisão surge ainda numa altura em que o Brexit promete abalar as operações de várias marcas de automóveis e de componentes no país que, mesmo sem referirem a saída do Reino Unido da União Europeia como uma das causas, têm vindo a preparar-se para o pior dos cenários: a Michelin, por exemplo, anunciou o encerramento da sua fábrica em Dundee (Escócia) e a Jaguar Land Rover, de capitais indianos, tem vindo a despedir, enquanto a nipónica Nissan passou a produção do X-Trail da fábrica de Sunderland para Kyushu, no Japão, e a Honda anunciou o encerramento da linha de produção em Swindon, a partir de 2021, resultando na quebra de 3500 postos de trabalho.

As novas directivas britânicas estão, para já, a ser estudadas com atenção por quem faz dos híbridos um dos seus principais negócios, como é o caso da Toyota que, em 2019, vendeu no Velho Continente mais híbridos do que carros de motor exclusivamente térmico: 52% em todo o continente, com a cifra a escalar até aos 63% se se tiver em conta apenas os países da Europa Ocidental.

A Toyota Europa, numa nota enviada ao PÚBLICO, considera que é “preciso entender os detalhes do anúncio do governo [britânico]” antes de elaborar quaisquer comentários. No entanto, a marca nipónica, que tem feito da tecnologia híbrida uma das suas bandeiras, afirma “continuar a acreditar que os veículos eléctricos híbridos oferecem uma opção importante, acessível e prática de reduzidas emissões  reduzindo o impacte do CO2 e melhorando a qualidade do ar hoje e nos próximos anos”. “Acreditamos que uma gama de tecnologias de baixa e zero emissões, como veículos híbridos, híbridos plug-in, eléctricos com bateria e eléctricos com célula a combustível de hidrogénio, será necessária para apoiar a transição necessária.”

Já a britânica Sociedade de Fabricantes e Comerciantes de Automóveis (SMMT, na sigla original) alertou para os perigos deste anúncio. Citado pelo jornal The Guardian, o chefe-executivo da SMMT, Mike Hawes, considerou ser “extremamente preocupante que o governo aparentemente tenha alterado as metas para consumidores e indústria numa questão tão crítica” como a dos híbridos, considerando que o anúncio poderá levar a “prejudicar as vendas de carros híbridos e limpos”.