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Novo barco já chegou às Flores e vai “ajudar bastante” a regularizar o abastecimento à ilha

O “Malena”, a embarcação fretada pelo Governo dos Açores, já abasteceu esta terça-feira as Flores, ilha que vive um cenário de escassez de bens desde 13 de Dezembro. População está satisfeita com o tamanho da embarcação.

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Na semana passada, a ilha foi abastecida pelas Forças Armadas DR

Ao final da manhã desta terça-feira, o navio “Malena” atracou no porto das Lajes das Flores, com mercadorias e bens que estavam em falta na ilha. O mau estado do porto, ainda em parte destruído pela passagem do furacão Lorenzo no início de Outubro, e as constantes condições meteorológicas adversas impediram o abastecimento da ilha, levando à revolta da população, que se queixou da “falta de tudo” nas lojas e supermercados. Situação que pode agora ser ultrapassada com o novo navio fretado pelo Governo Regional, o “Malena”.

“Hoje é um dia histórico. No meio desta tempestade ficou ali uma calmaria naquela zona, parece que foi mesmo de propósito, os deuses estiveram connosco e foi impecável”, disse ao PÚBLICO Miguel Costa, Presidente da Portos dos Açores, empresa pública regional responsável pelas infra-estruturas portuárias na região.

Na primeira viagem para abastecer a ilha, o “Malena” levou 60 contentores cheios, oito viaturas e 11 contentores vazios, para transportar gado. Os 87 metros de comprimento e quatro metros de calado asseguram uma maior capacidade de abastecimento e melhores condições de navegabilidade, tal como tinha dito ao PÚBLICO fonte da secretaria dos Transportes na semana passada.

Na semana passada, o abastecimento da ilha foi garantido pelas Forças Armadas, através de um navio e um avião militar, uma vez que não havia abastecimento desde 13 de Dezembro. “Deu para desenrascar”, diz Sandra Amaral, empresária, confessando que são precisas embarcações com maior capacidade. A gerente do snack-bar Barraca Q’Bana já viu o barco e ficou satisfeita. “Um barco desta capacidade já nos vai ajudar bastante. Comentam que só em carga de correio vem 27 paletes, já é muita coisa”. A empresária diz que “todos na ilha” estavam “à espera deste dia”, mostrando-se confiante para o futuro. “Só existe um supermercado com pão de hambúrguer, mas agora parece que vai melhorar, a coisa já esteve mais negra”.

Também Mário Medeiros, proprietário do Café Ocidental, esteve no porto das Lajes e gostou do que viu. “Parece um barco com as dimensões que a ilha precisa. Aquele barco serve bem a gente”, afirma, mostrando-se “expectante” para ver o que o barco traz. “Agora é esperar para ver”. Ainda assim, está confiante “que a coisa melhore nos próximos dias”, até porque o café que gere tem “falta de muita coisa”, sobretudo de “congelados e frutas”.

Mas, entre a demora entre a encomenda e o dia de hoje, alguns produtos vão ficar fora do prazo. O alerta é dado por Arlindo Lourenço, gerente de um supermercado, que dá o exemplo de um contentor de fruta que foi carregado a 26 de Dezembro e que só chegou hoje às Flores. “Estamos a descarregar mercadoria que parte dela vai para a lixeira”. O empresário, que na passada quinta-feira disse ao PÚBLICO estar revoltado com a escassez de bens na ilha, mostrou-se satisfeito com o novo navio, que “tem condições suficientes para resolver o problema das Flores”. Reconhece que a situação só deve ficar regularizada a partir da “terceira, quarta viagem”, mas assume que é uma “boa solução” que só “peca por tardia”.

Apesar do presidente da administração da Portos dos Açores compreender o sentimento da população, diz que “tudo foi feito” no menor prazo possível. “Temos de perceber as reivindicações e os transtornos que causou. Mas fiquem com consciência que foi tudo feito, tudo o que era possível fazer, mas existem timings que não são nossos, são técnicos “, explica Miguel Costa, referindo que se trata de um “trabalho complexo” e que “não existem barcos ao virar da esquina”.

Na mesma linha, foi o discurso do presidente do governo dos Açores, Vasco Cordeiro, hoje, na assembleia regional. “Tudo o que pode e necessita de ser feito para minorar os prejuízos e os efeitos provocados pela passagem do furacão Lorenzo foi, está e continuará a ser feito”, afirmou Cordeiro aos deputados.

Construção da protecção de emergência e do novo porto

O porto das Lajes das Flores, por onde é feito o abastecimento à ilha, ficou totalmente destruído após a tempestade Lorenzo ter atravessado o arquipélago a 2 de Outubro. Depois de trabalhos de limpeza e requalificação, uma semana após a passagem do furacão, uma parte do porto reabriu, mas apenas a embarcações de tráfego local (mais pequenas), que não têm conseguido assegurar o abastecimento à ilha devido ao mau tempo.

O “Malena” foi contratado pelo Governo Regional para contornar a situação. O contrato é de três meses, mas poderá ser prolongado. O navio ficará em exclusivo a tratar do abastecimento à ilha e parece consensual que se trata de um passo importante para regularizar a economia da ilha mais ocidental do arquipélago. Contudo, com um porto em parte destruído, ainda “há muito trabalho a fazer”, como reconhece o presidente da Portos dos Açores.

O próximo passo é iniciar a empreitada da protecção de emergência, que visa proteger o porto que se encontra desabrigado devido à destruição. “Vamos fazer uma grande protecção, com um muro de contenção mais afastado do muro cortina e colocar algumas peças de protecção em zonas críticas do molhe”, explica Miguel Costa. A obra deverá custar cerca de nove milhões – a 21 deste mês inicia-se a abertura de propostas e as obras, que durarão cerca de um ano, devem começar em Março. Datas que podem ser antecipadas, uma vez que “tudo depende do estado do mar e do tempo”

Se a solução provisória só deve ficar pronta daqui a um ano, a construção de um novo porto “nunca será feita em menos de três anos”. “As actividades preparatórias do projecto final já estão em curso”, destaca o responsável pelos portos na região, que espera ter “tudo validado” e lançar o concurso para a construção do novo porto em “meados deste ano”. “Vamos dar a maior celeridade possível, mas por mais vontade política que haja em acelerar, às vezes não é mesmo possível”, confessa.

Estas obras no porto das Lajes custarão cerca de 190 milhões de euros  uma fatia dos 330 milhões de euros, o valor total dos prejuízos causados pelo Lorenzo, segundo o Governo Regional. Deste valor, 85% será assumido pelo Governo da República.

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