Aqui nasceu Portugal e a Tasquinha do Tio Júlio

Aberta desde 1981, esta tasca tradicional, só na última década, com o advento da Capital Europeia da Cultura, se tornou em mais um ex-libris de Guimarães. De portas abertas a “toda a gente”, esta casa “não tem horas para abrir nem horas para fechar”.

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É em Guimarães que o Tio Júlio vai ficar. “A casa está aberta todos os dias. Não tenho tempo para mais aventuras”, diz António Novais

Era uma vez um argentino, um norte-americano e um português. Em 2010 o argentino estava a passar férias nos Estados Unidos e conta ao amigo norte-americano que nos próximos dois anos vai morar na Europa. O segundo pergunta ao primeiro para que país vai. O primeiro diz que está a preparar as malas para viajar até Portugal. “Para que cidade?”, pergunta. O argentino diz que vai para Guimarães. De todas as dicas do roteiro da cidade que lhe podia dar, sem hesitar, responde-lhe: “Tens que ir à Tasquinha do Tio Júlio”.

Quem nos conta esta história é o português. Chama-se António Novais, nascido em 1957 em Celorico de Basto. Em Guimarães serão poucos os que não o conhecem, mas dificilmente o identificariam por este nome. Mais fácil de colar o nome à cara será se dissermos que é o Tio Júlio, proprietário da tasquinha mais internacional da cidade-berço, de portas abertas desde 1981, mas que só nesta década passou a ser mais um dos ex-libris locais.

Este episódio passou-se dois anos antes da Guimarães Capital Europeia da Cultura. O argentino, tinha chegado mais cedo à cidade para trabalhar na preparação do evento. Antes de visitar o castelo, o Paço dos Duques ou o Largo do Toural, onde está escrito “Aqui nasceu Portugal”, foi conhecer o espaço recomendado por um amigo do outro lado do Atlântico e que por ali já tinha passado.

Por coincidência, conta-nos Tio Júlio, o residente temporário assentou arraiais na Rua de Couros, perto do Largo do Trovador, onde está encostado o edifício do estabelecimento. Por uma questão de proximidade e atrás do cheiro dos famosos pregos que ali são servidos, o argentino decidiu que aquela seria a sua segunda casa durante o tempo que passasse em Guimarães.

Outros forasteiros, na mesma situação, foram seguindo o mesmo exemplo. Por essa altura, a tasca já tinha a sua freguesia fiel, mas estava longe de atingir o número de clientes que agora por ali passam. Foi precisamente na preparação da Capital Europeia da Cultura que o Tio Júlio sentiu que algo estava a mudar - a lista de encomendas feitas aos fornecedores foi crescendo e volume de trabalho foi aumentando.

Das pilhas aos pregos

Até então, conta, a tasca era “uma espécie de café que vendia de tudo”, desde “agulhas a pilhas”. A “clientela” era feita à base de “gandulagem” e, durante a noite, também de “clientes e profissionais” do negócio do sexo. Aos domingos, como ainda continua a acontecer, era quase sede dos adeptos do Vitória, clube pelo qual também torce – um pouco por todo lado, nas paredes de pedra, há referências ao clube da terra.

“Clubites” à parte, quase dez anos depois, quem está em Guimarães o mais certo é que lá vá parar. “De todos os clubes, nações, etnias e idades esta é uma casa de portas abertas a toda a gente”, garante. Não tem dúvidas de que o “empurrão” foi dado pela Capital da Cultura. Terão ajudado também a divulgar o espaço promotoras e entidades locais como a Revolve, este ano a celebrar uma década, ou a Oficina, que para ali levam alguns dos eventos que organizam.

Se em 2010 foram os forasteiros a ajudar na divulgação do nome da casa, hoje a tasca funciona como uma espécie de continuação da noite vimaranense que, regra geral, termina cedo - cerca das 2h. De dia também está aberta - nesse horário, mais tranquilo, é Dona Rosa, esposa do Tio Júlio, que aguenta o barco. A partir das 17h passa o testemunho ao marido, que com mais duas ou três pessoas dão conta do recado.

É durante a noite que a Rua de Couros vai enchendo, com uma clientela muito variada. Ali encontram-se alguns artistas locais (e outros de visita à cidade), adeptos ferrenhos do Vitória, e gente com “fome” ou “sede”. Para acautelar que dali ninguém saia desidratado ou de barriga vazia serve-se vinho, cerveja e pregos até fechar. O prato da casa é o próprio que o prepara. O segredo diz ser apenas um: “a carne é boa”. Foi um amigo, antes de 2000 que o convenceu a experimentá-la. Não estava muito convencido. Era cara - “2 contos o quilo na moeda antiga”. Ficou só com uma caixa. A coisa correu bem. A partir daí dedicou-se “mais a sério” ao negócio – até então ainda tinha um segundo emprego numa padaria.

Uma casa sem horário

Não foi “o argentino” que pôs a tasca no mapa, mas serve a sua história como exemplo de outros que como ele contribuíram para, “quase de um dia para o outro”, mudarem o rumo da casa da qual é proprietário. “Hoje, em Guimarães toda a gente conhece a tasca e vem cá parar gente de todo o lado. Vêm do Porto, Lisboa e de fora do país”, diz.

Em 1981, quando abriu portas - nos primeiros seis meses ainda como mini-mercado -, não adivinhava chegar ao pico do negócio quase trinta anos depois de iniciar actividade. Ao atingir esse pico pensou fazer obras para modernizar as duas salas do espaço. Optou por não seguir em frente com essa ideia. Preferiu requalificá-lo sem alterar o aspecto de tasca tradicional que ainda continua a manter. “Se tivesse avançado ia estragar a sua beleza”, atira com a certeza de que se teria arrependido.

Adianta que mais do que uma vez já o aliciaram para alargar o negócio a outras cidades. Mas diz que não quer. É em Guimarães que o Tio Júlio vai ficar. “A casa está aberta todos os dias. Não tenho tempo para mais aventuras”, conta. Perguntamos em que horário funciona: “Não tem horas para abrir nem horas para fechar”.