Jesus e a raiz portuguesa do Brasil

Não haja ilusões: por mais que o triunfo de alguns portugueses notáveis contenha e atenue o preconceito antilusitano no Brasil, este não desaparecerá facilmente.

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Jorge Jesus Reuters/SERGIO MORAES

O súbito e inesperado triunfo de Jorge Jesus no Brasil à frente do Flamengo trouxe de novo para a atualidade – com o imenso impacto mediático de que só o chamado desporto-rei desfruta no “país do futebol” –​ a sempre polémica e ambígua questão do relacionamento bilateral.

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O súbito e inesperado triunfo de Jorge Jesus no Brasil à frente do Flamengo trouxe de novo para a atualidade – com o imenso impacto mediático de que só o chamado desporto-rei desfruta no “país do futebol” –​ a sempre polémica e ambígua questão do relacionamento bilateral.

Afinal, num país em que ainda persiste difusa a ideia do “português burro” cultivada no anedotário desde finais do século XIX como forma de combater a concorrência dos imigrantes lusos no mercado de trabalho –, aí está o brilhante sucesso de um “portuga” para a desmentir em toda a linha: ainda por cima num domínio para o qual o Brasil se considera particularmente vocacionado e vive com paixão inaudita.

Um técnico português dirigindo com êxito excepcional um dos maiores clubes brasileiros com uma “torcida” que ultrapassa os 40 milhões de adeptos, um quinto da população do país! dá que pensar a muita gente, dentro e fora do futebol. Um colunista da Folha de São Paulo acusou mesmo o toque, escrevendo com acinte que “Jesus nunca superará complexo do padeiro”... Caso para perguntar se os brasileiros conseguirão um dia superar o complexo de colonizados.

Seja como for, a verdade é que, desafiando o antigo preconceito num terreno de comprovada excelência brasileira, a consagração de Jesus fez mais, em poucos meses, pela diluição da imagem negativa dos portugueses do que anos e anos de porfiados esforços diplomáticos e outros traduzidos em múltiplas iniciativas que, por mais meritórias que sejam, nunca obtêm a mesma repercussão.

Mas não haja ilusões: por mais que o triunfo de alguns portugueses notáveis – hoje Jesus no desporto, ontem autores de renome na literatura, com destaque para Pessoa e Saramago contenha e atenue o preconceito antilusitano, este não desaparecerá facilmente. Os brasileiros podem até apreciar o Portugal contemporâneo, para onde muitos vêm emigrando em busca de trabalho, segurança e tolerância, mas isso não elimina um sentimento de rejeição do passado colonial português, que está na própria origem da nacionalidade e foi persistentemente cultivado desde a independência, prolongando-se, com maior ou menor intensidade, até aos nossos dias.

Durante e depois do corte com Portugal, colocados perante a necessidade imperiosa de construírem uma nação até aí inexistente, os portugueses do Brasil, com o príncipe herdeiro D. Pedro e o “patriarca da independência” José Bonifácio à cabeça, alimentaram a narrativa do colonizado vítima do colonizador que se libertava, enfim, das correntes da opressão lusa. Logo eles, um nascido em Lisboa em berço de ouro e outro que estudara e passara a maior parte da vida em Portugal, lutara por Portugal contra os franceses e a si mesmo se considerava “bom vassalo e bom português” (Varela, 2006)!

A identificação com Portugal e com a nação portuguesa era tão grande que – dada a ausência de tradição cultural própria – “a única forma de definir o brasileiro era pelo que o termo excluía”. E naquela conjuntura (...) nenhuma ideia se oferecia com maior facilidade para exercer esse papel do que a do português, assim transformado no outro, no estrangeiro do qual a nova nação se queria distinguir (Ferreira & Neves, 2000, p. 228).

Nesse momento, os portugueses da América, em vias de se transformarem em brasileiros, cindiram-se em duas correntes – uma lusófoba, outra lusófila – que irão permanecer ativas de então para cá, tornando assim profundamente ambivalente a atitude do Brasil em relação a Portugal. Por um lado, hostilidade; por outro, portas abertas à imigração portuguesa considerada a mais adequada e concessão aos portugueses de alguns privilégios, a começar pela atribuição da cidadania originária aos já residentes no momento da Independência – num reconhecimento implícito de que a nação fora até aí a mesma.

Tudo se agravou, entretanto, com a instauração da República, em 1889, quando a lusofobia, alimentada pela corrente jacobina, virou hegemónica e a herança lusa – que a Monarquia de alguma forma preservava e estimava – se tornou, aos olhos de muitos, num “pesado fardo” do qual o Brasil teria de se desfazer para poder progredir.

Em finais do século XIX, atiçado pelo desagrado com a vinda em massa de imigrantes lusos, o confronto com os portugueses acentua-se e o antilusitanismo atinge o auge, num movimento que chegaria ao ódio e se consolidou, no plano simbólico, já no começo do século XX, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), em que pela primeira vez o Brasil mental se propôs construir a imagem de si próprio sem referência a Portugal. No processo de elaboração da identidade nacional brasileira passam então a ser valorizadas todas as outras raízes que não a portuguesa: a indígena, a africana, a europeia de diferentes proveniências, a sírio-libanesa, a japonesa... Quanto ao português, passou a ser sistematicamente desvalorizado e até esquecido, a ponto de hoje muitos brasileiros não associarem sequer a língua que falam com o país que somos.

Contra Gilberto Freyre, que nos anos 30 ainda exaltou O Mundo que o Português criou, toda uma tradição académica de inspiração weberiana e marxista, consolidada nos anos 50 a partir da Universidade de São Paulo, com destaque para Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, acabou por consolidar a imagem negativa da herança lusa, responsabilizada por tudo o que há de mau no país – da destruição da mata atlântica à burocracia e à corrupção, passando pelo genocídio dos índios e pela escravidão.

Apesar das contradições assinaladas, a visão negativa do passado colonial, cultivada ad nauseam no ensino – de onde os jovens saem com uma péssima imagem de Portugal e nos media, acabou por se impor, penetrando o senso comum; a ponto de se ter tornado inconsciente e não ser sequer problematizada, ainda que os seus efeitos negativos na própria identidade sejam manifestos. É o contraponto brasileiro do desinteresse português pela sua própria história no Brasil, o que leva a um virar de costas mútuo que o natural desenvolvimento das relações bilaterais não chega a pôr em causa.

É neste pano de fundo que se insere o triunfo de Jesus no Brasil. Devemos naturalmente saudá-lo; mas sem ilusões de que tais êxitos isolados e esporádicos – por mais impacto que tenham consigam fazer o que as pacientes diligências diplomáticas também não alcançam: vencer o estranhamento que se instalou entre os dois países ao longo dos últimos dois séculos. Para isso, outras condições seriam necessárias – um interesse que não se vê, um debate que não se trava, uma estratégia que não há, uma persistência que falta e – the last but not the least – uma presença mediática lusa no Brasil, hoje praticamente inexistente. Mudará tudo isto um dia?

Notas bibliográficas

Varela, A. G. (2006). “Juro-lhe pela honra de bom vassalo e bom português” – análise das memórias científicas de José Bonifácio de Andrada e Silva (1780-1819). São Paulo: Annablume.

Ferreira, T. M. T. B. & Neves, L. M. (2000). As relações culturais ao longo do século XX. In A. Cervo & J. C. Magalhães (Eds.), Depois das Caravelas – As relações entre Portugal e o Brasil 1808-2000. Brasília: Editora UnB.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico