João Donato, uma lenda viva da música brasileira ao vivo em Lisboa

Pianista que é um nome histórico da música brasileira, João Donato regressa a Lisboa após uma ausência de seis anos. E vem em boa companhia: com os paulistas Bixiga 70. Esta quarta-feira, no B.Leza, às 22h.

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João Donato Ekaterina Bashkirova

Tocou com João Gilberto, Gilberto Gil, Cal Tjader, Tito Puente, Mongo Santamaría, Bud Shank, Nelson Riddle, Chet Baker, Eumir Deodato e é, ele próprio, uma lenda viva da música brasileira, que acompanhou até nos alvores da bossa sem nunca ter sido um bossa-novista convicto, antes um criativo músico de fusão. João Donato, pianista, acordeonista, arranjador, cantor e compositor, está de volta a Lisboa (onde já não tocava há seis anos) para um concerto único, esta quarta-feira no B.Leza, às 22h. Com ele estarão quatro músicos dos dez que compõem a banda Bixiga 70: Décio 7 (baterias), Marcelo Dworeck (baixo), Maurício Fleury (guitarras) e Douglas Antunes (trombone). O final da noite, no B. Leza, ficará a cargo de um grupo luso-brasileiro de nove músicos: Carapaus Afrobeat.

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Tocou com João Gilberto, Gilberto Gil, Cal Tjader, Tito Puente, Mongo Santamaría, Bud Shank, Nelson Riddle, Chet Baker, Eumir Deodato e é, ele próprio, uma lenda viva da música brasileira, que acompanhou até nos alvores da bossa sem nunca ter sido um bossa-novista convicto, antes um criativo músico de fusão. João Donato, pianista, acordeonista, arranjador, cantor e compositor, está de volta a Lisboa (onde já não tocava há seis anos) para um concerto único, esta quarta-feira no B.Leza, às 22h. Com ele estarão quatro músicos dos dez que compõem a banda Bixiga 70: Décio 7 (baterias), Marcelo Dworeck (baixo), Maurício Fleury (guitarras) e Douglas Antunes (trombone). O final da noite, no B. Leza, ficará a cargo de um grupo luso-brasileiro de nove músicos: Carapaus Afrobeat.

De uma valsa infantil aos EUA

Nascido em Rio Branco, no estado brasileiro do Acre, no dia 17 de Agosto de 1934, João Donato começou a tocar acordeão aos 6, 7 anos. A sua primeira composição, aos oito anos, foi uma valsa: Nini, nome de uma paixão infantil. Filho de um major da aeronáutica, quando o pai foi transferido passou a viver no Rio de Janeiro, a partir dos 11 anos. E foi aí também que começou a conhecer outros músicos e a trabalhar mais assiduamente na música, profissionalizando-se aos 17 anos e criando depois os seus próprios grupos. Ainda na década de 50, viveu no México, em São Paulo, de novo no Rio e esteve nos Estados Unidos, num casino do Nevada, onde cruzou o jazz com as músicas do Caribe, integrando as orquestras de Mongo Santamaría, Johnny Martinez, Cal Tjader e Tito Puente. Por essa mesma altura, acompanhou João Gilberto (de quem era amigo) numa digressão europeia.

Ao regressar ao Brasil, já no início dos anos 1960, gravou dois discos de referência na sua discografia e também em toda a música popular brasileira: Muito à Vontade (1962) e A Bossa Muito Moderna de João Donato (1963), por sinal recém-reeditados entre nós. Mas o seu primeiro disco, Chá Dançante, foi muito anterior (1956), sucedendo-lhe várias dezenas. Um dos mais recentes, o penúltimo, chama-se Donato Elétrico (2016) e foi produzido por Ronaldo Evangelista, que o convidou a ir até São Paulo e gravar lá. E é este disco que inspira os seus concertos por estes dias, num circuito de clubes (dia 13 actuará em Londres, no The Jazz Café; 18 em Berlim, no Gretchen; e 20 em Paris, no New Morning).

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João Donato em palco RENAN PEROBELLI

“Muitas composições nascem nos ensaios”

“A ideia [do disco] foi do Ronaldo [Evangelista]”, diz João Donato ao PÚBLICO, já em Lisboa. “Foi ele que me aconselhou a fazer um conjunto com o pessoal do Bixiga. Gostei do que ouvi e ficámos amigos, imediatamente. Fizemos o disco, e ele aí está.” Os temas do disco, diz Donato, “foram criados nos ensaios, foram acontecendo”: “Acontece muito com os meus trabalhos as coisas irem surgindo, ensaiando aqui e ali. Aparece uma coisa nova e a gente sai tocando. Muitas das minhas composições nascem nos ensaios.”

Ronaldo Evangelista, que acompanhou Donato a Lisboa junto com os outros músicos, diz ao PÚBLICO que foi no final de 2013, início de 2014, que começaram os trabalhos. “A gente fez um show de homenagem ao disco Quem é Quem [1973], do João [Donato], e a gente demorou um ano até decidir gravar com o João esse Donato Elétrico. O Quem é Quem é um álbum que tocou a todos os músicos do Brasil, um álbum de referência.”

Na verdade, o disco Donato Elétrico não foi gravado só com os músicos do Bixiga 70, que é uma banda formada em São Paulo em 2010, misturando géneros (música brasileira, jazz, afrobeat, latina, africana). Participaram também outros músicos, como convidados, diz Ronaldo Evangelista: “O Zé Nigro, que toca com o Curumim; o Bruno Buarque, que tocava com a Céu; o Guilherme Kastrup, que toca com a Elza Soares; o Firmino...”

Eléctrico nos anos 70, como hoje

No B.Leza, o que vai ouvir-se tem por pretexto o Donato Elétrico mas para mostrar o eléctrico que ele também já foi, há décadas atrás (Donato tem hoje 85 anos, mas bem activos), como explica Ronaldo: “O repertório do show é muito baseado nos discos dessa época, dos anos 70. Vai ter músicas do A Bad Donato [1970], do Donato-Deodato [1973], do Quem é Quem [1973], tem músicas que outras pessoas gravaram na época, como Bananeira. O foco é o Donato eléctrico mesmo, não só o do disco com esse nome.”