Polícia de Hong Kong responde com violência a confrontos com manifestantes

Depois de marcharem pacificamente pelas ruas, em desafio à proibição das autoridades, grupos de manifestantes cercaram o edifício do governo e o quartel-general da polícia.

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Manifestantes cercaram o edifício do governo de Hong Kong e o quartel-general da polícia e atiraram-lhes bombas incendiárias. Deram-se duros confrontos com as autoridades, que em alguns momentos sacaram e usaram armas de fogo. É a 13.ª semana de protestos consecutivos no que já é a maior crise política das últimas décadas na antiga colónia britânica.

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Manifestantes cercaram o edifício do governo de Hong Kong e o quartel-general da polícia e atiraram-lhes bombas incendiárias. Deram-se duros confrontos com as autoridades, que em alguns momentos sacaram e usaram armas de fogo. É a 13.ª semana de protestos consecutivos no que já é a maior crise política das últimas décadas na antiga colónia britânica.

Viveram-se momentos de grande tensão. Por volta da meia-noite, os serviços de transporte ferroviário foram praticamente todos interrompidos, 60 rotas de autocarro foram interrompidas e cinco dezenas foram desviadas, diz o jornal South China Morning Post. A polícia parecia estar a querer concentrar os manifestantes que ainda estavam no centro da cidade. Na estação de Prince Edward, houve cenas caóticas, dizia o jornal, com a polícia a agredir manifestantes com cassetetes, mesmo os que já estavam nos comboios. Os agentes avisaram os manifestantes de que estão a ter “uma reunião ilegal” na estação, e que seria usada força.

Perto da estação, em frente à esquadra de polícia de Mong Kok, os manifestantes começaram a juntar-se e a polícia avisou que se não debandassem abriria fogo, sem especificar se o faria com gás lacrimogéneo ou armas de fogo  poucas horas antes, foram disparadas duas munições reais pela polícia para afastar a multidão nas proximidades do Parque Victoria. A tensão estava elevada e temia-se o pior. Unidades da polícia antimotim, que pouco antes se tinham concentrado em ruas próximas, carregaram sobre os manifestantes e o cerco à esquadra terminou. Mas o acesso à estação de comboio continuava bloqueado pela polícia, que fez mais de 900 detenções neste sábado, segundo a Bloomberg.

Tudo começou poucas horas depois de uma marcha não autorizada pelas autoridades terminar, quando grupos de manifestantes, equipados com capacetes, máscaras de gás e luvas, dirigiram-se para o edifício do governo e cercaram-no. Construíram barricadas e prepararam-se para os confrontos com a polícia que sabiam vir aí. Ao aproximar-se, a unidade antimotim disparou gás lacrimogéneo, tendo como resposta bombas incendiárias atiradas de viadutos e passadiços.

Com a chegada de mais reforços, a relação de forças alterou-se e os manifestantes recuaram até às proximidades do quartel-general da polícia, onde ergueram mais barricadas e atearam-lhes fogo – foram buscar materiais a um prédio em construção. As chamas foram tão intensas que os bombeiros se deslocaram ao local. Pelo menos uma bomba incendiária foi atirada contra o quartel-general.

Os reforços policiais não pararam de chegar. Um deles foi a unidade de elite da polícia antimotim, os Raptors, criados em 2014 para lidarem com protestos, acompanhada por dois camiões com canhões de água. Pela primeira vez, disparou água com tinta azul para facilitar a identificação e a posterior detenção dos manifestantes. No ar, um helicóptero da polícia monitorizava a situação e tentava identificar quem protestava, e era alvo de lasers dos manifestantes, que tentavam dessa forma impedi-lo de ver as ruas.

Desmanteladas as barricadas, elementos dos Raptors carregaram sobre os manifestantes, detendo vários deles, inclusive um ferido na cabeça, diz o jornal de Hong Kong South China Morning Post. E os confrontos continuaram na baixa da megacidade. 

A possibilidade de uma intervenção militar chinesa na região administrativa especial é cada vez maior, apesar dos prejuízos que essa decisão teria para Pequim. O Beijing Daily, o jornal oficial da secção de Pequim do Partido Comunista Chinês (PCC), anunciou que mais uma força paramilitar foi destacada para Shenzhen, onde se concentra um destacamento a treinar, alegadamente em preparação da comemoração dos 70 anos do PCC, a 1 de Outubro. A força paramilitar executou esta quinta-feira exercícios antimotins, com dois canhões de água a participarem.

Pequim terá dito à chefe do governo de Hong Kong, Carrie Lam, para não ceder a nenhuma exigência dos manifestantes, diz o Guardian. O movimento de protesto exige a retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que as acções dos protestos não sejam identificadas como motins, um inquérito independente à violência policial, a demissão de Lam e sufrágio universal nas eleições para a chefe do governo e da Conselho Legislativo. O diálogo político parece ter muito pouca margem para florescer.

Na quinta-feira, as autoridades proibiram uma marcha pró-democracia agendada para este sábado e ameaçaram com uma pena de prisão de até cinco anos a quem desobedecesse. Os manifestantes queriam assinalar o quinto aniversário da decisão chinesa em limitar as reformas democráticas na antiga colónia britânica, em 2014. Além disso, a polícia deteve na sexta-feira dois líderes do movimento, Joshua Wong e Agnes Chow, e alguns deputados pró-democracia, no que foi encarado como tentativa de enfraquecer o movimento antes de mais um fim-de-semana. Foram entretanto libertados

Em desafio, milhares de manifestantes saíram à rua e marcharam pacificamente pela cidade, respeitando aqui e ali o trajecto por si previamente definido, entre o Complexo Desportivo Kwai Chung e o Parque Tsuen Wan. Recusam ceder ao medo e às pressões das autoridades. “Se pararmos agora, apenas nos aguarda a punição”, disse Sonny Lai, de 21 anos, ao Guardian.  

“Estou profundamente preocupado, mas é necessário enfrentar o Governo, apesar das hipóteses de sermos detidos”, reiterou Simon Chang, manifestante, ao jornal britânico.

Para evitar penas de prisão, os manifestantes argumentaram que iam para a rua ora para “rezar pelos pecadores”, ora para fazer “compras em grupo”. “Hong Kong tem liberdade religiosa. Estamos a rezar em diferentes pontos e a rezar para que a justiça chegue a Hong Kong”, disse Sally Yeung, de 27 anos, à Reuters, sublinhando que se os acusarem por isso estarão a violar a liberdade religiosa”. 

Os protestos começaram há mais de três meses contra uma lei de extradição, entretanto suspensa mas não enterrada, e depressa se generalizaram na oposição ao Governo de Lam e influência de Pequim na região, que acusa de a tentar controlar. Hong Kong passou para soberania chinesa sob o princípio “um país, dois sistemas” em 1997.