Será Sánchez em Novembro mais do que há quatro dias?

PSOE e Unidas Podemos não fizeram o suficiente para encontrar uma plataforma de entendimento para formar Governo. O espectro de novas eleições paira em Espanha.

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As sondagens mostram o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em subida de popularidade e o Unidas Podemos em perda. Será com esses números que Pedro Sánchez joga para os socialistas terem demonstrado tão pouco entusiasmo durante dois meses para negociar um governo de coligação?

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As sondagens mostram o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em subida de popularidade e o Unidas Podemos em perda. Será com esses números que Pedro Sánchez joga para os socialistas terem demonstrado tão pouco entusiasmo durante dois meses para negociar um governo de coligação?

Acredita o Podemos que tendo em conta que em Novembro, data para novas eleições se não houver acordo, as sentenças do julgamento dos independentistas desgastarão a popularidade de Sánchez, a ponto de o PSOE ter um resultado pior ou pelo menos ao mesmo nível do que teve nas eleições de 28 de Abril?

Pablo Casado, o líder do Partido Popular, deixou uma frase tão bem conseguida quanto contundente sobre Sánchez depois do fracassado debate de investidura desta quinta-feira: “O senhor é muito menos do que era há quatro dias”.

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E em Novembro? A frase de Casado sobre o primeiro-ministro em exercício estará assim tão certa? Sánchez saiu desgastado do debate de investidura, cabisbaixo, abandonou o Congresso sem falar com ninguém, personificando a frase do líder da oposição.

Com as sondagens a mostrarem uma subida gradual do apoio socialista – a sondagem do CIS, publicada no El País no princípio de Julho, mostra o partido a vencer com quase 40% – antecipará Sánchez uma votação mais expressiva no PSOE em Novembro para a sua intransigência nas negociações com o Unidas Podemos?

O líder socialista queria governar sozinho, em minoria, com apoio parlamentar do Podemos. Uma geringonça à espanhola inspirada no caso português e dinamarquês, como o próprio Sánchez lembrou no seu discurso desta quinta-feira. Mas faltam-lhe deputados.

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A boa aritmética da vitória socialista esbarrou, depois, na intransigência de Albert Rivera em formar um Governo ao centro entre PSOE e PP. O sonho de muitos em Espanha, principalmente da indústria e finanças, chocou com a ambição do presidente do Cidadãos em ser líder da direita, a animosidade entre Sánchez e Rivera (como ficou mais uma vez demonstrada no discurso quase insultuoso deste último, quinta-feira, no Congresso) e a pouca popularidade do acordo entre os eleitores socialistas (61,9% não quer um governo com o Podemos).

Nem mesmo a queda do Cidadãos nas sondagens mudou a posição de Rivera. E a perspectiva parece preocupante. Do bom resultado nas eleições de 28 de Abril e da possibilidade de superar o PP como principal partido da direita, o partido de Rivera tem vindo a descer a encosta da popularidade a um ritmo preocupante desde o mau resultado nas municipais (caiu de 4,1 milhões de votos para menos de 1,9 milhões).

A 12 de Julho, uma sondagem da Simple Logica fez soar os alarmes no Cidadãos, porque pela primeira vez em meses, o partido surgiu atrás do Podemos, passando a quarta força política. Mesmo sendo apenas uma em várias sondagens, é provável que a decisão de Pablo Iglesias de aceitar o veto de Sánchez e não fazer parte do governo de coligação, possa granjear respeito ao líder do Podemos e fazer subir umas décimas as intenções de voto no partido.

A narrativa do último dia do debate de investidura seguiu o guião dos últimos dias, com Iglesias e Sánchez a tentarem carregar a mochila um do outro com o peso do fracasso das negociações. Só daqui a alguns dias se saberá quem saiu mais chamuscado da pobre exibição de quatro dias. No entanto, a julgar pela sondagem desta quarta-feira da Metroscopia, os espanhóis estão mais virados para atribuir a culpa do desgoverno ao PSOE (31%) e a seguir, curiosamente, ao Cidadãos (20%).

O Podemos surge apenas no terceiro lugar, o que aliado a uma recuperação recente nas sondagens, indica que antecipar hoje o resultado das eleições de Novembro é uma manobra de futurologia demasiado falível.

Em 2018, Sánchez conseguiu juntar uma coligação ad hoc para derrubar o Governo impopular de Mariano Rajoy e chegou a primeiro-ministro de um Executivo que deveria ser de gestão, mas continuou a governar até os independentistas catalães se recusarem a votar o Orçamento do Estado e as eleições se tornarem inevitáveis. Esta semana, Sánchez tornou-se o primeiro político na história democrática espanhola a chumbar as duas votações de investidura.