Quinta Alegre, onde coabitam memórias e futuros cor-de-rosa

História, romance, poesia, biografia. A Estrutura Residencial para Idosos (ERPI) Quinta Alegre, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, é um capítulo novo de uma obra onde os alicerces estão já cimentados.

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A Quinta Alegre é o primeiro equipamento da Santa Casa a implementar o novo paradigma de Estrutura Residencial para Idosos SCML
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A Quinta Alegre, também conhecida como Palácio Marquês do Alegrete, está situada na Charneca do Lumiar e foi alvo de uma recuperação profunda por parte da Santa Casa. SCML
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Pormenor do espaço exterior da Quinta Alegre. SCML
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Os utentes da Santa Casa ao almoço no refeitório da Quinta Alegre. SCML
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Os frescos recuperados do tecto do Palácio da Quinta Alegre, um dos mais bonitos de Lisboa, e que pode ser visitado pelo público. SCML
Quinta Alegre - Palácio Marquês Alegrete
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O Palácio do Marquês do Alegrete pode ser visitado gratuitamente de segunda a domingo mediante marcação prévia junto do Direcção de Cultura da Santa Casa SCML
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Na Quinta Alegre, nada falta aos utentes, nem mesmo um cabeleireiro. SCML
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O lar residencial dos utentes coabita com zonas verdes e espaços de lazer SCML
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“Fico feliz por saber que é aqui que vou morrer.” Quando o senhor Nuno deu os primeiros passos de explorador no novo quarto, respirou fundo e congratulou-se por voltar ao espaço familiar que é o espanto de estar vivo. Já lá moravam a dona Aldina, a dona Aida, a dona Amália, a dona Bebiana, a dona Esmeraldina, a dona Francisca, a dona Mercedes, a dona Emília, a dona Cândida, a dona Lurdes, a dona Beatriz, a dona Conceição, a dona Maria de Lurdes, a dona Ana e a dona Clotilde, conhecedoras dos cantos à casa, sem bússola, mas com o norte da irmandade a dirigir a última das idades. Desde a data de inauguração, a 7 de Fevereiro, a ERPI Quinta Alegre, projectada pela Santa Casa da Misericórdia na Charneca do Lumiar, ofereceu-lhes, em conjunto com 32 auxiliares, “um lugar adaptado, acolhedor, confortável, muito bonito, com diversos espaços para passar o tempo e usufruir da sua individualidade, mesmo que coabitando com outros residentes”.

As palavras são de Tânia Gomes, assistente social de formação e directora do equipamento, confiante de que a chave da nova casa lhes possibilitou abrir novas oportunidades, quando, com mais de 65 anos, os descobridores experientes já encaravam esta etapa como a derradeira. As estreantes vieram transferidas de um centro de recolhimento da capital, encerrado por falta de condições.

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O lar residencial dos utentes coabita com zonas verdes e espaços de lazer . SCML

Uma casa para a flor da idade

A casa nova, com paredes forradas a carinho e cuidados, passou a ser o lugar geográfico e mental das leituras da dona Francisca, de 99 anos, que, entre cochilos, volta ao imaginário que só os sonhos literários proporcionam. “No outro dia, ela estava a ler, mas um pouco ensonada. Cheguei ao pé dela e perguntei-lhe: ‘Está a ler ou está a dormir?’ Ela respondeu-me: ‘Estou a fazer as duas coisas intercaladas’”, conta a representante da Estrutura Residencial para Pessoas Idosas.

A Santa Casa, consciente de que “fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”, como enunciou Saramago, não quis que a noite adormecesse nos olhos dos idosos, e reabilitou um Imóvel de Interesse Público, o Palácio e o jardim envolvente, e até a fachada tomou a tonalidade dos novos sonhos: cor-de-rosa. O restauro valeu à instituição o Prémio Nacional da Reabilitação Urbana de 2017 e 2018, resultante da criação de um lugar adaptado às necessidades de cada morador, humanizado e articulado com o palácio, onde se desenvolvem actividades como as sessões de leitura às quartas-feiras de manhã e jogos didácticos e de terapia ocupacional.

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Vista aérea da Quinta Alegre que, entre diferentes valências sociais, tem um dos palácios mais bonitos de Lisboa. DR

Construir uma vida nova para os mais velhos

Também os residentes ganharam uma nova vida, num tempo em que já há tempo para tudo, sobretudo para os “mimos e beleza”. “São colocados ao espelho e motivados a pentear o cabelo, a pintar unhas e a colocar perfume, num reforço de auto-cuidado e auto-imagem”, conta Tânia Gomes, sobre a casa onde hoje coabitam 55 pessoas. Os mimos são dirigidos a si mesmos, mas estendem-se, com a generosidade dos laços criados, aos novos (velhos) amigos: “Eu tinha-lhes dito que tínhamos de nos pôr bonitos porque haveria um concerto. Então, a dona Ricardina e a dona Emília subiram para o quarto, e, quando dei por elas, estavam a discutir que lenço usar, num episódio de uma ternura imensa. Pareceram-me duas adolescentes que iam sair à noite. ‘Não, não ponhas esse lenço. Eu empresto-te o meu.’”

Envolvidos num universo só seu, os anciãos não se fecharam sobre o mundo; pelo contrário, encerraram, neste espaço que também edificam, uma relação muito estreita com a família e com os amigos de fora, sejam quais forem as suas idades “Temos aqui uma creche ao lado e fazemos actividades com eles, como a caça ao ovo. Tanto as crianças como os idosos adoram esses dias”, assegura Tânia Gomes, explicando, ainda, que o projecto global para a Quinta Alegre foi estruturado sobre o princípio da vivência intergeracional e da mobilidade.

“Pensada para ser um lar diferente dos outros”, a Quinta Alegre é também acolchoada de cultura e revestida de partilha. Os CD e os livros são mobília da casa, mas há sempre quem prefira os concertos ao vivo de quem sabe ouvir e contar histórias com música dentro. Por isso, António Guerlixa, fadista e poeta, canta e faz quadras para todos: “À sexta-feira à tarde, dia das actividades, toda a gente vem ouvir os fados dele.”

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Os utentes da Quinta Alegre a assistirem a um concerto de Verão da Orquestra Metropolitana de Lisboa. SCML

Animadores, assistentes sociais e enfermeiros querem que a residência oferecida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa seja, todos os dias, uma construção de pedra e cal, com capacidade para receber mais pessoas, mais memória, mais vida, até porque ainda há datas para celebrar em conjunto, como o aniversário da mais velha residente. “Queremos fazer à dona Francisca a grande festa dos 100; para cada algarismo, um bolo. Já nos estamos a preparar para a ocasião”, remata Tânia Gomes, com o coração vestido de festa.

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