Um Leão de Ouro para Alessandro Sciarroni, e para a sua dança sem medo de voltar a página

Em vez de um absoluto consagrado, a Bienal de Dança de Veneza de 2019 distinguiu um coreógrafo desafiador com pouco mais de 40 anos. A próxima temporada trá-lo-á de volta a Portugal, em dose dupla: CHROMA_don’t be frigthened of turning the page estará no Cartaxo, em Lisboa e em Faro, Augusto fará uma paragem no Porto.

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É surpreendente que um coreógrafo a entrar na sua quarta década de vida receba um prémio como o Leão de Ouro da Bienal de Veneza. E é especialmente surpreendente que o prémio de carreira em dança desta edição tenha sido atribuído a Alessandro Sciarroni (San Benedetto del Tronto, 1976) porque deste artista italiano que opera no campo expandido das artes performativas e dos seus cruzamentos com as artes visuais e com a pesquisa teatral esperamos que continue a surpreender-nos e a elevar-nos para camadas experienciais sempre desafiadoras. As suas obras, de uma simplicidade desarmante e de uma enorme precisão conceptual, são, porém, tão capazes de despertar inquietações emocionais como súbitos momentos de transcendência espiritual.

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É surpreendente que um coreógrafo a entrar na sua quarta década de vida receba um prémio como o Leão de Ouro da Bienal de Veneza. E é especialmente surpreendente que o prémio de carreira em dança desta edição tenha sido atribuído a Alessandro Sciarroni (San Benedetto del Tronto, 1976) porque deste artista italiano que opera no campo expandido das artes performativas e dos seus cruzamentos com as artes visuais e com a pesquisa teatral esperamos que continue a surpreender-nos e a elevar-nos para camadas experienciais sempre desafiadoras. As suas obras, de uma simplicidade desarmante e de uma enorme precisão conceptual, são, porém, tão capazes de despertar inquietações emocionais como súbitos momentos de transcendência espiritual.

Tendo apresentado o seu trabalho tanto no contexto teatral como em festivais de dança contemporânea, tanto no meio museológico como no circuito não institucional, Sciarroni incorpora estratégias duchampianas, fazendo uso de movimentos do quotidiano e de situações ready-made (o jogo, o riso, o caminhar, o rodar, o circo, o malabarismo ou as danças populares) que activam o questionamento do espectador com instrumentos de uma astúcia tão assertiva quanto subtil e subvertem as suas expectativas. A sua prática evoca a herança das estratégias conceptuais da dança contemporânea da década de 1990, exploradas por coreógrafos como Jérôme Bel, Xavier Leroy, Mathilde Monnier, entre outros.

Com uma simplicidade acutilante, um rigor minucioso na execução, uma exploração da fronteira deleuziana entre a repetição e a diferença que interroga conceitos como identidade e género e a autonomia e a estabilidade tanto do sujeito humano e das constelações sociais, as propostas deste coreógrafo galardoado com o prémio que há um ano distinguiu Meg Stuart (e, antes dela, Merce Cunningham, Pina Bausch, William Forsythe, Anne Teresa De Keersmaeker ou Lucinda Childs) expandem-se a partir de uma estrutura mais abstracta com níveis de repetição e, frequentemente, de exaustão que se tornam desafios emocionais para os performers e para o público. As suas obras exploram fragilidades, obsessões, protocolos sociais e humanos, conflitos internos e externos, numa dialéctica porosa entre espectáculo e espectador.

Augusto (2019), uma das obras apresentadas na Bienal de Veneza de Dança no final de Junho – e que estará no Porto no próximo Festival DDD – Dias da Dança, na Primavera de 2020 –, explora com nove performers o acto de rir até um estado de exaustão física e psicológica, e parte de uma ideia dúplice: por um lado, presta homenagem à figura clownesca de Augusto, o louco, o palhaço, o idiota que se perde nos seus disparates e nas suas fraquezas (humanas); por outro, evoca o nome áureo, distinto e vitorioso de Augusto, o primeiro imperador romano. O riso agrega o espaço teatral e os intérpretes numa comunidade temporária e estranha, entre o impulso visceral do riso automático, quando a euforia é tangente ao excesso e ao absurdo, à necessidade de corresponder ao desafio do outro, de perseverar, de tolerar, e ao medo que leva a ultrapassar os limites individuais e colectivos. Colocando palco e plateia num limbo, trata-se de uma peça que evoca tanto o desejo de chegar ao outro e de ser amado incondicionalmente, como o outro extremo, o medo e o sofrimento, o descontrolo.

Em estreia mundial, Sciarroni apresentou também na Bienal de Veneza de Dança, a 27 de Junho, a obra Dance me to the end of love (2019), coreografada para o colégio anual da Bienal de Veneza, um elenco composto por 15 estudantes entre os 18 e 25 anos de idade. É um ensaio cândido e, novamente, de uma elementaridade belíssima, sobre a recuperação arqueológica de uma dança de par e de baile, a polka chinata, forma tradicional nascida na Bolonha do início do século XX. O coreógrafo quis recuperar esta dança de corte e sedução originalmente dançada por homens e hoje em vias de extinção, o que só foi possível graças ao trabalho de investigação e recolha do maestro Giancarlo Stagni. Subvertendo uma vez mais políticas de género, a peça começa com duas bailarinas em roda dançando a maravilhosa polka chinata. Vestidos com figurinos masculinos, os 15 bailarinos, rapazes e raparigas, entram no baile progressivamente, a par, e toda a peça resulta dessa repetição circular magnífica e imersiva, que termina tão naturalmente como começou, em silêncio, com trocas de olhares e os braços que se desenlaçam.

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ALICE BRAZZIT

Já não sendo propriamente um desconhecido em Portugal (em 2017 trouxe ao Festival Materiais Diversos Folk-S, em que deslocava uma dança popular tirolesa para o território da dança contemporânea), Sciarroni estará de volta ao nosso país já no Outono, com o seu belíssimo e hipnótico solo de 2017 CHROMA_don’t be frigthened of turning the page: a peça fará apresentações a 5 de Outubro no Cartaxo, de novo no âmbito do Materiais Diversos, de 10 a 13 de Outubro no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, e a 26 de Outubro em Faro, no Festival Verão Azul. Inspirado nos fluxos migratórios e na tendência de alguns animais para regressarem ao local originário, Sciarroni constrói este solo a partir da ideia de voltar, de volta, para culminar num incessante exercício de rotação sobre si próprio, reminiscente dos dervixes do Médio Oriente. Sob o desenho de luz de Rocco Giansante, que modela sombras e cores, o corpo do performer torna-se uma matéria ilusória em permanente mudança e ascensão. Uma obra que começa com um simples caminhar diagonal que atravessa o espaço, e que volta ao ponto de início, e volta, e volta, e torna a voltar... num exercício de uma transcendência poética que instala na sala, temporariamente, uma pequena cosmologia sagrada em movimento que nos faz desejar mais.

Coreógrafo sem medo de voltar a página da dança e da performance, certamente que Alessandro Sciarroni continuará a inquietar-nos, com as suas intermináveis iterações entre o abstracto e o espiritual.

O PÚBLICO viajou a convite da Bienal de Dança de Veneza