Stranger Things é mais Spielberg, Dark é mais Lynch: os criadores da série alemã falam sobre a nova temporada

Novos episódios da série alemã que encontrou 90% dos seus espectadores fora da Alemanha está já no Netflix. Baran bo Odar e Jantje Friese voltaram à cidade de Winden e ao “german angst” — mas sentiram a pressão do sucesso. Uma entrevista sem spoilers.

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Passada uma semana sobre a estreia da segunda temporada de Dark no Netflix, o casal de criadores e showrunners Baran bo Odar e Jantje Friese está satisfeito. “Parece que os fãs estão a gostar”, diz Friese. Os criadores do fenómeno Dark tanto escreveram uma série viciante cheia de mistério, ficção científica e dramas familiares quanto a usam para erguer um espelho onde se vêem como alemães – e como a geração Tchernobil. Debaixo do espírito juvenil e da floresta húmida das viagens no tempo de Dark estão os fantasmas da II Guerra e do nuclear — que outras séries do momento, como Chernobyl ou Years and Years, estão também a despertar.

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Passada uma semana sobre a estreia da segunda temporada de Dark no Netflix, o casal de criadores e showrunners Baran bo Odar e Jantje Friese está satisfeito. “Parece que os fãs estão a gostar”, diz Friese. Os criadores do fenómeno Dark tanto escreveram uma série viciante cheia de mistério, ficção científica e dramas familiares quanto a usam para erguer um espelho onde se vêem como alemães – e como a geração Tchernobil. Debaixo do espírito juvenil e da floresta húmida das viagens no tempo de Dark estão os fantasmas da II Guerra e do nuclear — que outras séries do momento, como Chernobyl ou Years and Years, estão também a despertar.

Dark é a primeira série alemã encomendada pela Netflix e em Dezembro de 2017 começou um caminho de viralidade que lhe deu 90% das suas audiências fora da Alemanha. Passa-se na pequena cidade de Winden, vizinha de uma central nuclear, e tem como guia o jovem Jonas Kahnwald, que a partir do desaparecimento de crianças descobre uma trama de ficção científica e enigmas vários nos anos de 2019, 1986 e... Sem spoilers, numa entrevista por email, Baran bo Odar e Jantje Friese falam ao PÚBLICO sobre o sucesso da série.

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Baran Bo Odar e Jantje Friese Adrien Lachappelle/Netflix

Têm alguma ideia de como é composto o vosso público na Netflix? Mais jovens, mais velhos, de que países? Pessoas que gostam de histórias de sci-fi ou espectadores generalistas?
Baran bo Odar – É espantoso que é um público feminino e masculino, jovem e maduro. Do Brasil ao Japão, dos EUA, Austrália, Turquia e toda a Europa. As pessoas que normalmente detestam ficção científica e especificamente viagens no tempo e fãs hardcore do género. Não nos perguntem como, mas a tragédia grega e humana no meio de tudo isso parece estabelecer uma ligação com as pessoas de todos os grupos. 

Qual foi o grau de surpresa ao verem o sucesso internacional de Dark, a certa altura a série não falada em inglês mais popular da Netflix?
Baran bo Odar – Estivemos um par de semanas completamente atordoados. Nunca esperámos que fosse um êxito desta dimensão. Começámos a ter noção quando surgiam tweets sobre Dark a cada 20 segundos em todo o mundo. Pessoas que se comoveram e foram tocadas por uma coisa que na verdade não é muito fácil de consumir.

Jantje Friese – Quando algumas dessas pessoas diziam que viram a série dez vezes, ficámos… uau. Isto está mesmo a acontecer? Desde então recebemos muitas mensagens e uma que ainda nos faz sentir orgulhosos é que muitos adolescentes começaram a ter aulas de alemão para estarem prontos para a segunda temporada. 

A pergunta é não só sobre os números, mas também sobre o género narrativo e o formato que escolheram. Dark foi sempre pensada como uma história muito serializada, mas sobretudo para funcionar melhor quando se pode ver todos os episódios de seguida?
Baran bo Odar – Sim, isto nunca teria funcionado num canal em sinal aberto ou com episódios semanais. É uma história muito difícil que só pode ser consumida num curto período de tempo. Nessa perspectiva, as plataformas de streaming estão a abrir possibilidades para formas novas e mais experimentais de contar histórias.

As comparações com Stranger Things pareciam inevitáveis e entenderam-nas como elogios. Mas Dark tem uma abordagem mais negra — o que está na origem desse tom e influencia a escrita e a atmosfera da série?
Baran bo Odar – Ambas os mundos têm semelhanças “Stephen King”, mas à parte disso a maior diferença é provavelmente o tom. Enquanto Stranger Things tem Steven Spielberg à mistura com muita nostalgia 80s e uma visão do mundo geralmente mais alegre e optimista, Winden é mais uma cidade David Lynch, com uma matiz muito mais negra e estranha. No fim de contas, tem tudo a ver com quem somos no nosso âmago.

Jantje Friese – Sempre gostámos de histórias obscuras. Interessamo-nos muito pelo comportamento humano e pelos motivos que levam as pessoas a fazer coisas, especialmente quando escolhem algo imoral. Isso sempre foi um fio condutor das histórias que contamos.

Neste ano e meio de espera pela segunda temporada descreveu-se a série como sendo uma expressão de “German angst” [um jogo com a expressão “teenage angst”, a inquietude ou ansiedade da idade]. O que é que isso representa?
Baran bo Odar – É um termo muito adequado. Os alemães fizeram coisas inesquecíveis e malévolas na história recente. Nós, como alemães, ainda estamos profundamente enredados nisso. Na forma como somos criados, no que aprendemos sobre isso na escola, como nos confrontamos, e ainda nos sentimos profundamente envergonhados quando visitamos outros países. Viajamos com negros fantasmas, para onde quer que vamos. Por isso, naturalmente, não temos um lado tão luminoso e brincalhão. E também é assim que somos vistos pelo resto do mundo. Solenes, sem humor e francamente um pouco assustadores.

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Um dos ingredientes da história, a presença de uma central nuclear em Winden, é central na nossa experiência partilhada enquanto europeus. Agora que a mini-série Chernobyl está também a cativar tanto o público, atingimos um momento em que é inevitável examinar o advento do nuclear?
Jantje Friese – Absolutamente. A actual geração de contadores de histórias viveu essa experiência na sua infância ou adolescência. É o momento em que somos mais sensíveis e afectados pela estranheza que nos rodeia. Ambos ainda nos lembramos dos dias e semanas depois de Tchernobil como um estado de excepção. Foi a primeira vez que a nossa infância despreocupada foi ensombrada por algo muito maior. Hoje também vivemos tempos de incerteza. Há tanta instabilidade à nossa volta. O nosso futuro (neste planeta) é bastante incerto. 

Sem spoilers, que futuro é este na segunda temporada?
Jantje Friese – Enquanto a temporada 1 estabeleceu as regras basilares e nos apresentou às personagens com mais foco no mistério e no drama, agora dirigimo-nos mais directamente à dimensão de ficção científica subjacente. Torna-se mais obscuro, mais estranho, mais complexo, e ao mesmo tempo responde a muitas das perguntas colocadas na temporada 1. No seu centro está ainda a questão sobre se existe livre arbítrio e se as coisas podem ou não ser alteradas ou se todas as personagens estão condenadas a um ciclo determinista infinito.

Escreveram a segunda temporada sob a pressão do sucesso da primeira – quiseram replicar os motivos que fizeram o mundo apaixonar-se por Dark ou a tarefa foi diferente?
Jantje Friese – Sim, tivemos um pouco de medo de lançar a temporada 2, mas até agora parece que os fãs estão a gostar da viagem.

Baran bo Odar – A sensação de estar completamente mergulhado na história talvez seja o motivo pelo qual as pessoas criaram uma ligação [com a história]. Uma coisa que aconteceu: esta é uma série a que tem de se prestar total atenção, não se pode ter um segundo ecrã para ver o Twitter. Aceitando isso, experiencia-se algo único. Está-se completamente dentro da série. Vive-se e respira-se Winden.

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