Governo líbio apoiado pela ONU quer realizar eleições até ao fim do ano

O primeiro-ministro líbio, Fayez al-Serraj, anunciou uma iniciativa de paz, mas que exlui o general Haftar. Ofensiva deste contra Trípoli resultou num impase político-militar.

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O primeiro-ministro líbio, Fayez al-Serraj, no seu escritório em Trípoli Reuters/ULF LAESSING

Há meses em impasse político e com violentos confrontos nos arredores de Trípoli, o Governo libanês apoiado pelas Nações Unidas anunciou no domingo uma iniciativa de paz com a criação de um fórum e a realização de eleições legislativas e presidenciais no país até ao final de 2019. Mas o general e senhor da guerra Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional Líbio, foi automaticamente excluído desta iniciativa pelo primeiro-ministro, Fayez al-Serraj, em entrevista à Reuters.

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Há meses em impasse político e com violentos confrontos nos arredores de Trípoli, o Governo libanês apoiado pelas Nações Unidas anunciou no domingo uma iniciativa de paz com a criação de um fórum e a realização de eleições legislativas e presidenciais no país até ao final de 2019. Mas o general e senhor da guerra Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional Líbio, foi automaticamente excluído desta iniciativa pelo primeiro-ministro, Fayez al-Serraj, em entrevista à Reuters.

“Não sentarei com essa pessoa novamente, porque o que fez nos últimos anos mostra que não será parceiro no processo político”, garantiu Serraj, referindo-se aos seis encontros que teve com Haftar para ultrapassar o degradar da situação política líbia, entre as quais uma reunião de mediação com potências estrangeiras em Abu Dhabi em Fevereiro. “Ele estava apenas a ganhar tempo”, continuou Serraj, até juntar forças suficientes para tomar o poder pela força com uma ofensiva militar contra Trípoli.

Uma das condições prévias para qualquer cessar-fogo por parte de Trípoli é o recuo das forças de Haftar dos arredores da cidade. “O nosso principal objectivo militar é defender Trípoli”, garantiu o primeiro-ministro libanês, referindo que “nos próximos dias haverá notícias positivas, e progressos”. Não avançou mais pormenores.

A missão das Nações Unidas no país já reagiu, num curto comunicado, descrevendo a iniciativa como “proposta construtiva para se avançar no processo político que termina com o longo estado de conflito na Líbia”.

A ofensiva de Haftar contra Trípoli, iniciada há dois meses, apanhou as Nações Unidas de surpresa, visto estar a organizar uma Conferência Nacional, entre 14 e 16 de Abril, em Gadamés, para se negociar uma solução política para o país. 

Num país onde a lei das armas impera e as potências escolhem lados, qualquer processo de negociação de paz tem de passar obrigatoriamente por quem apoia Haftar, como é o caso dos Estados Unidos. Foi por isso que o governo de Trípoli encetou uma estratégia de sensibilização internacional enviando representantes aos Estados Unidos, Reino Unido e Itália para os convencer a apoiá-lo e a pressionar o general a recuar as tropas – o executivo líbio receia que o tema deixe de constar da agenda internacional, deixando o país à sua sorte.

“Deixámos bem claro à comunidade internacional que Haftar não pode ter sucesso. Essa mensagem foi entendida pelos Estados Unidos, e muitos dos aliados internacionais de Haftar perceberam que ele não pode ganhar”, explicou o vice-primeiro-ministro libanês, Ahmed Maiteeq, ao apresentar a proposta política. “A questão é se Haftar está disposto a ouvi-los”.

Haftar é apoiado pela Rússia, França, Egipto, Turquia e Emirados Árabes Unidos, que o percepcionam como a aposta mais fiável no combate ao terrorismo islâmico em território líbio – o Daesh implantou-se nos últimos anos no país. Desde 2014 que o general recebe armamento para unir a Líbia sob um mesmo governo, conquistando aos poucos parcelas do território líbio – detém hoje a grande maioria – ao combater grupos terroristas e avançou recentemente com uma ofensiva militar contra Trípoli.

Para que o general recue, as potências que o apoiam terão de o pressionar, mas já há quem tenha garantido não o fazer, pelo menos no futuro próximo. O Presidente egípcio, Abdel Fattah Al-Sissi, encontrou-se na semana passada com o general e garantiu-lhe mais uma vez apoio total. “A posição do Egipto de apoio ao Exército Nacional Líbio e à sua campanha para eliminar grupos terroristas por toda a Líbia nunca irá mudar”, garantiu o chefe de Estado egípcio que chegou ao poder por via de um golpe de Estado em 2013.

As forças do general, compostas tanto por soldados regulares como por milícias tribais em carrinhas de caixa aberta, avançaram até Trípoli sem grande oposição, mas, nos arredores, viram-se travadas por uma dura resistência, com ataques e contra-ataques de ambas as partes. Os combates arrastam-se há mais de dois meses, com mais de 700 combatentes de ambos os lados e pelo menos três dezenas de civis a terem perdido a vida.

Impasse político-militar que, diz Maiteeq, “destruiu a credibilidade de Haftar como homem forte” em que tantas potências apostaram.

Falhas de electricidade e bombardeamentos tornaram-se o dia-a-dia de quem, entre escombros, tenta sobreviver na cidade. E os serviços básicos são hoje praticamente inexistentes, criando as condições para que uma nova vaga de imigração para o continente europeu não possa ser afastada. A Líbia é hoje ponto de passagem de milhares de refugiados e imigrantes que tentam chegar à Europa, com muitos a serem vítimas de tráfico humano e a viverem em condições degradantes enquanto aguardam por uma vaga num qualquer barco em mau estado. 

A Líbia está imersa na guerra e no caos desde que as forças leais ao antigo ditador Muammar al-Khadafi reprimiram violentamente os protestos democráticos da Primavera Árabe, em 2011, no país. Seguiu-se uma guerra civil e uma intervenção da NATO, com o ditador a ser capturado e executado pelos rebeldes.

O país, rico em petróleo, está dividido entre um governo em Trípoli e um controlado por Haftar, com sede em Tobruk. Ao mesmo tempo, grupos terroristas aproveitaram o caos para se instalarem e são desde o fim da guerra civil o principal alvo dos dois executivos, ou pelo menos argumentos legitimadores das suas acções pela disputa de poder e influência no país.