Maria João Valente Rosa. Segmentar idades da vida “causa mal-estar a estudantes, a trabalhadores e a reformados”

Maria João Valente Rosa é a convidada desta semana do podcast Quarenta e cinco graus. É professora na Universidade Nova de Lisboa, doutorada em Demografia e foi, até ao ano passado, directora da Pordata, uma base de dados de indicadores sobre Portugal disponibilizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Em conversa com o anfitrião José Maria Pimentel, a convidada fala sobre a sua paixão pela demografia e a importância da literacia nesta área para uma sociedade informada e próspera, e explica alguns aspectos da sua principal área de investigação: o envelhecimento demográfico a que assistimos no mundo desenvolvido e em Portugal em particular. A proporção de idosos face aos jovens tem vindo a aumentar em Portugal nas últimas décadas, em resultado do aumento da longevidade e, em menor grau, da diminuição da natalidade. Segundo o INE, o envelhecimento da sociedade vai continuar e só tenderá a estabilizar daqui a cerca de 40 anos.

Este vai ser um desafio para as sociedades, mas Maria João Valente Rosa realça duas questões: por um lado, este número é enganador, porque a esperança de vida também tem aumentado. Por outro lado, o envelhecimento demográfico é sobretudo uma notícia positiva, tendo em conta que, para além de estar associado ao aumento da longevidade, a própria diminuição da natalidade é, indirectamente, resultado do desenvolvimento económico dos países.

Fala-se ainda da enorme perda de valor social provocada pelo actual sistema binário de trabalho — com actividade até aos 65 anos seguida de uma entrada abrupta na reforma —, o modo (muitas vezes errado) como a sociedade lida com os velhos e os novos e o que pode ser melhorado.

A redução da natalidade é vista como um puzzle. Por exemplo, qual é afinal a influência do rendimento sobre o número de filhos? Quando o nível de vida de uma sociedade aumenta muito, muda também a maneira como as pessoas vêem a natalidade: em países desenvolvidos (como Portugal), entre outras alterações, os filhos deixaram de ser vistos como mão-de-obra, e por isso as variáveis da “equação” que usamos para decidir quantos filhos vamos ter alteraram-se drasticamente. Resultado: hoje, muito dificilmente a pessoa média quererá ter mais de dois filhos.

Significa isto que as medidas a tomar para aumentar a natalidade num país como Portugal terão que ser adaptadas a essa nova realidade, agindo sobre as restrições que impedem as pessoas de terem os filhos que desejariam.

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