Opinião

Que aprender com a revolta dos esquecidos?

Julgávamos que éramos saudáveis. Resta-nos, agora, reconstruir o valor científico, social e político dos saberes sobre territórios e paisagens.

Beethoven, um dos maiores compositores de sempre, sofria de surdez. Habermas, um dos grandes especialistas em comunicação, nasceu com um lábio leporino. Orlando Ribeiro, um exímio leitor de paisagens, era estrábico. Todos eles superaram características que poderiam ter afetado gravemente as atividades em que se distinguiram. Face à menorização crescente, académica e pública, de muitas das áreas científicas centradas no conhecimento, planeamento e gestão dos territórios e das paisagens, o exemplo destes três autores devia constituir uma fonte de inspiração para nos ajudar a pensar como ultrapassar essa situação.

Afinal, o que se passou? Em Economia, a disciplina de desenvolvimento regional desapareceu dos currículos das principais universidades. A Geografia, entre modelos, especializações e sistemas de informação geográfica, deixou de se preocupar com a sua antiga joia da coroa, a geografia regional. A Sociologia há muito trocou a sociologia rural pela sociologia do ambiente. A arquitetura paisagista foi abandonando a visão mais ampla de paisagem a favor de uma ótica de projeto, de desenho, de intervenções em jardins e espaços verdes urbanos. Na Engenharia, o setor florestal foi perdendo alunos e espaço nas academias. Em suma, em todos estes domínios disciplinares parece haver uma tendência comum: a crescente subvalorização da dimensão territorial e paisagística.

Porquê? Não existe uma explicação única e universal, nem sequer um conjunto de explicações aplicável por igual aos vários domínios referidos. Mas podemos identificar uma constelação de fatores que, em combinações diferenciadas, contribuíram, em cada um desses domínios, para a referida tendência. A especialização e complexificação do conhecimento científico convivem mal com interpretações integradas de base disciplinar. Os assuntos relacionados com a terra e o território são vistos como antiquados face a temas emergentes, mais atrativos pelas oportunidades de carreira, renumeração e notoriedade que proporcionam. A administração pública perdeu a áurea de um setor profissional que atraía os melhores, tendo sido substituída pelo brilho do mundo das empresas e por uma cultura de ação mais instrumental e com retorno financeiro e reputacional mais imediato. As políticas públicas e o planeamento perderam reconhecimento e relevância a favor das dinâmicas de mercado. O trabalho de campo, moroso e cansativo, é substituído pelo trabalho de gabinete apoiado em ferramentas de análise à distância cada vez mais sofisticadas.

Por tudo isto, e por motivos mais circunstanciais, desencadeiam-se espirais regressivas de difícil reversão: menos procura por parte dos estudantes e dos empregadores, menos oferta por parte da academia, menos poder nos centros de decisão pública e privada, menos reconhecimento social. Afinal, para que serve tirar um desses cursos ou, quando eles persistem metamorfoseados de acordo com os ares dos novos tempos, por que razão escolher (quando ainda existem) disciplinas que tratam essas matérias?

A resposta foi dada, de forma inesperada e brutal, no dia 17 de junho de 2017 com a deflagração do enorme e mortífero incêndio florestal de Pedrógão Grande. De repente, todos – decisores políticos e comunicação social, populações em sofrimento e especialistas, comentadores de café e gente solidária – começaram a usar repetidamente as mesmas palavras: paisagem, território, floresta, ordenamento, mundo rural, “interior”... As populações, os lugares e as realidades que deixámos de escutar, estudar e compreender abriam os telejornais, ocupavam as primeiras páginas dos jornais, preenchiam as redes sociais. Era a revolta, inesperada e sofrida, dos esquecidos, dos que contavam pouco. Porque não eram “modernos”. Porque não eram relevantes para a construção de uma economia competitiva e de uma sociedade cosmopolita.

Julgávamos que éramos saudáveis: ao contrário dos três autores inicialmente invocados, pensávamos que ouvíamos, falávamos e víamos bem. Estávamos enganados. Resta-nos, agora, superar a nossa surdez, as nossas dificuldades de comunicação, a nossa incapacidade de ver. Como? Reconstruindo o valor científico, social e político dos saberes sobre territórios e paisagens.