Reportagem

Marvão: Nas memórias do contrabando, contam-se chinesas, castanhas e café

Subimos por velhos trilhos utilizados pelos contrabandistas para ouvir as histórias vividas por Antónia nesse tempo em que todos “se governavam” a passar mercadorias na fronteira. E continuamos, escarpa acima, para ver toda a paisagem no voo dos grifos.

Um dia apareceu por ali uma chinesa. Queria saber como chegar aos Galegos, aldeiazinha acocorada na serra de São Mamede. Antónia Barrento ia a passar pela rua, levou-a até lá. “Quando chegámos aos Galegos, a dita senhora pediu-me para ir com ela até à Fontañera [já em Espanha] e levar-lhe a mala.” Estávamos na clausura do Estado Novo, as fronteiras fechadas. Por ali, terra colada à raia, era do contrabando que todos “se governavam”. “Ofereceu-me dinheiro e eu fui.”

Antónia vai desfiando histórias daquele tempo, sentada à soleira da porta, na aldeia de Pitaranha. Começou a trabalhar no contrabando “logo de pequenina”. Teria uns nove ou dez anos quando atravessou clandestina para Espanha pela primeira vez, “mais um primo”, cada um com “dois ou três quilos de café” às costas, “pouquinho” porque os corpos de criança ainda não davam para mais. “Quando era mais crescida chegava a levar 20 e tal quilos, e os homens 40 ou 50kg.” Já casada, deixava os filhos a dormir, logo de manhã, e ia “num instante” à fronteira levar “uns jogos de cama ou de banho e aqueles bibelots de que as espanholas gostavam”.

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“Era só aparecer alguém que quisesse alguma coisa e a gente estava sempre disponível.” Havia quem não recebesse mais do que 10 escudos por dia nos campos agrícolas. Passar mercadorias na fronteira podia valer uns 50 ou 100 escudos, dependendo da distância e do peso da carga. Até à entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, o contrabando era a principal fonte de sustento de muitas famílias na região. “Havia pessoas que abalavam de noite, às 4h ou 5h, e iam para Valência de Alcântara levar as coisas todas.” Chegavam a “andar três dias com elas às costas”. Antónia nunca foi muito longe. Ficava-se pelas idas à aldeia espanhola mais próxima, La Fontañera: cerca de dois quilómetros pelo mato, subindo “ali por umas pedras”, escondida entre árvores e encostas. Num instante ia e vinha.

Para lá, levavam atoalhados, lençóis, coisas de mercearia, grãos e, sobretudo, café – havia várias fábricas de torrefacção na região e o café que de lá saía era “muito melhor do que o espanhol”. No regresso, traziam bacalhau, louças da Pyrex, chocolates e bolachas das marcas internacionais que Salazar não autorizava a importar para Portugal, e castanhas secas, como as que nos oferece mal chegamos à Pitaranha. Estas são do souto que tem ali acima, conta, mas naquela altura “também vinham lá da Espanha”.

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Por vezes, também ajudavam a passar pessoas – “Tanta gente que abalou para França, tudo fugido”. Mas isso Antónia nunca fez. Era demasiado arriscado. O mais próximo foi aquela chinesa, que nunca ninguém da terra chegou a saber como fora ali parar. Quando estavam a chegar a Fontañera, Antónia reparou que a guarda civil espanhola estava do outro lado da fronteira. Começou a pensar no que haveria na mala, quem era aquela pessoa. Pediu-lhe o valor acordado e ensinou-lhe o resto do caminho. “Foi o maior medo que apanhei.”

A dança dos grifos

Não chegamos a ir a La Fontañera, rua de casas que começa exactamente na linha de fronteira, vemos agora no mapa. Mas começamos o passeio nos Galegos, deixando cedo a estrada para subir por uma vereda sinuosa. O caminho, escondido entre sobreiros, rochedos e muros altos, liga os Galegos à Pitaranha e era muito utilizado pela população local para as operações na fronteira. Actualmente, faz parte do Percurso do Contrabando do Café, trilho pedestre assinalado no terreno (PR4 MRV) e promovido anualmente pela autarquia de Marvão numa caminhada gratuita, que este ano acontece a 4 de Maio.

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Desta vez, quem nos guia é Afonso Melara Nunes, recriando uma das experiências da Marvão Adventure. O projecto acaba de nascer oficialmente, associado à empresa agrícola que a família tem nos Galegos. Nascido em Lisboa, era aqui que Afonso passava grande parte das férias. “O meu avô cultivava-nos muito a questão de ir ver o campo, as ovelhas, andar de bicicleta. Depois, eu e o meu irmão sempre fomos muito desportistas e sempre gostámos deste tipo de coisas.”

Às vezes, Afonso fugia da avó e ia “de surra” até à ribeira, tomar banho nas “marmitas do gigante”, pequenas piscinas naturais formadas pela erosão da rocha granítica no leito da ribeira. Gostava de se perder pelo mato, explorando caminhos e aventuras. Aos 12 anos, começou a subir pela Penha da Esparoeira, primeiro uma secção, depois outra, até chegar ao topo. É esse o caminho que fazemos agora.

Despedimo-nos de Antónia na Pitaranha, entre caldos de castanha com gotas de leite e tangerinas para o caminho. E metemo-nos pelo meio de silvas e giestas, galgamos muros, cruzamos campos e campos de montado. Um pé em Espanha – “Cuidado con las abejas” – e já estamos de novo em Portugal, com a Penha da Esparoeira à nossa frente, parede granítica que nos parece impossível subir assim, sem material de escalada.

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E, no entanto, Afonso diz que sim. Conhece-lhe os recantos, sabe qual é o trajecto mais fácil, onde temos de nos segurar ou colocar os pés. Sem darmos por isso já chegámos ao topo. Até o DOP, cão rafeiro alentejano, sobe connosco como se nada fosse. “É o primeiro cão a subir isto”, espanta-se o dono. “Tinha 16 anos quando acampei aqui sozinho pela primeira vez. Estava farto da escola e de Lisboa, então vim para cá, peguei numa mochila e numa tenda de campismo e pernoitei aqui. Também foi fixe.”

Desta vez, não ficamos para ver as estrelas do topo da Esparoeira. Mas sobre a toalha de piquenique há ovos mexidos com farinheira, queijos, enchidos, pão, bolo de azeite e o “café dos contrabandistas”. Vemos os Galegos lá em baixo, com a vila amuralhada de Marvão no topo de outro cerro, ao fundo. E, no sentido oposto, a aldeia mandada construir por Salazar em Fronteira, para albergar as famílias dos guardas do posto fronteiriço – tinha campo de futebol, escola, igreja, paragem de autocarro.

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Ao descermos para lá, haveremos de passar por um antigo abrigo entre a rocha com vestígios rupestres marcados a vermelho. “Contam os antigos da Pitaranha que a gravura foi feita por uma mulher que teve ali um filho e, com o seu sangue, colocou as mãos na parede.” Mas, por agora, terminamos o piquenique numa dança com os grifos. É um voo belo, majestoso, que não conhece tempo nem fronteiras.