Campeões europeus com síndrome de Down querem mais competições em Portugal

Pedro Silva, seleccionador da equipa portuguesa de futsal, defendeu a criação de mais equipas para aumentar a preparação dos atletas.

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Atletas e treinadores querem mudanças no quadro competitivo nacional jos Joao Silva - colaborador

O seleccionador da equipa portuguesa de futsal com trissomia 21, campeã europeia em 2018, defendeu hoje a criação de mais equipas no país para estimular a competição nacional entre atletas com síndrome de Down.

Pedro Silva disse à agência Lusa que gostaria de ver a criação de “um minicampeonato entre pessoas com síndrome de Down para eles [os atletas] terem vários momentos competitivos e para estarem melhor preparados”.

O treinador da selecção nacional de futsal para atletas com trissomia 21 diz que os jogadores têm “muito treino sobre treino, mas falta a competição”, constatando que “em Portugal não existe nenhum campeonato com equipas de síndrome de Down”, ao contrário do que acontece noutros países.

O técnico deu o exemplo do Brasil, onde irá decorrer o próximo campeonato mundial, em Maio, considerando que o país sul-americano aposta em “campeonatos só para pessoas com síndrome de Down”, uma realidade que não se vê em Portugal.

Os próprios familiares dos atletas com trissomia 21 têm algum receio em permitir que os jogadores integrem equipas competitivas, nomeadamente de futsal, ou porque “estão acomodados”, ou porque “não querem que o filho tenha essa visibilidade”, explicou Pedro Silva.

PÚBLICO -
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Selecção nacional sagrou-se campeã da Europa em 2018 Fotografia cedida por Pedro Silva

“Os pais, tios e avós de pessoas com síndrome de Down são pouco flexíveis (...) e não acreditam nas capacidades dos filhos. Já aconteceu identificarmos um atleta que apareceu numa competição e tentámos que integrasse a selecção, mas não houve essa abertura por parte dos familiares”, lamentou.

No caso dos atletas César Morais, de 31 anos, e Daniel Maia, de 21, ambos jogadores de desporto adaptado do Futebol Clube do Porto e integrados na selecção de futsal para atletas com síndrome de Down, a aceitação familiar foi positiva.

“Vale a pena nós, pais, acreditarmos. Muitos não apostam porque não acreditam que os filhos são capazes, mas eu sempre acreditei que o Daniel era capaz disso e muito mais, basta dar-lhes as oportunidades”, referiu Benilde Silva.

“O desporto trouxe-lhe, acima de tudo, auto-estima. Ele sente-se útil, sente que faz algo que gosta e que tem reconhecimento, e isso é muito importante”, acrescentou, orgulhosa.

O pai de César Morais referiu que o filho, considerado o melhor jogador no campeonato europeu de 2018, “é muito empenhado e esforça-se para dar sempre o melhor que consegue.”

“Ele sabe que o objectivo é marcar golos e chuta na bola com toda a garra que tem”, declarou António Morais.

A diferença entre treinar pessoas com síndrome de Down e outros atletas está na “ligação afectiva” que deve ser criada com os jogadores através da demonstração de carinho para lhes aumentar a auto-estima, disse o seleccionador à agência Lusa.

Além disso, o técnico referiu que é necessário ser paciente, pois os jogadores com trissomia 21 “demoram um bocadinho mais a assimilar os processos de jogo”, o que exige a “repetição da acção até à exaustão”, para que depois a apliquem nas competições.

O próximo desafio da selecção acontece entre os dias 28 de Maio e 5 de Junho, no Brasil, contando com mais equipas do que o campeonato europeu do ano passado, o que, segundo o treinador, irá dificultar a vitória dos portugueses.

“Tentamos baixar um pouco as expectativas para que, perante uma possível derrota, eles [os atletas] saibam como reagir”, referiu Pedro Silva.

Tanto os pais dos jogadores como o treinador admitiram que gostavam que os atletas fossem recebidos pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, após o campeonato mundial do próximo mês, o que não aconteceu depois da vitória portuguesa do título de campeões europeus de 2018.

O papel do desporto assume uma grande importância na vida das pessoas com síndrome de Down, pois, “além de lhes aumentar a auto-estima, ajuda-os a seguir regras, a ter disciplina, rotinas, a cumprir horários e ganhar autonomia”, concluiu o seleccionador.