Não é mito: a utilização de ecrãs afecta (e muito) a visão

A utilização intensiva de dispositivos electrónicos está a afectar a saúde dos nossos olhos e as consequências já se fazem sentir. O especialista António Morais alerta para o problema e ajuda a evitá-lo.

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Veja a infografia completa no final do artigo. D.R.

Os dispositivos electrónicos tomaram conta da nossa vida e não conseguimos simplesmente deixar de os utilizar, mas o seu uso intensivo deixa marcas nos nossos olhos, com eventuais consequências graves. Referimo-nos aos ecrãs de dispositivos electrónicos – como telemóveis, tablets ou computadores – cuja utilização frequente pode afectar a saúde ocular. E não, isto não é mito, havendo cada vez mais produção científica sobre a síndrome da visão do computador (SVC) - nome atribuído a este problema de saúde, que pode atingir quem passa muitas horas com os olhos postos num ecrã, independentemente da idade.

De acordo com António Morais, especialista em optometria da Alberto Oculista, “a SVC afecta já milhões de pessoas em todo o mundo, com grandes perspectivas de aumentar ainda mais, fruto do excessivo uso do computador e semelhantes”. Nas suas palavras, esta situação “pode ser considerada uma doença, que irá quase de certeza atingir uma grande percentagem da população que utiliza mais de duas a três horas diárias um ecrã digital”. Com efeito, Sheppard e Wolffsohn, autores de um estudo publicado no ano passado na BMJ Open Ophtalmology, estimam que cerca de 50% ou mais dos utilizadores de computadores possam sofrer de SVC.

Como surge a SVC?

Segundo o optometrista: “quando estamos à frente de um ecrã, os olhos estão constantemente a focar a diferentes distâncias curtas, por exemplo, passando do monitor para a secretária e vice-versa, ou seguindo frases e reagindo a diferentes estímulos de imagens”. Uma vez que todas estas operações são habitualmente realizadas a menos de um metro de distância, acabam por ser muito exigentes: “Exigem um esforço do sistema visual para seguimento e acomodação, bem como do cérebro para interpretar os vários estímulos.” “Tudo isto seria normal para o ser humano se não fosse efectuado durante tantas horas seguidas”, explica.​

A piorar a situação está o facto de “haver uma forte possibilidade de estas pessoas terem algum tipo de problema visual não corrigido, como astigmatismo, hipermetropia, presbiopia ou problemas acomodativos e de convergência”. Além disso, muita gente utiliza os dispositivos e computadores sem ter em conta a luz ambiente, o brilho do ecrã, a distância a que o faz e a má postura que adopta, pelo que “a situação complica-se ainda mais”, salienta.

Os perigos da luz azul

Um dos aspectos que pode contribuir para o surgimento de problemas visuais como consequência da utilização de ecrãs é a luz azul que estes emanam. O optometrista da Alberto Oculista explica que “esta é uma componente da luz que encontramos no sol, ecrãs digitais, luzes fluorescentes e até luzes led, sendo que os nossos olhos não possuem um filtro capaz de bloqueá-la ou reflecti-la”. Assim, quanto mais precocemente se começar a usar ecrãs, tanto maior será o tempo de vida em que se está exposto à luz azul, pelo que “os possíveis problemas associados poderão aparecer mais cedo”.​

“Sabe-se que a interacção da luz azul com as células da retina pode levar à morte dos foto-receptores e embora o organismo tenha mecanismos para lutar contra isso, vai perdendo a habilidade para o fazer com o tempo”, refere o especialista. Uma das consequências pode ser o aparecimento antecipado de degenerescência macular da idade (DMI), uma doença incurável da retina, mais comum a partir dos 50 ou 60 anos de idade e que pode levar à perda de visão.

Apesar de haver cada vez mais investigação sobre a relação entre a luz azul e a saúde ocular, António Morais adverte que “ainda não há certezas a médio e a longo prazo, mas tudo aponta para que seja uma relação complicada e nefasta”. Todavia, alerta que a luz azul não é para banir totalmente, já que “tem grande influência no nosso relógio biológico, nomeadamente, nas horas de sono”.

Miopia aumenta no mundo

Também a miopia tem vindo a ser associada à utilização prolongada de ecrãs electrónicos, uma vez que o aumento de ambas as situações parece coincidir. Num estudo publicado em 2016 sobre a prevalência deste problema, estima-se que o mesmo venha a afectar cerca de metade da população mundial em 2050.

A miopia consiste numa anomalia ocular que se traduz por má visão à distância, o que leva os especialistas a considerar que quem passa muitas horas a focar ao perto (olhando para ecrãs) poderá ficar progressivamente menos capaz de acomodar a visão para ver correctamente ao longe. António Morais lembra também que “a industrialização da sociedade e o aumento do tempo passado dentro de quatro paredes em situações de distâncias curtas pode ter influenciado a prevalência da miopia nos tempos modernos”.

Como prevenir?

A SVC tem sido bastante estudada, remontando a 2005 um artigo científico publicado na Survey of Ophthalmology com a sua caracterização, dando a conhecer o problema à comunidade médica. Luz adequada, utilização de filtros, posição ergonómica e pausas regulares foram logo nessa altura algumas das cautelas sugeridas para reduzir os incómodos causados pela SVC. Estas medidas preventivas são também reforçadas por António Morais [ver infografia], que considera “muito importante” o despiste de qualquer situação, recomendando que “se visite regularmente um especialista de visão”.​

PÚBLICO -
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D.R. PÚBLICO