Perante tanto sol brasileiro...

As diversificadas tentativas de, com a arquitectura, heroicamente, tentar capturar a imensidão de um país e “resolver” as suas fragilidades.

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Música, vídeo e arquitectura... ANDRE RODRIGUES

Infinito Vão, a retrospectiva sobre arquitectura brasileira que percorre 90 anos (1928-2018) começa em toada pós-colonial com o poema Erro de português, de Oswald de Andrade: “Quando o português chegou/Debaixo de uma bruta chuva/Vestiu o índio/Que pena!/Fosse uma manhã de sol/O índio tinha despido/O português.” A seguir, dando voz ao ex-colono, vemos escrito na parede, por Alexandre Alves Costa: “A arquitectura brasileira é uma linha horizontal levantada do chão…” Patente na Casa de Arquitectura, comissariada por Nuno Sampaio, director executivo da instituição, e com curadoria de Guilherme Wisnik e Fernando Serapião, Infinito Vão é o resultado de um laborioso trabalho de levantamento e doação de projectos de arquitectura brasileira, a maior parte em exibição. Sendo uma antologia é também o reflexo público da constituição ambiciosa de um acervo, suportado por instalações sofisticadas e um dispositivo arquitectónico severo e eficaz, de Guilherme Machado Vaz.

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Infinito Vão, a retrospectiva sobre arquitectura brasileira que percorre 90 anos (1928-2018) começa em toada pós-colonial com o poema Erro de português, de Oswald de Andrade: “Quando o português chegou/Debaixo de uma bruta chuva/Vestiu o índio/Que pena!/Fosse uma manhã de sol/O índio tinha despido/O português.” A seguir, dando voz ao ex-colono, vemos escrito na parede, por Alexandre Alves Costa: “A arquitectura brasileira é uma linha horizontal levantada do chão…” Patente na Casa de Arquitectura, comissariada por Nuno Sampaio, director executivo da instituição, e com curadoria de Guilherme Wisnik e Fernando Serapião, Infinito Vão é o resultado de um laborioso trabalho de levantamento e doação de projectos de arquitectura brasileira, a maior parte em exibição. Sendo uma antologia é também o reflexo público da constituição ambiciosa de um acervo, suportado por instalações sofisticadas e um dispositivo arquitectónico severo e eficaz, de Guilherme Machado Vaz.

Dividida em seis secções cronológicas, o espaço expositivo é pontuado por seis canções e uma montagem de imagens alusiva a cada época. Além de uma breve contextualização, cada um destes momentos permite uma aproximação, muitas vezes desejada nas exposições de arquitectura, ao público não especializado. E oferece um testemunho de como formas populares como a canção ou os programas de televisão são intersticiais no devir do Brasil; e de como a arquitectura participa decisivamente, pelo menos numa determinada era — “os anos dourados”, a década de 1950 — nesse processo. Não é exagero dizer que tal é a força expressiva da arquitectura brasileira que ela é, em si mesmo, em muitos momentos, uma forma popular de construção do país. As imagens dos “prédios” (como se diz no Brasil), os desenhos, as maquetas, os livros, as revistas, têm uma tal intensidade poética e denotam uma tal liberdade criativa que os temas musicais e as imagens montadas são afinal o sítio onde paramos para respirar. 

O nome da exposição decorre da persistente ideia brasileira do “vão” como expansão do “vazio aéreo”, significando a superação de atavismos coloniais e a vontade de alcançar uma totalidade, em cruzamento com uma canção, neste caso de Gilberto Gil: “O verdadeiro amor é vão/Estende-se no infinito” (Drão). E é aí que nos encontramos no Brasil: não parece que Le Corbusier, o mestre global da arquitectura moderna, pensasse no “infinito”. Os curadores perguntam logo na primeira secção (1924-1943): “quem inventou o Brasil?” Pedro Álvares Cabral ou as artes modernas das décadas 1920-1930? Colocando a questão de outro modo: os portugueses ou os fulgurantes vanguardismos europeus da época, que o Brasil transformou em coisa sua? A resposta está talvez na expressão “infinito”.

O que a exposição mostra bem são as diversificadas tentativas de, com a arquitectura, heroicamente, tentar capturar a imensidão do país e “resolver” as suas fragilidades. A partir da génese carioca — Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy — depois continuada/contraditada pela escola paulista — Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha —, mas com derivações e tentativas de sair dessa magnética polaridade. Exemplos, entre muitos outros: Sergio Bernardes, Joaquim Guedes, Marcos Acayaba, Eduardo Longo, Jorge Mário Jáuregui, Éolo Maia (um pós-modernismo em Belo Horizonte!).

A primeira secção termina ainda com pouco; mas já com o Brazil Builds, a exposição do MoMA e o mítico catálogo de 1943, o Ministério de Educação e Saúde no Rio e o Conjunto da Pampulha. O tom vai subindo com o lançamento do concurso para Brasília, já ao som da Bossa Nova. Em 1964, a ditadura irrompe, o sonho carioca esmorece e a bola passa para São Paulo. Lina Bo Bardi faz do Sesc Pompeia uma referência intemporal para a arquitectura contemporânea. No final dos anos 1980, com o fim da ditadura e uma alteração do clima arquitectónico, há um regresso da arquitectura brasileira à cena internacional e Mendes do Rocha reemerge decisivamente.

A última secção da exposição (2001-2018) reflecte os abruptos altos e baixos da história recente do Brasil, sobre os quais nenhuma curadoria resiste… Inhotim, “o maior museu a céu aberto”; os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro; mas também uma nova cultura do espaço público com a implosão do Elevado da Perimetral no Rio ou a abertura da Avenida Paulista para pedestres. Em São Paulo, os Centros Educacionais Unificados (Alexandre Delijaicov) significaram uma heroica tentativa de criar estruturas qualificadas em áreas afaveladas; a Praça das Artes (Brasil Arquitetura), uma difícil renovação do centro da cidade; o Instituto Moreira Salles (Andrade Morettin), a via do cosmopolitismo. Entretanto, o Pavilhão Humanidades, de Carla Juaçaba, colocou o Rio outra vez na conversa… Entre crescentes formas de activismo e processos de arquitectura informal, Infinito Vão mostra-nos ainda alguns dos atelieres actualmente a lidar com a herança da escola paulista, um processo complexo e fascinante. 

A integridade conseguida nesta exposição pela música, vídeo e arquitectura — que talvez pudessem estar mais juntos, sobrepostos, sem intervalo, mas, lá está, aí será impossível pensar — emociona mais quando se sabe do Brasil como país partido, cultural e politicamente. E, no entanto, capaz de ser uma só coisa, por vezes, num prédio, num poema ou numa canção.

O longo perfil I estranhamente suportado por três arcos, no projecto expositivo de João Mendes Ribeiro, é afinal uma homenagem lusa e heterodoxa ao Brasil. E no fim, para retomar o poema de Oswald de Andrade, perante tanto sol brasileiro (e alguma tristeza) sentimo-nos despidos pelos índios.