Adriano Miranda
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Adriano Miranda

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Uma inimiga das mulheres

Idealmente, todas as mulheres são livres de fazerem o que bem entendem com os seus corpos e as suas vidas. Não têm de se subjugar a convenções ou lemas que asseguram que “a mulher considera que as tarefas domésticas são a sua função”, muito menos atacar feministas que têm as ideias no lugar, ou outra atrocidade semelhante.

Ainda há coincidências. Este domingo, num almoço de comparsas, uma amiga minha que é gestora de redes sociais levantou uma questão que nos deixou ligeiramente intrigados: segundo ela, há no Twitter uma facção de rapazes e, sobretudo, raparigas entre os 16 e os 20 e poucos anos que têm visões reaccionárias sobre o papel da mulher na sociedade actual.

Segundo esta minha amiga, estes jovens defendem que a mulher deve é estar em casa a tratar dos filhos e não tem de almejar uma vida profissional independente e de sucesso. Espantei-me com a afirmação, mas relativizei. "Devem ser só uns tontos do Twitter", pensei. Horas mais tarde, estava a abrir outra rede social para dar de caras com inúmeros amigos que partilhavam o artigo de opinião do Observador que defende precisamente o mesmo: uma mulher decente é para estar em casa e ser simples agente de procriação. Por momentos, achei que o autor era o intrépido arquitecto Saraiva, mas estava enganado. Desta vez, o autor era… uma autora.

Chama-se Joana Bento Rodrigues (JBR), assina como médica e diz coisas destas: “A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido”, “não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar de poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de ‘ter casado bem’, como se fosse este também um ponto de honra.” A generalização, naturalmente, é perigosa e longe de verdadeira. Mas já lá vamos.

Em primeiro lugar, importa explicar que não sou contra toda e cada letra da autora — não embarcarei no ódio que por aí vi. Por exemplo, tenho as minhas reservas em relação à Lei da Paridade, apenas por achar que pode ser pouco meritória. Mero exemplo: se uma equipa tiver dez mulheres talentosíssimas e dez homens que ficam a dever fortunas à inteligência, temos de despedir cinco mulheres apenas para que os sexos fiquem igualmente representados? Estaremos a abdicar de talento em prol da representatividade. É problemático, no mínimo. Mas, infelizmente, Joana não explica bem esse seu ponto de vista, que seria bem mais importante de relevar. Em vez disso, prefere ser lírica (vou fazer um bocadinho de mansplaining, mas que se lixe: minha senhora, não se usam pontos de exclamação assim à balda, uma professora minha costumava dizer, com razão, que só se utiliza uma exclamação por ano) e exultar as qualidades femininas enquanto objecto de matrimónio e procriação.

A autora está no seu direito de defender esse papel da mulher — mas apenas para a sua vida pessoal. Eis o problema-chave: com esta forma de expressão, está a segregar todas as mulheres que não queiram casar, ser submissas ou até ser mães. Porque, idealmente, todas as mulheres são livres de fazerem o que bem entendem com os seus corpos e as suas vidas. Não têm de se subjugar a convenções ou lemas que asseguram que “a mulher considera que as tarefas domésticas são a sua função”, muito menos atacar feministas que têm as ideias no lugar, ou outra atrocidade semelhante.

Estamos num país democrático e JBR pode dizer o que bem entende, mas creio que, com este texto, que chegou a milhares de pessoas, a autora está a disseminar uma ideia que assenta no pressuposto de que a mulher deve ser mansa e submissa ao macho. Atenção: a mulher pode fazê-lo, pode ser submissa a quem quiser e a quantos quiser — assim como o homem, aliás. Mas o texto de JBR transmite a ideia de que essa mansidão é a coisa certa a fazer, legitimando assim que as mulheres ganhem menos e sejam desconsideradas perante os homens, que sejam secundarizadas na sociedade, que sejam objectificadas sexualmente, que encolham ombros sempre que sejam sujeitas a violência, seja ela qual for, porque “é só uma gaja, não é importante e, provavelmente, até se pôs a jeito”.

JBR está a ser inimiga das mulheres, mas também inimiga de si própria. Porque quando um colega médico ganhar mais dinheiro ao final do mês apenas por ter tido a sorte de nascer com uma pilinha, JBR terá de escrever mais um artigo no Observador a queixar-se desse infortúnio. Mas talvez seja tarde demais. Às tantas, ainda algum homem a há-de mandar para a cozinha, porque os consultórios não são lugares para mulheres.