Crónica

Porque é que os conservadores odeiam a arte do presente?

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Os intelectuais de extrema-direita intensificaram nos últimos anos uma guerra de propaganda contra a arte contemporânea. Dirigem uma campanha organizada contra aquilo que dizem ser uma arte que é feita apenas para chocar a sensibilidade do espectador e fazê-lo pensar mais do que aquilo que sabe.

Declaram que os artistas contemporâneos estão apenas preocupados com as fronteiras do que o público está disposto a tolerar e já não treinam habilidades técnicas (como continuaram a fazer os músicos, bailarinos ou escritores). Deixaram de olhar para o seu interior para produzir boa arte.

Que o incompreensível é venerado como a mais alta formalização estética. Que a arte contemporânea não enriquece a nossa cultura, degrada e empobrece a sociedade, promovendo a vulgaridade e a mais grosseira escatologia. Que a elite do mundo da arte tem uma obsessão com pénis, vaginas, fezes e fluidos corpóreos e estão a impedir a apreciação da arte dos artistas com verdadeiro talento...

O argumento para o anátema sobre a arte moderna e contemporânea vai mais longe. Apoia-se no facto histórico de artistas que foram super estrelas no seu tempo serem hoje figuras caídas no oblívio, embora à época todos conhecessem os seus nomes e tivessem acumulado fortunas superiores aos coprófilos de hoje como Damien Hirst ou Jeff Koons. Quem se lembra de Ernest Meissonier, Charles Le Brun ou William-Adolphe Bouguereau? Ou de Alexandre Cabanel, o pintor preferido de Napoleão III (mestre de Silva Porto e Marques Oliveira) que impediu Manet, Cézanne e Pissarro de participar nos Salons porque não reflectiam a tradição académica francesa e produziam apenas experiências de vanguarda?

Este discurso do ódio é fomentado por sites como a Breitbart News de que Steve Bannon, o estratega chefe de Trump, foi director. O Turn on the hate é agora dirigido à arte contemporânea. Controvérsias que servem para denegrir artistas ou obras. Notícias sobre arte que é confundida com lixo. Dezenas de histórias do artista como palhaço: Artist on Trial for Attaching Rooster to His Genitals. Entradas como: Museum Under Fire for Charging Attendees and Their Dogs, But Letting Migrants in for Free, e Migrants Ruined my Feminist Sculpture, Says London Artist. Ai Weiwei é considerado um avatar da intocável elite global que apesar da sua enorme fortuna pessoal não consta que tenha distribuído nada por migrantes ou que tenha levado algum para casa.

Camille Paglia, a Trump das feministas (como lhe chamam nos EUA por causa do amor a Trump), diz-se ateia e democrata. Mas vocifera contra a arte produzida hoje, concordando com os conservadores: há uma ortodoxia monolítica imperativa no mundo da arte que não é bom para a arte. Tudo é estéril, nivelado e com uma inflação de mediocridade nunca vista. Considera que a arte é uma demanda espiritual, embora feita com materiais. Que a arte tem de se curar do envenenamento que sofreu na últimas duas décadas do séc. XX e que todas as vanguardas acabaram definitivamente com Andy Warhol! Hoje o artista que faz um shock-work qualquer aparece logo no New York Times ou ganha o Prémio Turner. Isto tem de acabar. Mais, o ensino da arte, a começar na primária, não pode ser dar tintas e papel às crianças para experimentarem livremente. As grandes obras de arte da história têm de ser mostradas primeiro.

Para Sir Roger Scruton, autor de How to be a Conservative (2015) e um dos proeminentes intelectuais de direita, a beleza foi marginalizada da arte e do dia-a-dia das pessoas. Porque é que está a faltar? Porque houve um enorme desvio cultural, uma deliberada acção de expulsar a beleza da vida humana, naturalmente presente até ao final do séc. XIX. Todos estão conscientes do valor da beleza quando a vêem. Há a beleza natural, como o rosto humano, a beleza dos animais e a beleza da paisagem que são apodícticas e com um significado independente do universo. A arte dos últimos 100 anos é uma fraude, uma ilusão ultrajante que só serve para deitar no lixo.

Alarme em Inglaterra pela nomeação de Scruton em 2018 para presidente da comissão Building Better, Building Beautiful, conhecido que é o seu ódio à arquitectura moderna e pela admiração pela cidade experimental vernacular do Príncipe Carlos, Poundbury.

Este admirável mundo novo da arte proposto pelos conservadores gerará uma nova raça de intelectuais e directores de museus Alt-right que darão a ver às pessoas aquilo que elas realmente gostam de ver e compreendem: paisagens sublimes, pores-do-sol, flores, gatinhos, corações, crianças brancas e outras coisas belas.

Um novo mundo da arte pueril e afinado finalmente com a beleza e onde a verdadeira arte ficará para sempre na história da civilização

Porque não há arte do futuro, confirmado pela inexistência de arte nos filmes de ficção científica, ninguém ficará chocado quando no século XXII a nova Mona Lisa ser o primeiro original do Menino a Chorar (1950) pintado por Giovanni Bragolin, o novo e esquecido Da Vinci, vendido por 5 mil milhões para o novo museu de arte ocidental de Rabat.