EUA tentam repetir com a China o que fizeram ao Japão nos anos 80

A actual guerra comercial dos Estados Unidos com a nova potência comercial asiática replica as características do que se viveu há quase 40 anos, cujo desfecho pode ajudar a antecipar o que se irá passar no conflito com a China.

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Em 1987, o Congresso norte-americano chegou a impedir a Toshiba de exportar mais produtos para os EUA (devido a uma acusação de venda de material para espionagem à União Soviética), ficando famosas as imagens de congressistas a destruírem com martelos um rádio daquela marca japonesa

Há quase quatro décadas, a emergência de uma economia asiática - com uma indústria altamente competitiva, com marcas cada vez mais conhecidas em todo o mundo e com um excedente comercial nunca antes visto - fez soar os alarmes nos Estados Unidos, a até aí incontestada maior potência económica e mundial, e deu lugar um confronto económico e político entre as duas partes. Nessa altura, ao contrário do que acontece agora, essa economia asiática não era a China, era o Japão. Mas o desfecho desse conflito, claramente vencido pelos EUA, pode servir de pista para perceber o que pode vir a acontecer agora, no conflito comercial que actualmente assusta a economia mundial.

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Há quase quatro décadas, a emergência de uma economia asiática - com uma indústria altamente competitiva, com marcas cada vez mais conhecidas em todo o mundo e com um excedente comercial nunca antes visto - fez soar os alarmes nos Estados Unidos, a até aí incontestada maior potência económica e mundial, e deu lugar um confronto económico e político entre as duas partes. Nessa altura, ao contrário do que acontece agora, essa economia asiática não era a China, era o Japão. Mas o desfecho desse conflito, claramente vencido pelos EUA, pode servir de pista para perceber o que pode vir a acontecer agora, no conflito comercial que actualmente assusta a economia mundial.

Nos anos 1980, o Japão, com as suas marcas de produtos tecnológicos e de automóveis e conquistarem mercados em todo o mundo, começou a criar uma grande insatisfação nos Estados Unidos, o país onde estava a maior parte dos consumidores dos produtos exportados pelo Japão. Cada fábrica fechada e cada despedimento anunciado eram imediatamente relacionados com a ascensão do Japão como principal produtor de alguns dos novos equipamentos tecnológicos. E a forma como as empresas japonesas aproveitavam os seus lucros para, de uma forma bastante agressiva, investir nas grandes economias ocidentais aumentava ainda mais a percepção de se estar a desenrolar uma autêntica guerra comercial.

A ideia que passou a ser dominante nos Estados Unidos era que a culpa deste desequilíbrio – que se expressava numa balança comercial cada vez mais deficitária para os EUA – era de uma política cambial nipónica que mantinha o iene subvalorizado, garantindo às exportações do país uma maior competitividade.

Não é difícil encontrar nesta situação vários paralelos com o que acontece agora com a China. As exportações e os investimentos chineses têm vindo na últimas décadas, principalmente desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a ganhar um papel cada vez mais importante no globo. E, com o défice comercial a alargar-se e várias empresas a deslocalizarem as suas unidades industriais para o oriente, foram crescendo as acusações à política comercial da China. Este foi um dos temas principais da campanha eleitoral de Donald Trump que, desde que chegou à presidência, tem cumprido a sua promessa de confrontar a China, por via do aumento de taxas alfandegárias.

Nos anos 1980, a resposta política nos Estados Unidos à emergência do Japão foi também muito forte. Com a indústria automóvel de Detroit e as empresas de electrónica da Califórnia a protestarem com a concorrência japonesa, tanto os Republicanos como os Democratas uniram-se nas críticas à política comercial japonesa, por causa do iene fraco e do que diziam ser as portas fechadas aos produtos americanos nos EUA. Em 1987, o Congresso norte-americano chegou mesmo a impedir a Toshiba de exportar mais produtos para os EUA (devido a uma acusação de venda de material para espionagem à União Soviética), ficando famosas as imagens de congressistas norte-americanos a destruírem com martelos um rádio Toshiba.

No entanto, tinha já sido em Setembro de 1985, que a administração Reagan tinha garantido a sua principal vitória frente ao Japão, quando foi assinado (também com a participação da França, Alemanha e Reino Unido) um acordo comercial (conhecido como o acordo Plazza) que garantiu que o dólar não se iria continuar a apreciar nos mercados cambiais, retirando competitividade aos produtos norte-americanos.

Vários economistas defendem que foi esse acordo que, penalizando as exportações japonesas de forma abrupta, conduziu a políticas monetárias erradas e que acabou por, com o rebentar da bolha imobiliária no início dos anos 90, levar o país asiático à deflação e recessão da década seguinte. O Japão não deixou de ser uma economia importante, mas esta guerra comercial acabou por perdê-la com os EUA.

Agora, são também evidentes as dificuldades que a China está a ter, perante a estratégia agressiva de Trump, para contrariar os trunfos poderosos com que os EUA contam neste tipo de conflito. Os consumidores norte-americanos são demasiado importantes para as empresas chinesas para que Pequim possa pura e simplesmente não dar importância ao risco de os perder. E por isso, quando Donald Trump sobe as taxas alfandegárias de produtos chineses (já o fez por duas ocasiões), a China tem revelado uma crescente dificuldade em responder na mesma moeda.

Tréguas?

No passado dia 1 de Dezembro, Xi Jinping e Donald Trump assinaram uma trégua de três meses, com o objectivo de chegar a um acordo que impeça a escalada do conflito comercial. E nas últimas semanas tem sido evidente o esforço de Pequim para que tudo corra bem, anunciando publicamente todos os passos que está a dar para cumprir os compromissos assumidos com os EUA.

Isto pode dar a indicação de que, mais uma vez, os EUA têm o ascendente na negociação. Uma coisa é certa, os responsáveis políticos chineses têm bem noção daquilo que aconteceu ao Japão há 40 anos. No passado mês de Outubro, a Bloomberg escrevia que, num recente encontro entre responsáveis chineses e japoneses, os primeiros tinham pedido conselhos aos segundos sobre como lidar com os EUA numa negociação comercial.

Há no entanto várias diferenças entre o Japão dos anos 1980 e a China actual, que podem tornar menos simples uma vitória norte-americana. A principal é que, ao contrário do Japão, que era apenas uma potência económica emergente, a China é uma superpotência emergente em diversos outros níveis para além do económico. O poder militar chinês e a forma metódica como tem vindo a desenvolver a sua influência geoestratégica trazem outras variáveis à negociação.

Depois, a China tem outros argumentos a nível económico que o Japão não tinha, como o facto de várias empresas norte-americanas ou terem fábricas na China ou dependerem dos produtos baratos chineses para o seu próprio sucesso. Isto faz com que um aumento de taxas alfandegárias pelos EUA não tenha apenas um custo para a China, mas também para os próprios EUA.

Por isso, apesar de no final de Fevereiro, com o fim do período de trégua, decisões importantes terem de ser tomadas, poucos são os que antevêem uma solução definitiva como a conseguida pelos EUA em 1985 com o Japão. Um cenário de uma guerra comercial prolongada é visto como uma forte possibilidade.