Batalha, um lugar feito de estórias

Parta à descoberta de capítulos da história, das lendas, paisagens e monumentos que fazem da vila da Batalha um ponto de visita obrigatória no Ano Europeu do Património. A vitória celebra-se no Mosteiro, classificado Património da Humanidade pela UNESCO em 1983.

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Perder uma batalha não significa perder a guerra, mas perder uma visita guiada pela Batalha, significa perder o triunfo das tropas portuguesas sobre os castelhanos na Batalha de Aljubarrota em 1385. Uma conquista que levou à construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (ou Mosteiro da Batalha, se preferir). As portas estão abertas e o conservador de um dos monumentos mais visitados do país começa a visita guiada. “O Mosteiro resulta de uma promessa do Rei D. João I em agradecimento pela vitória que lhe assegurou o trono e garantiu a independência de Portugal”, afirma Pedro Redol. Os olhos estão postos nesta obra grandiosa do Gótico Português, onde dela extravasa a nova corrente artística do Manuelino.

Observe o pórtico da fachada principal e o seu trabalho escultório com mais de 70 figuras representadas. Olhe para cima: contemple a rosácea, um belo exemplo do enorme saber fazer dos antigos canteiros. “Mas uma obra desta escala e com este impacto tem uma explicação: para ter o reconhecimento de outras coroas na Europa e para materializar o reconhecimento que, entretanto, lhe foi dado pelo Papa, o Rei D. João I criou uma imagem de afirmação”, prossegue o ex-director do Mosteiro e actual curador com formação na área da História da Arte e Património Cultural. Uma imagem que mobilizou grandiosos recursos humanos e materiais durante quase 200 anos.

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“O Mosteiro da Batalha foi construído sensivelmente a partir de 1388 e as últimas obras foram terminadas em 1566. São 178 anos”, confirma Pedro Redol. Esta duração justifica a existência, nas suas propostas artísticas, de soluções góticas manuelinas e um breve apontamento renascentista. Uma junção que é atribuída à diversidade dos mestres que dirigiram a obra (como Afonso Domingues, Huguet, Martim Vasques, Fernão D’Évora e Mateus Fernandes) e deu origem a lendas que até hoje são contadas. É o caso da lenda da Abóbada, de Alexandre Herculano, que se localiza no ano de 1401. Reza a lenda, que a construção da abóbada da casa do capítulo do Mosteiro é da autoria de Afonso Domingues, que apesar de cego, a concluiu depois das obras terem sido entregues ao arquitecto Huguet e de este não ter conseguido o seu intento.

O objectivo? Distinguir o arquitecto português do estrangeiro, num momento de afirmação nacionalista da cultura portuguesa. “O que é muito curioso é a apropriação sucessiva de história de acordo com os interesses e objectivos de cada época”, comenta Pedro Redol. Na verdade, sabe-se hoje que a abóbada da Casa Capitular não é da autoria de Afonso Domingues, mas sim de Huguet, tendo podido ser reconstruída por Martim Vasques — logo, a lenda é apenas isso mesmo: uma lenda. Factual é o render da guarda, sempre à hora certa, que recebe a Casa do Capítulo em homenagem ao Soldado Desconhecido, composta pelos túmulos de dois militares – um morto na I Grande Guerra e outro na Guerra Colonial.

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No total, foram quase 200 anos de construção que incentivaram a introdução e o aperfeiçoamento de várias artes e de novas técnicas, como aconteceu com o famoso vitral. Segundo alguns historiadores, esta técnica terá mesmo sido introduzida em Portugal, pela primeira vez, no Mosteiro da Batalha. “Existia um programa inicial que compreendia aquilo que é normal em cada Convento que era uma igreja, o claustro e as pendências que estão à volta do Claustro, além da sacristia, que está à volta da igreja”, diz o autor de publicações relevantes sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória.

E assim, vários acrescentos foram introduzidos no projecto inicial, resultando um vasto conjunto monástico que actualmente apresenta uma igreja, dois claustros com dependências anexas e dois panteões reais, a Capela do Fundador e as Capelas Imperfeitas — que sofreu a última intervenção a fundo na década de 30 do século XVI. Actualmente, a nave central da igreja eleva-se a 32,5 metros e apoia-se sobre oito colunas de cada lado. Além das capelas e dos claustros, pode ainda visitar o dormitório, o refeitório e a cozinha do mosteiro.

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Mais tarde, D. João I doou o Mosteiro à ordem de S. Domingos e de Frei Lourenço Lampreia, confessor do monarca. Na posse dos dominicanos até à extinção das ordens religiosas em 1834, o Mosteiro foi classificado como monumento nacional já no século XX, em 1910. Em 1983 foi um dos primeiros monumentos inscritos na lista do património mundial da UNESCO.

 

De campo de batalha a vila vitoriosa

Já a vila da Batalha foi também palco de momentos históricos memoráveis, com vestígios de ocupação desde o Paleolítico, passando pela presença romana na importante cidade de Colippo, até às decisivas lutas pela independência. De todas essas marcas, resulta uma herança cultural incontornável. “A Batalha já foi maior do que é, essa dimensão deveu-a em grande parte a uma coisa que é desconhecida e acho que é muito interessante para um visitante. Está relacionada com o facto de os dominicanos terem tido uma ordem religiosa de elite que se dedicava ao estudo e à prática do ensino da teologia. E, aliás, grandes personalidades passaram por aqui”, relata Pedro Redol. “Nós sabemos que houve leigos (pessoas que não pertenciam à comunidade da Batalha ou a outra comunidade dominicana ou religiosa) que puderam fazer aqui os seus estudos e depois submetiam-se a exame nas universidades mais próximas que eram a de Coimbra e Salamanca. É um dado importante que explica também o movimento, importância e dimensão que esta comunidade e este edifício tinham na altura.”

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Uma grandeza que, nos dias de hoje, transparece no rico património edificado. Como é o caso do edifício da primeira posição do Exército Português que se localiza a menos de 500 metros do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Há 600 anos, este foi o primeiro local escolhido para travar o avanço do exército castelhano por Nuno Álvares Pereira. O condestável militar (como o intitulam) da Batalha de Aljubarrota que está representado na estátua equestre do século XX mesmo ao lado do Mosteiro. Uma figura incontornável da Idade Média que foi canonizado pelo Papa Bento XVI, em Abril de 2009, passando a designar-se São Nuno de Santa Maria. De seguida, a caminho do Oeste, na zona especial de protecção do Mosteiro encontra a Ponte da Boutaca, de traça neo-gótica, cuja construção terá começado em 1862 durante o reinado de D. Luís.

Durante a visita, deixe-se contagiar pela genuinidade e espírito afável das gentes da Batalha e regresse à Praça Mouzinho de Albuquerque onde encontrará o Pelourinho. Caminhe mais um pouco e observe ao portal manuelino da Igreja Matriz da Exaltação de Santa Cruz e as janelas barrocas decoradas da Capela de Santa Casa da Misericórdia. Pelo caminho, recupere forças com a gastronomia típica que herda receitas repletas de sabor e de histórias de gerações. Do tachadéu às morcelas de arroz, o receituário da Batalha é centrado na carne e no bacalhau. Nas festas populares e romarias encontra ainda doçaria tradicional como o pudim de Batalha, os bolos de ferradura e as cavacas de Reguengo do Fetal.

Um lugar para viver e desfrutar da natureza

A visita ao Património Mundial do Centro de Portugal, acompanhada pela Turismo Centro de Portugal, continua pela diversidade das paisagens únicas com planaltos verdejantes e campos de cultivo. Explore os encantos do Maciço Calcário Estremenho e aventure-se pelas suas formações geológicas únicas. O ecoparque da Pia do Urso é o sítio ideal para se encantar pelos caminhos, sons e perfumes da vista deslumbrante. Uma aldeia recuperada onde está instalado o primeiro ecoparque sensorial destinado a cegos. Aqui, todos, sem excepção, podem despertar o tacto, o olfacto e a audição numa experiência mágica e quase tão renovadora como a beleza extraordinária das Grutas da Moeda. Lá estão dezenas de estalagmites e estalactites que apresentam uma profundidade de 45 metros. Atire uma moeda e peça um desejo.

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Mas não se despeça da vila sem partir à descoberta deste território por um dos quatro percursos pedestres sinalizados. Arrisque no Buraco Roto, com uma duração de mais de duas horas, que se inicia e termina no Largo da Fonte. Na área da Pia da Ovelha poderá observar a prática de escalada e, mais a sul, aprecie uma chaminé natural que resulta da erosão da água e do vento. Nesta associação entre a história e o património foi-se construindo um concelho que convida a ver mais do que uma obra-prima da arquitectura. Viajar por estas paragens revela-se uma contínua descoberta de séculos de história, onde se vivem momentos de tranquilidade em comunhão com a natureza. 

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A operação Lugares Património Mundial do Centro é promovida e coordenada pela Turismo do Centro de Portugal em colaboração com os municípios de Alcobaça, da Batalha, de Coimbra e de Tomar, a Universidade de Coimbra e em parceria com o Ministério da Cultura, através da Direcção Geral do Património Cultural e da Direcção Regional de Cultura do Centro.