Como um andar que custou um milhão foi parar às mãos de Menezes

Imóvel no último piso dp edifício Living Foz foi comprado em 2012 pelo pai de Menezes, que três meses mais tarde troca o andar por um T5 duplex comprado pelo filho em 2007.

Menezes abandonou política activa depois de perder corrida à câmara do Porto.
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Menezes abandonou política activa depois de perder corrida à câmara do Porto. FERNANDO VELUDO/ NFACTOS

O apartamento de luxo onde o antigo autarca de Gaia, Luís Filipe Menezes, vive actualmente, no último piso do edifício Living Foz, no Porto, custou um milhão de euros em Junho de 2012 ao pai do político. A compra foi feita sem recurso a qualquer empréstimo, um dado que pôs os investigadores em alerta e levou a Polícia Judiciária e o Ministério Público a investigar as contas do pai de Menezes, hoje com mais de 90 anos.

A informação integra o inquérito judicial que investigou os rendimentos e o património do antigo autarca e que terminou arquivado. O valor de um milhão de euros consta, lê-se no processo, na escritura de compra e venda do andar à sociedade J. Camilo, SA, que construiu este edifício que ganhou vários prémios de arquitectura a nível internacional. Ao analisar as contas do pai de Menezes, foi descoberta uma, aberta no antigo Banco Espírito Santo (BES) em 19 de Abril de 2012, uns dias antes de ali entrar uma transferência de 1.435.600 euros. Foi da conta do BES que saiu um cheque de 950 mil euros que serviu para pagar a quase totalidade do andar do Living Foz à J. Camilo.

Menezes, filho único, não comprou o andar do Living Foz – que acabou seu por permuta com o pai -, mas tinha comprado, em Março de 2007, um T5 duplex junto ao Parque da Cidade, igualmente no Porto, por 774.600 euros. Nas sucessivas declarações que Luís Filipe Menezes entregou no Tribunal Constitucional aparece o imóvel, sem a referência de qualquer valor. Na primeira em que surge o T5 duplex, entregue em Novembro de 2007, é referido um crédito habitação de 267.500 euros. Na seguinte, entregue oito meses mais tarde, o empréstimo já diminuiu para 227.500 euros.

Em Outubro de 2012, pouco mais de três meses após ter comprado o andar no Living Foz, o pai de Menezes troca o apartamento com o filho. Fica com o T5 duplex e entrega ao único descendente o andar do último piso do Living, com vista sobre o mar. Na operação é atribuído o mesmo valor aos dois andares, meio milhão de euros, apesar de o T5 ter um valor tributário de 358 mil euros e o da Foz de 504 mil euros. É este último valor que Menezes inscreve mais tarde na declaração que entregou em Outubro de 2013 no Constitucional, após ter cessado funções como presidente da Câmara de Gaia e já depois de ter perdido a corrida à liderança da Câmara do Porto, que o levou a abandonar a política activa.

Na mesma declaração é referido que sobre o imóvel incide uma hipoteca de 165 mil euros. Mas o dinheiro tinha sido pedido em 2007 para comprar o T5 duplex e, como ainda não estava totalmente liquidado aquando da permuta, acabou associado ao andar do Living.

O T5 duplex esteve nas mãos do pai de Menezes pouco mais de um ano, já que foi trocado, em Novembro de 2013, por uma quinta em Baião, que inclui uma casa com piscina, junto ao Douro, integrada numa propriedade com mais de 7500 metros quadrados. Também neste negócio o valor atribuído aos dois imóveis foi meio milhão de euros. A quinta continua registada em nome do pai do político, apesar de a revista VIP ter publicado um artigo em Setembro de 2014 no qual escrevia que Luís Filipe Menezes “abriu pela primeira vez as portas da sua quinta em Baião”. Confrontado com a discrepância, Menezes reagiu: “Era o que faltava que, como filho único, não pudesse usufruir das coisas do meu pai”.