Opinião

Admirável mundo sustentável

Acreditar na ideia de um mundo diferente, melhor e mais sustentável não é hoje uma utopia de um pequeno grupo de excêntricos idealistas.

Todos os dias acordamos e vivemos a mesma rotina: tomamos o pequeno-almoço, vamos trabalhar, regressamos a casa, jantamos e vamos dormir. No dia a seguir tudo se repete. Tal como acontece numa das minhas canções preferidas, Cotidiano, de Chico Buarque, a vida decorre de forma repetitiva na maior parte do tempo. A este tipo de comportamentos que fazemos já sem grande esforço e reflexão chamamos de hábitos.

Vivemos num tempo em que começamos a aceitar que a maioria dos comportamentos dos seres-humanos são na verdade guiados por intuições e comportamentos habituais sem grande reflexão. Não um, mas dois, prémios Nobel foram já atribuídos a professores que mostraram que os seres-humanos têm duas formas de pensar. Um sistema rápido, eficiente, automático, e que é muito influenciado pelos contextos (a que chamamos Sistema 1), e um sistema de pensamento mais elaborado, reflexivo e que exige atenção (Sistema 2). Este segundo sistema requer que paremos e pensemos sobre o curso de acção que queremos seguir. É muito mais exigente e por isso muito menos utilizado por nós no dia-a-dia.

Pegando nestas ideias, a psicologia do consumo sabe desde há muito tempo como vender os produtos. De uma forma simplificada: quando o produto que quero vender não acrescenta muito àqueles que existem, então o melhor é apelar ao nosso modo de funcionamento automático. Neste caso, anúncios com muitas cores e sons, e com presumíveis cientistas de bata branca, funcionam melhor porque nos distraem e nos levam a utilizar uma heurística infalível da autoridade que nos diz de forma inconsciente “se me dizem que o produto é bom, então é porque deve ser”. No entanto, quando o produto em causa tem qualidades intrínsecas e inovadoras, os anúncios são simples, usam argumentos fortes e dão tempo às pessoas para reflectir. O tempo de reflexão que as pessoas precisam para tomar decisões conscientes sobre a melhor opção a seguir.

Embora alguns ainda neguem a todo o custo, já não é preciso convencer a maior parte de nós de que o mundo em que vivemos apresenta vários desafios que têm de ser enfrentados com seriedade, tempo e reflexão. A sociedade assente em modelos imediatos do “tirar, fazer, consumir, deitar fora” representa vários riscos em termos ambientais e para a saúde que não são facilmente negados. A questão principal que se segue, e que faz com que muitas pessoas não mudem, parece ser a dificuldade em pensar em alternativas possíveis.

No entanto, acreditar na ideia de um mundo diferente, melhor e mais sustentável não é hoje uma utopia de um pequeno grupo de excêntricos idealistas. É cada vez mais uma realidade e várias tendências parecem indicar o caminho. O projecto INHERIT – identifying ways of living, moving and consuming that protect the environment and promote health and well-being é um grande projecto financiado pela Comissão Europeia (2016-2020) que visa parar, reflectir e, sobretudo, indicar caminhos para a mudança. Este projecto ambicioso reúne um vasto conjunto de parceiros europeus (entre os quais vários Institutos de Saúde Pública e Ambiente como os da Holanda e da Escócia) no sentido de investigar formas alternativas para um futuro melhor e possível para a Europa. Uma das tarefas centrais deste projecto é a de identificar as principais tendências de evolução a nível social, ambiental e propor políticas adequadas. E que tendências são estas? Elas estão bem identificadas no website do projecto, mas gostaria de realçar aqui alguns exemplos importantes.

Em termos sociais, o envelhecimento demográfico e a urbanização da população são as tendências esperadas e mais conhecidas. No entanto, a análise da situação actual revela também que as pessoas procuram cada vez mais o seu bem-estar e estilos de consumo mais sustentáveis, por exemplo, a nível alimentar. O crescimento dos mercados de alimentos de origem biológica tem aumentado de forma significativa nos últimos anos. Em 2014, os ganhos originados por este tipo de mercados já rondavam os 24 milhões de euros.

Em termos ambientais, assistimos a mudanças notáveis, por exemplo, na área dos transportes. Espera-se que em 2030 as viagens de curto curso sejam substituídas na sua totalidade por transportes públicos ou bicicletas e que os carros utilizem energias inteiramente renováveis.

O uso de novas tecnologias, como a realidade virtual e aumentada, terá um avanço muito rápido nos próximos anos. Em breve estarão disponíveis aparelhos sofisticados que poderão monitorizar a actividade cerebral, o batimento cardíaco e os níveis de cortisol no sangue de modo a ajudar a prevenir o stresse e doenças indesejadas. A utilização de inteligência artificial nos cuidados de saúde será uma realidade. Já em 2024 espera-se que 30% das casas na Europa tenham robots para assistência e interacção social.

Estes desenvolvimentos estão a ocorrer agora e tenderão a solidificar-se nos próximos anos caso continuem a ser tomadas as medidas políticas necessárias. E que acções devem ser tomadas na direcção da mudança? Algumas sugestões em termos globais são, por exemplo, o de tornar a sustentabilidade uma marca da Europa. Por exemplo, num movimento original, o País de Gales incluiu os objectivos de desenvolvimento sustentáveis propostos pela Nações Unidas como um objectivo central do seu governo (Well-being of Future Generations Act). Outras acções em termos globais são a aposta na educação para a sustentabilidade nas escolas e a exposição a espaços verdes para todos, apostando na criação de “corredores verdes” que ligam os diferentes espaços verdes da cidade.

Uma proposta de relevo seria a criação de um Conselho Europeu para a Comida Saudável e Sustentável que ajudasse a definir e a promover uma dieta apropriada. Este Conselho criaria guias que poderiam ser posteriormente apropriados pelos Estados-membros a nível local. A este respeito, uma revisão da actual política agrícola comum é fundamental para garantir a equidade entre os diferentes países e produtores de diferentes escalas (dando também oportunidades aos pequenos produtores locais).

Todas estas propostas (que podem ser consultadas em https://inherit.eu/wp-content/uploads/2018/08/INHERIT-policy-roadmap.pdf) foram apresentadas à Comissão Europeia e serão alvo de uma ampla divulgação. Espera-se que possam ter influência no curso de acção a tomar na Europa do futuro.

Em Portugal, temos também algumas iniciativas que procuram identificar projectos transformadores que ajudam a tornar o nosso país mais sustentável. O projecto Alternativas – experiências locais para uma transformação global, em curso na Fundação Gonçalo Silveira, constitui um esforço de relevo nesta área.

Finalmente, tenho de salientar que cada um de nós pode individualmente parar e reflectir sobre o futuro onde gostaria mais de viver. O projecto INHERIT criou quatro cenários possíveis de vidas futuras e que estão disponíveis para visionamento no YouTube. Desafio os leitores a verem estes vídeos interessantes e animados sobre o futuro que podemos criar. Parar para pensar é difícil nos dias de hoje mas é absolutamente imprescindível se queremos um futuro melhor. Eu desde já afirmo sem receio que gostaria muito de viver no mundo do Milan, o engenheiro reformado de 82 anos, que constrói casas sustentáveis com os filhos e os netos. E vocês?