Música

As canções de Feist como guia para o optimismo

Braga e Lisboa testemunham, sábado e domingo, a forma como a cantora canadiana usa as canções para moldar a sua realidade. Em destaque estará Pleasure, o seu álbum mais recente.
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Feist dr

Neste ofício de lidar com as canções todos os dias, a canadiana Leslie Feist foi descobrindo uma qualidade funcional que não fazia ainda parte dos encantos e dos atractivos da música na efervescência adolescente. Aos poucos, apercebeu-se de que cada canção e a sua respectiva repetição ao longo de meses ou anos criavam uma saudável distância em relação à experiência pessoal que estivera na sua origem. “Não sei explicar muito bem como se passa”, confessa ao PÚBLICO, “mas quando estou a escrever e a compor vou organizando e resolvendo pensamentos ou algo que me tenha acontecido. Na altura em que termino uma canção, já terei conseguido resolver aquilo que me ocupava a cabeça ou, pelo menos, terei criado uma distância que me permite olhar a situação com maior clareza.” Ou seja, as canções na vida de Feist (ficou reduzida ao apelido no meio musical) são como uma máquina trituradora: entram como realidade e saem transformadas num aparentado de ficção.

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É por isso que a cantora – que esta semana se apresenta em Portugal para concertos no Theatro Circo, Braga, sábado, e no Coliseu dos Recreios, Lisboa, domingo – fala dos seus álbuns anteriores como se ouvisse histórias do seu passado, identificasse questões que então a ocupavam ou folheasse um álbum de fotografias: reconhece-se neles, mas demora-se em pormenores como cortes de cabelo ou roupas da época, pressentindo “todas as razões pelas quais as coisas mudaram”.

Essa dimensão funcional da criação acentuou-se sobretudo desde Metals (2011). Sem que tenha levado a cabo uma revolução na fabricação das suas canções, Feist assume que antes “talvez não desse tanta importância à convicção implicada em cada palavra”. “Já abordei o Metals dessa forma, mas no Pleasure [2017] levei ainda mais longe a ideia de que deveriam ser as palavras a ditar os arranjos dos temas.” Se em Metals lidava com “ideias mais zangadas e sentia que estava a agitar o punho em direcção ao céu”, em Pleasure focou-se num aspecto “mais privado, silencioso, inseguro, incerto”, aberto à ruminação de assumidos erros na sua vida.

É também da forma como lida com esses erros que vem o título Pleasure. Durante os dois anos em que preparou o seu álbum mais recente, Feist decidiu “exercitar o optimismo mais do que as perspectivas negativas sobre a sua vida – e ver o que acontecia”. “Chamar-lhe Pleasure foi um jogo de palavras, ao escolher uma palavra a partir da qual me queria manifestar. E comecei a brincar com essa ideia de que poderia moldar a minha realidade ao moldar a minha perspectiva.” A teoria é simples: escolhendo de forma consciente alimentar-se desse enviesado olhar optimista, a música quis perceber como é que isso contaminaria canções escritas a partir de situações ou momentos mais conturbados.

E dá como exemplo dessa manipulação das lentes com que se olha a realidade a sua chegada a Bruxelas no dia em que a entrevistamos: “Se eu odiar Bruxelas porque tive uma má experiência aqui há dez anos, vou carregar isso comigo agora; mas se adorar Bruxelas porque tem um óptimo restaurante de que nunca me esqueci e a que vou em todas as minhas passagens pela cidade, isso também vai moldar o meu presente aqui.” Bruxelas é apenas o exemplo prático – o que verdadeiramente interessa é que Pleasure é uma tentativa consciente de reclamar controlo sobre a forma como vive os seus dias e como deixa que estes a afectem.

Em paz com o filho pródigo

Feist deu nas vistas a solo – tem sido também um membro intermitente da banda canadiana Broken Social Scene – em 2004, com o álbum Let it Die, conjunto imaculado de enormes canções de certeira veia pop e arranjos tão jazzísticos quanto de uma electrónica pouco impositiva, com tanto de soul quanto de folk, ou não contasse com a omnipresente participação de Chilly Gonzales. O disco sucedia ao discreto Monarch (1999) e antecipava o maior sucesso da sua carreira, quando, em 2007, rodeada de Gonzales, Mocky e Jamie Lidell, pariu, em Paris, The Reminder. Sem alterar de forma drástica as coordenadas de Let it Die, o álbum escalou a montanha da popularidade no momento em que 1234 foi o tema escolhido para um anúncio do iPod Nano.

Essa inesperada atenção dada à sua música foi um sério abanão no percurso que Feist vinha desenhando até então. A obra da canadiana não era ainda muito extensa, mas a canadiana sentiu de imediato que esse sucesso tinha o poder de criar “uma mitologia em relação a tudo o que fazia, com a intensidade de tantos olhos estarem focados num pequeno aspecto” da sua música. “A apreciação da minha música tornou-se quase unidimensional; 1234 tornou-se um filho pródigo. De todos os filhos que são as centenas de canções que fiz até hoje, por alguma razão essa é mais familiar, mas não gosto dela nem mais nem menos do que das outras.” Com o tempo, admite, aprendeu a ter gratidão por aquilo que aconteceu e pelas consequências que 1234 traria à sua vida. Nomeadamente, “a liberdade para poder continuar” a fazer música e a relação intocada que vem mantendo com a editora.

Uma liberdade que exerce sendo a sua própria banda. Ou seja, Feist está em estúdio sem a necessidade de incluir todos os músicos em todos os temas. Pleasure é, aliás, um álbum feito a dois: ela e Mocky. Os dois tocaram a quase totalidade dos instrumentos, sempre em takes simultâneos, gravados ao vivo. Uma forma de manter a intimidade descarnada pedida pelas palavras. Serão sobretudo essas canções que escutaremos por estes dias em Braga e Lisboa. E é possível que nos habituemos cada vez mais a encontrar Feist por estes lados – é que Mocky, amigo de adolescência e maior cúmplice da sua obra nos últimos anos, acaba de trocar Los Angeles pela capital portuguesa. Até já, Feist, vemo-nos por aí.