Palmas para Feist

Feist Lisboa, Aula Magna
4ª feira, 22h. Lotação esgotada
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A tarde havia sido quente, com golos. A noite era a primeira de há muito com sabor a Primavera. Era também o último concerto da digressão da canadiana Feist ou como ela colocou a questão, "parece o último dia de escola", antes das férias grandes do Verão. Estavam reunidas as condições para um encontro feliz entre plateia e palco.
E isso aconteceu. Por vezes, até, com devoção exagerada. Às tantas, no início de uma canção, enquanto procurava o acorde perfeito com a guitarra, a cantora pediu ao público que não batesse palmas, "durante 30 segundos apenas", brincou, para se concentrar.
Foi um regresso triunfal, portanto. Em 2005, ou como a própria gracejou, "há exactamente dois anos e 287 dias", apresentou-se no Fórum Lisboa, solitária, apenas à guitarra, perante uma plateia rendida à simplicidade das canções do segundo álbum Let It Die.
Três anos depois surgiu com uma série de músicos ao seu lado - apesar de ter apresentado também várias canções, sozinha, à guitarra - e duas artistas que iam propondo colagens e manipulando imagens, interagindo com a música em tempo real, ou provocando momentos cénicos com sombras chinesas.
A sua base de apoio também aumentou. The Reminder, o seu último álbum, do ano passado, conduziu-a para um nível de popularidade que poucos preveriam. Uma sucessão de singles, vídeos surpreendentes e a nomeação para vários galardões (com destaque para os Grammy) transformaram a canadiana, a viver em Paris, no poster do quarto preferido de muita boa gente.
As razões para o fervor podem ser explicadas pela forma cativante e humorada de comunicar de Feist e pelas canções, que remetem para universos diferenciados, da folk ao jazz, do rock aos blues, sempre com uma grande sensibilidade pop a pairar sobre tudo. A aparente dispersão nunca faz perder de vista a voz doce e emocional, a simplicidade das formas e as construções melódicas.
Como se esperava, foi um concerto que oscilou entre momentos intimistas, como The water, Intuition ou o estupendo How my heart behaves e outros que libertaram uma frescura rítmica lúdica e festiva, como em My moon my man, I feel it all e 1234, o primeiro que fez levantar a assistência das cadeiras.
O público, esse, desde o primeiro momento conquistado pelo que se ia desenrolando em palco, batia palmas. Muitas palmas. No final, depois de dois encores - o último dos quais uma interpretação ao piano de "The water", com Feist por detrás de um biombo chinês - a cantora repetiu o número que já havia feito em 2005.
Resolveu fazer uma surpresa à cunhada, açoriana, telefonando-lhe a partir do palco e solicitando ao público que cantasse em coro uma música tradicional portuguesa. E foi assim que a Aula Magna, completamente esgotada, se despediu a cantar o Malhão. Cantando, e batendo palmas ao ritmo que cantava, é claro.

Vítor Belanciano