Igreja Católica

As forças mais conservadoras do Vaticano dispararam o primeiro tiro contra o Papa

No momento de maior fragilidade do actual papado, a carta do antigo núncio dos EUA com acusações contra Francisco parece ser a declaração formal de guerra da facção conservadora liderada pelo cardeal Raymond Burke.
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O Papa pediu aos jornalistas que prestassem atenção à origem das denúncias Stefano Rellandini/REUTERS

Muitos imaginariam o Papa Francisco a respirar de alívio mal terminasse a dura viagem de dois dias à Irlanda, onde teve de se penitenciar repetidamente pelos abusos sexuais a menores por clérigos neste país e enfrentar críticas e protestos. Mas não foi isso que aconteceu. Aliás, a histórica visita a terras irlandesas foi o pretexto ideal para o início de mais uma batalha. Desta vez contra inimigos internos.

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No domingo, último dia do Papa na Irlanda, o antigo embaixador (núncio) do Vaticano nos Estados Unidos, o arcebispo italiano Carlo Maria Vigano, escreveu uma carta com 11 páginas, publicada em diversos órgãos de comunicação católicos conservadores, afirmando que Francisco tinha conhecimento há cinco anos das denúncias de abuso sexual contra o cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e pedindo, por isso, a renúncia do pontífice.

“Comunicado fala por si”

No avião de regresso a Roma, Francisco falou, como habitualmente, com os jornalistas e a carta de Vigano foi, naturalmente, um dos temas principais. O Papa não quis comentar as acusações, mas pediu que os jornalistas prestassem atenção à origem das denúncias.

“Li o comunicado esta manhã. Li e vou dizer sinceramente, tenho de vos dizer isto, a todos vocês que estão interessados: leiam o documento atentamente e julguem-no por vocês mesmos”, disse. “Não vou dizer uma única palavra sobre isto. Penso que o comunicado fala por si e vocês têm capacidade jornalística suficiente para chegarem às vossas próprias conclusões”.

A carta de Vigano assenta em três aspectos fundamentais: primeiro, que ele revelou pessoalmente a Francisco, pouco depois da sua eleição como Papa, as acusações que incidiam sobre o agora ex-cardeal de Washington, McCarrick; segundo, que Francisco levantou as sanções impostas secretamente contra McCarrick por Bento XVI; e, por último, que tudo isto justifica a renúncia imediata do líder da Igreja Católica.

Sem provas

De acordo com Vigano, o antecessor de Francisco tinha banido McCarrick de celebrar missas, de viver em seminário e de viajar para participar em conferências devido às acusações de abusos sexuais contra seminaristas e padres. Não há qualquer registo destas sanções e, ao longo do papado de Bento XVI, McCarrick participou e celebrou várias missas, algumas das quais que contaram com a presença do então Papa.

Vigano acusa Francisco de não aplicar este castigo e, mais do que isso, de conceder a McCarrick o poder de nomeação de bispos americanos, contribuindo assim para a sua reabilitação no seio da Igreja. O cardeal norte-americano acabou por apresentar a renúncia, que foi aceite pelo Papa no mês passado.

“Ele [o Papa Francisco] sabe desde pelo menos dia 23 de Junho de 2013 que McCarrick era um predador em série”, acusa Vigano. “Neste momento extremamente dramático para a Igreja universal ele tem de assumir os seus erros e, para cumprir com o proclamado princípio de tolerância zero, o Papa Francisco deve ser o primeiro a dar o exemplo aos cardeais e bispos que encobriram os abusos de McCarrick e apresentar a renúncia juntamente com todos eles”.

“Santo Padre”, escreve Vigano, relatando o que terá dito ao Papa em 2013. “Não sei se conhece o cardeal McCarrick, mas se perguntar à Conferência Episcopal há um dossier desta grossura sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e padres, e o Papa Bento ordenou-lhe que se retirasse para uma vida de oração e penitência”.

Contestação

O cardeal Blase J. Cupich, arcebispo de Chicago, cujo nome surge também na carta de Vigano por ter sido nomeado precisamente por McCarrick, contraria as alegações do italiano em declarações ao New York Times: “Como é que se pode ter restrições secretas? O que é que isso significa?”, questiona, referindo as alegadas sanções impostas pelo Papa Bento XVI. “Porque é que não nos disse nada?”, pergunta ainda, afirmando que a obrigação de Vigano, na qualidade de núncio, era informar os bispos americanos sobre esta situação.

O timing da carta de Vigano fez também com que alguns desconfiassem das reais motivações deste. O papado de Francisco entrou na fase mais vulnerável. Enfrenta uma crise quase sem paralelo na Igreja Católica, aprofundada pelos sucessivos escândalos de pedofilia um pouco por todo o mundo. Parece não haver melhor altura para dar início à ofensiva contra o Papa por parte de quem procura a sua queda.

Tal como diz Daniel Verdú, correspondente do El País no Vaticano, se se confirmassem as acusações de Vigano, Francisco “enfrentaria uma situação delicadíssima num momento crucial para o seu papado e a sua credibilidade num tema crucial como o dos abusos ficaria muito ressentida”.

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Protesto por causa dos abusos sexuais na Igreja durante a visita do Papa Francisco à Irlanda WILL OLIVER/EPA

“Mas convém conhecer as circunstâncias e de onde vêm [as acusações] para decifrar os motivos e a precisão do momento escolhido: a viagem à Irlanda, zona de impacto dos abusos, e poucas horas antes da sua habitual conferência de imprensa a bordo do avião papal”, diz ainda Verdú.

Declaração de guerra

Vigano recebeu o título de arcebispo em 1992 pela mão do Papa João Paulo II, tendo-se depois juntado ao corpo diplomático do Vaticano, órgão com poder no seio da Igreja.

Ao longo do seu trajecto, nomeadamente enquanto secretário do governo da Cidade do Vaticano, para onde foi nomeado por Bento XVI, criou alguns inimigos quando tentou consumar a reforma pretendida pelo então Papa. Durante esse período foi o protagonista da primeira fuga de informação que originaria depois o caso que ficou conhecido como “Vatileaks”, através da divulgação de uma carta que escreveu a Bento denunciando casos de corrupção no Banco do Vaticano.

Já como núncio dos EUA, Vigano organizou, em 2016, um encontro que foi visto como uma provocação e uma tentativa de arruinar a viagem de Francisco a este país. O arcebispo pôs frente a frente o Papa e Kim Davis, uma funcionária judicial do Kentucky que foi notícia por se recusar a conceder licenças de matrimónio a casais de pessoas do mesmo sexo. Isto numa altura em que as posições de Francisco sobre este tema já se distanciavam da norma católica e da ala mais conservadora da Igreja. Depois deste episódio, Francisco afastou Vigano do cargo de núncio.

A fúria de Burke

Já em Roma, Vigano contactou de forma mais próxima com esta facção ultraconservadora que se opõe ferozmente a Francisco e que tem origem precisamente nos EUA e no cardeal Raymond Burke.

Esta ala liderada por Burke defende que a abordagem inclusiva de Francisco é uma ameaça ao futuro da doutrina católica e que roça, inclusivamente, a heresia.

O facto de Francisco ter estado a tentar alterar as posições da Igreja relativamente ao sexo, de ter aberto um pouco a porta aos homossexuais e aos divorciados e recasados e à sua relação com o catolicismo, são os pontos fundamentais que enfurecem esta ala mais conservadora.

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O muito conservador cardeal Burke tem sido o líder da facção do Vaticano que se opõe ao Papa Francisco Max Rossi/REUTERS

Na carta onde faz as suas denúncias, Vigano expõe algumas das suas posições, nomeadamente aos homossexuais no seio da Igreja, que são, para ele, os culpados pelo escândalo dos abusos sexuais a menores: “Estas redes homossexuais, que estão agora espalhadas em muitas dioceses, seminários, ordens religiosas, etc., agem sob a ocultação do segredo e encontram-se com o poder dos tentáculos do polvo, e estrangulam vítimas inocentes e vocações sacerdotais, e estrangulam toda a Igreja”.

A encabeçar este grupo de opositores de Francisco está Burke, o cardeal que foi afastado da Ordem de Malta pelo actual Sumo Pontífice e também da presidência do Supremo Tribunal Canónico, por causa da sua posição contra os homossexuais, e que é fonte de inspiração de figuras da direita conservadora norte-americana, tais como Pat Buchanan, Bill O’Reilly ou Steve Bannon.

Este tem sido o principal inimigo de Francisco, principalmente desde o seu despedimento da Ordem de Malta. Depois do afastamento de Burke, foram espalhados cartazes por toda a cidade de Roma a criticar o Papa: “Ah Francisco, apoderaste-te de congregações, afastaste padres, decapitaste a Ordem de Malta e os Franciscanos da Imaculada, ignoraste os cardeais… afinal onde está a tua misericórdia?”, lia-se.

Nunca se descobriu quem esteve por trás desta iniciativa. Mas estavam dadas as primeiras pistas sobre o que esperava Francisco daí para a frente.

Depois dos primeiros sinais de fumo do conflito, a carta de Vigano assemelha-se a uma declaração formal de guerra. 

“Não se enganem: este é um ataque coordenado contra o Papa Francisco. Está em andamento um golpe e se os bispos dos EUA, enquanto corpo, não defenderem o Santo Padre nas próximas 24 horas, estaremos a deslizar na direcção ao cisma muito antes do encontro de bispos em Novembro. Os inimigos de Francisco declararam guerra”, escreve o escritor especialista em assuntos religiosos Michael Sean Winters, num artigo publicado no site National Catholic Reporter.