Os mil trabalhos dos venezuelanos que fogem da fome e da miséria

Entre novas exigências de documentos e ataques xenófobos é difícil perceber o que vai acontecer. Mais de 2,3 milhões já saíram do país, e a tendência não é de parar.

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Migrantes venezuelanos na Igreja de Boa Vista, no estado brasileiro de Roraima NACHO DOCE/Reuters

Muitos venezuelanos enfrentam uma escolha impossível: viver num país onde não conseguem o suficiente para comer, quanto mais para comprar medicamentos, transformando doenças curáveis em mortais, ou fazer milhares de quilómetros, dias e semanas, alguns a pé, para passar para um país onde são vistos como um perigo e podem ser alvos de ataques xenófobos. A dimensão das saídas espelha a dimensão da crise, e alguns países vizinhos estão a endurecer as condições para receber quem foge da Venezuela.

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Muitos venezuelanos enfrentam uma escolha impossível: viver num país onde não conseguem o suficiente para comer, quanto mais para comprar medicamentos, transformando doenças curáveis em mortais, ou fazer milhares de quilómetros, dias e semanas, alguns a pé, para passar para um país onde são vistos como um perigo e podem ser alvos de ataques xenófobos. A dimensão das saídas espelha a dimensão da crise, e alguns países vizinhos estão a endurecer as condições para receber quem foge da Venezuela.

Tamara Taraciuk Broner, investigadora da Human Rights Watch na Venezuela, diz que é muito difícil prever o que vai acontecer. “O que é certo”, sublinha, numa entrevista telefónica com o PÚBLICO, “é que a não ser que haja uma mudança radical [na Venezuela], as pessoas vão continuar a sair.” Isto independentemente das autorizações e dos ataques que possam sofrer.

Até agora, nota, os países vizinhos têm permitido a entrada de venezuelanos com autorizações especiais (o "cartão andino migratório", diz o jornal espanhol El País) já que na Venezuela neste momento é muito difícil obter um passaporte: o processo burocrático para conseguir este documento pode demorar até dois anos, sublinha a investigadora.

A falta de documentação internacional quando saem do país deixa os venezuelanos vulneráveis: a tráfico humano e exploração sexual, por exemplo, e aumenta a dificuldade em fazer queixa às autoridades. Mesmo conseguindo sair da Venezuela, “é muito difícil para estas pessoas reconstruírem as suas vidas”, diz Tamara Broner. 

A investigadora da Human Rights Watch nota ainda que como muitos não estão registados é difícil ter noção dos números reais de pessoas em fuga, mas aponta o mais recente número das Nações Unidas – que 2,3 milhões de venezuelanos fugiram – como a base mínima. Cerca de metade estão na Colômbia (mais de um milhão nos últimos 15 meses), e seguem-se o Peru, Equador, Chile, Brasil, Argentina e também Panamá, enumera. Outro dado novo é a subida de venezuelanos a pedir asilo nos EUA, diz Tamara Broner. Com os processos a decorrer em tribunal, é difícil perceber qual será a tendência das decisões.

A ONU acrescentava que 1,3 destas 2,3 milhões de pessoas sofriam de subnutrição. Os EUA propuseram no final da semana passada enviar um navio-hospital para a Colômbia para aliviar a carga sobre o sistema de saúde colombiano dos doentes venezuelanos. Pouco depois, Caracas informou que um navio hospital chinês ia em direcção à Venezuela para "ajudar a contornar a sabotagem dos EUA".  

E as crianças?

O anúncio, no fim-de-semana, de que o Equador iria impor a apresentação do passaporte, assim como o Peru, deixou muitos venezuelanos recém-chegados à fronteira sem saber o que fazer.

A agência britânica Reuters conta que em Ipiales, um dos pontos da Colômbia onde se concentravam pessoas em fuga, alguns grupos de venezuelanos queriam fazer “o que é correcto” e aguardavam ordens das autoridades, mas outros resolveram passar a fronteira mesmo assim – temendo que a situação piorasse e já a sofrer com o frio a que não estão habituados; muitos a dormir no chão de cimento, a não conseguir driblar o frio nem com roupa a dobrar.

Mas hesitavam em continuar viagem temendo ficar em situação irregular. "Só queremos continuar", dizia Jorge Luis Torralba, que viajava com a família, incluindo duas crianças, e alguns amigos. A única coisa que o impedia de seguir era pensar no que aconteceria aos filhos se fosse preso por desobedecer.

No Twitter, o jornalista do Guardian Tom Phillips, que falou com dezenas de pessoas em Tulcán, pequena cidade do Equador, perto da fronteira com a Colômbia por onde têm passado, e ficado, muitos venezuelanos, diz que “é impossível pôr todas as histórias agonizantes de desespero e determinação num artigo”. Não são “escravos e pedintes” à procura "do mel" no estrangeiro, na descrição do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, sublinha o jornalista. “São pessoas a tentar manter-se vivas.”

Phillips escolheu partilhar uma história entre muitas outras: a de Daniel, carpinteiro de 27 anos, que andou mais de dois mil quilómetros, entre boleias e caminhadas, até à cidade equatoriana para poder ganhar dinheiro para a quimioterapia da filha de três anos, diagnosticada no ano anterior.

Enquanto ouvia a história de Daniel, Phillips relata uma manifestação na cidade de Tulcán, que atravessa uma crise económica. Os manifestantes pediam mais trabalhos e melhores condições, mas nem os organizadores escondiam que o motivo do protesto eram “estes senhores da Venezuela”.

No Brasil, o estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, pediu ao Supremo que impedisse a entrada de venezuelanos, com responsáveis a queixar-se de que os serviços do Estado não conseguem dar apoio suficiente a quem chega e que houve um aumento do crime. É já o segundo pedido feito ao tribunal, que recusou o anterior.

No fim-de-semana, uma cidade deste estado, Pacaraima, foi palco de violência. Um relato de um roubo de um dono de um restaurante, alegadamente por um grupo de venezuelanos, levou uma multidão a atacar os “campos de migrantes”, queimando tendas e até comida, e forçando cerca de 1200 venezuelanos a atravessar de novo a fronteira para o seu país. “Temos a nossa cidade de volta”, congratularam-se.

Episódios como este “mostram que não há solução fácil”, nota Tamara Broner. “É um enorme desafio.”