GASTRONOMIA - CRÍTICA

A cozinha de raiz algarvia brilha neste espaço moderno em Faro

No coração da cidade velha, o Faz Gostos acomoda o turismo sem se deixar contaminar e respeita o gosto e estilo português.
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A elegância e o sentido de gosto são as marcas de identidade do Faz Gostos, restaurante que se instalou na cidade velha da capital algarvia há quase uma década. A aventura, ao que parece, terá começado uns anos antes em Olhão, com um posterior salto até Castro Marim antes da mudança definitiva para Faro.

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Na origem, ao que nos contaram, um projecto de alma e vocação epicurista que com o tempo e a mudança de gerência acabou por crescer e evoluir para um conceito mais atento ao sentido do negócio, mas sem deixar de manter a vocação do gosto e gastronomia.

Ocupando inicialmente uma ala — e a cave, onde está a adega — de antigos armazéns, o espaço foi criteriosamente adaptado à função, num conceito elegante e cuidado. Atrai também a localização, na Cidade Velha, junto ao Museu Municipal e à Sé Catedral, que parecem ganhar vida e animação com bares e restaurantes de conceitos e culturas diversos. Há um ambiente cuidado, descontraído, que absorve o turismo aparentemente sem se deixar contaminar. Originariamente com entrada pela Rua do Castelo, o Faz Gostos alargou-se depois ao Largo do Castelo, ganhando espaço de bar e uma prazerosa esplanada.

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Na complementar diversidade de espaços actuais é possível sentar 170 pessoas, de forma sossegada, discreta e sem contaminações. Tudo está decorado de forma moderna e elegante, mobiliário cuidado e mesas compostas com a mesma elegância e distinção.

A lista conjuga propostas de inspiração e técnicas modernas com outras do mais puro receituário algarvio, por entre acenos a uma cozinha mais internacional. A garrafeira tem oferta alargada, com opções criteriosas e abrangentes e preços um tanto a olhar para o turista abastado. 

Com a escolha dos pratos procedeu-se também à selecção dos vinhos que, no entanto, começaram logo a ser servidos. E pareceu não ser mero descuido, mas antes propósito do serviço. Só depois o pão, branco e com sementes, também dois patés (atum e salmão) e azeite aromatizado com orégãos, tudo (8€) de boa qualidade, confecção e apresentação.

Das propostas para entradas, o “carpaccio de vieiras frescas com salmão fumado” (12€) foi servido no rolinho elegante, num conjunto fresco e saboroso com rabanete, tomatinho cherry, alface e um agradável perfume de pimenta rosa.

Em grande estilo o “xarém com amêijoas” (8€), em quantidade generosa mas a saber a pouco face à qualidade culinária e intensidade de sabor. Xarém aveludado e quase gelatinoso, com a gordura de torresmos a densificar o sabor em contraste com a leveza dos bivalves. Muito bom mesmo!

No mais, as propostas entradeiras incluíam “amêijoas da nossa ria Formosa à Bulhão Pato”, “folhado de queijo de cabra, nozes e mel”, “salada de espargos grelhados com salmão fumado” e “tomatada com ovos e torresminhos de porco”, com preços a variar entre 8 e 12 euros.

Com tendência internacionalista, a lista apresenta depois três pratos “vegetarianos”, com risotto, raviolis e beringela gratinada com mozarella (12/15€), seguindo-se outros três “pratos com marisco” — fricassé de camarões com arroz de pinhões; risotto de camarão com espargos verdes; e camarões com molho de manga (18/22€) — e seis “pratos de peixe”.

Pediu-se o “robalo na caçarola com amêijoas da ria Formosa e camarão” (28€), um refogado de quantidade generosa e apaladado com pimentos e tomates a que depois se junta o camarão descascado e as amêijoas, que abrem na hora.

Generosa é também a dose de “lombo de bacalhau no forno com vieira” (21€), com dois lombos do gadídeo, puré, legumes ao vapor e um molho com pimentos e tomates a apaladar o conjunto que não entusiasmou pela pouca (ou nenhuma) cura do bacalhau.

A oferta de pratos de peixe abrange ainda “filetes de peixe-galo panados com arroz de tomate e coentros”, “robalo ao vapor com aroma de azeite virgem”, “linguini de tinta de choco com salmão e molho açafrão” e “bacalhau no forno com crosta de broa de milho”, com preços entre 16 e 25€.

Para as carnes, as propostas incluem um “bife da vazia (Black Angus) com molho de cogumelos selvagens”, “bife da vazia à Faz Gostos”, “tornedó com molho Roquefort”, “magret de pato em massa folhada com molho de figos” e “lombinhos de porco recheados com alheira de caça”, variando os preços entre 15 e 25€. Há ainda “empada de perdiz” (20€), com um saboroso refogado que envolve as carnes com sabores rústicos e tradicionais de cogumelos e entremeada de porco. Acompanha de forma elegante com compotas de pimentos (amarelos e vermelho) e uma salada de frutos tropicais (manga, ananás e kiwi), que, sendo um complemento de frescura, acaba por limpar do palato os sabores rústicos e tradicionais que são a essência do prato.

Nas sobremesas, destaca-se o crepe Suzete, o morgado algarvio ou a trouxa de ovos (8€), tudo em companhia de gelados com sabores variados.

Intitulando-se como “referência gastronómica na capital algarvia” e onde “o cliente encontra um ambiente requintado, acolhedor e sugestões gastronómicas de qualidade”, o Faz Gostos é um espaço distinto que acrescenta valor à oferta algarvia, sobretudo porque é capaz de oferecer bons apontamentos da cozinha tradicional e de peixes da região, com o cuidado, a técnica e a apresentação da modernidade.

Se servir de incentivo, gostaríamos até que essa vertente estivesse mais presente e fosse mais assumida pela cozinha, convencidos que estamos que mesmo os “internacionalistas” haveriam de apreciar.

É também pelo ambiente e contexto de zona histórica, tipicamente algarvio e português e sem contaminações ao gosto do turista, que o Faz Gostos é igualmente recomendável.