Reportagem

Prejuízos devem ultrapassar os dez milhões de euros, diz autarca

Estimativa é avançada pelo presidente da Câmara de Monchique tendo em conta que estão mais de meia centena de casas afectadas. Arderam desde sexta-feira quase 27 mil hectares de floresta.
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Miguel Manso

Apareceu não se sabe donde, percorreu um perímetro de 100 quilómetros e, ao sétimo dia, estabilizou. “Não temos frentes activas.” Porém, a avaliação feita nesta quinta-feira ao princípio da noite pela segunda comandante da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC), Patrícia Gaspar, ainda era de preocupação. “O incêndio não está ainda dado como dominado”, dado o perigo das reactivações.

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“Já se vê, finalmente, fumo branco”, desabafava, de alívio, António Birlo, de 67 anos, no sítio da Novinha, Silves, lembrando que, pelo menos, já se dissipara o tecto de partículas negras que tornava o ar quase irrespirável. Segue-se agora a fase do regresso a casa das 299 pessoas que foram retiradas das suas habitações. O Ministério da Agricultura e Pescas, através da Direcção Regional do Algarve, começa hoje a fazer o levantamento dos prejuízos agrícolas e na produção florestal.

O medronheiro é fácil de regenerar, o que não acontece com o sobreiro. “Só ao fim de três anos é que se pode tirar a cortiça que ardeu, porque a árvore fica muito débil.” A explicação é dada por João Poucochinho, empresário local ligado à exploração da floresta e equipamentos: “Perdi uma máquina de corte [madeira], que, em nova, custa próximo de 400 mil euros.” O industrial foi um dos que foi requisitado pelo Gabinete de Protecção Civil Municipal para disponibilizar uma máquina de rasto. “Muitas das vezes critica-se, sem razão, o facto de as máquinas estarem paradas.” Mas quando isso sucede, explica, é porque não há condições de segurança

Mais de dez milhões de prejuízos é a primeira estimativa dos danos globais, feita pelo presidente da câmara de Monchique, Rui André, tendo em conta que estão mais de meia centena de casas afectadas. De acordo com o Sistema Europeu de Incêndios Florestais consumiram-se cerca de 27 mil hectares. No incêndio de 2016, quando arderam 1818 hectares, o município fez uma candidatura no valor de 600 mil euros, para minimizar os estragos no sector público e privado.

Nesta quinta-feira à tarde, na herdade da Parra, a norte de Silves, deu-se uma reactivação. “Não era expectável”, disse Patrícia Gaspar, mas a situação “está globalmente estabilizada”, enfatizou. Durante a noite, os militares estiveram envolvidos em acções de vigilância, enquanto os bombeiros se empenharam em eliminar os “pontos quentes”. Mas enquanto o reformado António Birlo se dava por satisfeito com o fim à vista do “inferno” das chamas, o vizinho Fernando Guerreiro aconselhava-o: “Não tenhas assim tantas certezas, noutras ocasiões já vi isto virar tudo.” É que em Monchique a situação estabilizara, no concelho de Silves ainda não tinha chegado o momento da desmobilização dos meios. A contabilidade, desde o início do fogo, na sexta-feira, era nesta quinta-feira de 39 feridos.

“A vida está de regresso à normalidade”, acredita ainda assim Rui André. As redes de comunicação e de abastecimento de água foram reactivadas. Para garantir a limpeza na vila, pediu emprestado à câmara de Faro e outros municípios uma centena de contentores do lixo, para substituir os que arderam.

Algemados para sair de casa

Paulo Duarte, sócio da empresa familiar “Arlindo Duarte & Filhos”, perdeu uma máquina retroescavadoura, com 7 mil horas de trabalho. “Só temos seguro de laboração”, disse. A máquina encontrava-se em Portela do Vento, a fazer umas limpezas em redor de uma habitação. “Deram-nos ordem para retirar, porque estava em perigo.” Cumpriu as indicações, deslocando o equipamento para um sítio aparentemente seguro, na Malhada Quente, junto a uma padaria. O que veio a acontecer: “Ardeu a máquina e a padaria.” A substituição por uma máquina nova, adianta, representa um investimento de cerca 200 mil euros. “Não faço ideia como, nem de que maneira, posso vir a ser auxiliado — somos uma pequena empresa familiar, com cinco pessoas a trabalhar.” A facturação média anual ronda os 300 mil euros.

Quem dá por bem empregue o dinheiro gasto com as medidas preventivas é Francisco Duarte, morador no sítio Pinheiro e Garrado (Silves). O agricultor mandou limpar uma propriedade com 10 hectares de medronheiros. O incêndio lambeu a terra do vizinho, passou e deixou intacto e medronhal. “Se a limpeza fosse geral, o incêndio não tinha chegado tão longe”, acredita.

Por seu lado, o presidente da Associação de Produtores de Medronho do Barlavento Algarvio, Paulo Rosa, estimava que dois terços do pomar de medronheiros tenham sido queimados. Ao contrário do que se passou em muitos outros locais, onde a GNR chegou a algemar pessoas para as retirar à força das suas casas, neste caso, a atitude foi diferente: “Pediram-me para sair, mas depois de explicar que estava munido de equipamento — pontos de água e bombas — compreenderam, e deixaram-me ficar.”

Já em Vale Fuzeiros (Silves), uma das últimas localidades atingidas pelas chamas, Deolinda Sequeira recebeu ordem de marcha da GNR: “Toca a fugir, e depressa.” Os habitantes, a maioria idosos, pernoitaram no pavilhão da escola EB 2, 3 de São Bartolomeu de Messines. “Éramos sete num carro de cinco lugares. Foi a Guarda que mandou.”

O incêndio teve início na sexta-feira à tarde, no sítio da Perna da Negra, em circunstâncias por apurar. “O terreno estava limpo, e os cabos eléctricos que agora arderam tinham sido substituídos em 2003 [ano do último maior incêndio]", observa Nelson Rodrigues, director da EDP/Algarve. Este dirigente está no terreno com uma equipa de mais de uma centena de técnicos para reparar as linhas queimadas. “A  média tensão já está estabilizada”, adiantou. No entanto, os trabalhos ainda prosseguem: “Temos árvores que arderam mas ficaram de pé, e algumas estão a tombar para cima das linhas."