Incêndios florestais

Ano passado iniciou nova geração de megaincêndios com mais de 30 mil hectares

Três grandes fogos que em 2003 atingiram a área que está a arder faz esta sexta-feira uma semana em Monchique. No total fizeram mais de 64 mil hectares contabilizou investigador
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Rui Gaudêncio

O ano passado iniciou-se uma nova geração de megaincêndios, com fogos a ultrapassarem os 30 mil hectares, considera o investigador Luciano Lourenço, director do Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. Mas não só essa fasquia terá sido ultrapassada, como no mesmo ano, só um incêndio, o que começou em Vilarinho, na Lousã, terão sido consumido mais de 53 mil hectares, segundo os dados mais recentes do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) a que o PÚBLICO teve acesso.

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Luciano Lourenço divide os grandes incêndios em quatro gerações, a última que começou o ano passado e é a primeira vez que um ciclo de grandes incêndios cresce mais de 20 mil hectares de uma só vez. O investigador da Universidade de Coimbra afirma que até 1985 não há registos de megaincêndios em Portugal, ou seja, de fogos com mais de dez mil hectares.

O primeiro, diz, aconteceu em 1986, em Vila de Rei, e terá ultrapassado aquele valor por pouco. Até 2002 não houve fogos em Portugal a ultrapassar os 20 mil hectares. Isso aconteceu com 2003 que terá inaugurado um novo ciclo de megaincêndios. Desta vez, a terceira geração de incêndios, que incluiu ocorrências que queimaram entre 20 a 30 mil hectares, manteve-se durante 13 anos, até 2006. “Os grandes incêndios têm aumentado de área e de frequência”, diz Luciano Lourenço. O professor universitário atribui essa tendência a vários factores, nomeadamente ao abandono rural e a uma estratégia de combate mais concentrada na defesa das pessoas e das habitações.

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José Miguel Cardoso Pereira do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia também constata a mesma tendência. Mas à desertificação do interior, que faz com que os espaços florestais não sejam geridos e as manchas de vegetação contínua aumentem, soma outro factor: “O agravamento das condições climáticas faz com que haja condições mais extremas com cada vez mais frequência." E realça: “Em 15 e 16 de Outubro do ano passado houve mais megaincêndios do que durante algumas décadas passadas."

Da lista de 26 megaincêndios que os números mais recentes do ICNF contabilizam 12 ocorreram o ano passado, tendo o maior 53.618 hectares e o mais pequeno 11.328 hectares. Sobre o fogo deste ano de Monchique ainda não há números oficiais, mas não há grandes dúvidas de que entrará para o top 10 do ICNF. Isto porque até esta quinta-feira ao início da tarde tinham sido destruídos quase 27 mil hectares, segundo o Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais, que faz uma estimativa automática com base na análise de imagens de satélite.

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O número do ICNF será claramente diferente. Mas não é a única discrepância. Por vezes há grandes diferenças com a contabilidade realizada pela equipa de investigadores que José Miguel Cardoso Pereira dirige e que já cartografou mais de 50 mil fogos desde meados dos anos 90.

Um desses casos são os três grandes fogos que em 2003 atingiram a área que está a arder faz esta sexta-feira uma semana em Monchique. “Em 2003, houve dois fogos em Agosto que se propagaram de forma vertical de Sul para Norte. E um outro, em Setembro, que se propagou de leste para oeste e fez a ponte entre os outros dois”, recorda Cardoso Pereira. Luciano Lourenço faz uma descrição similar.

Os dados provisórios que a então Direcção-Geral das Florestas apresentou apontavam para mais de 68 mil hectares ardidos, grande parte dos quais na Serra de Monchique. Mas as rectificações entretanto feitas fizeram cair o número para 43 mil hectares. “A nossa contabilidade, feita através de imagens de satélite muito detalhadas, é bastante rigorosa e não incluiu as ilhas verdes que, por vezes, aparecem no perímetro do incêndio. A nossa cartografia contabiliza 64.231 hectares, tudo que for muito diferente disso está errado”, garante Cardoso Pereira. A explicação pode estar no método diferente de fazer o levantamento, no terreno, com recurso a GPS, uma avaliação que pode esbarrar com um terreno acidentado.

O autor do livro sobre a problemática dos fogos Portugal: Vermelho e Negro, Pedro Almeida Vieira, não percebe as discrepâncias. Nota, contudo, que o Algarve tem anos em que praticamente não arde e outros com uma capacidade destrutiva enorme, que coincidem normalmente com condições meteorológicas severas. “Os anos em que não arde é porque não há combustível porque já ardeu antes”, acredita Almeida Vieira.