Música

Morreu o trompetista polaco Tomasz Stanko

Era um dos últimos grandes heróis do jazz europeu, e tocou diversas vezes em palcos portugueses.
Foto
Tomasz Stanko num concerto em Varsóvia, em 2014 Reuters

Tomasz Stanko, um trompetista polaco virtuoso e normalmente creditado como um dos grandes nomes do jazz europeu, morreu este domingo em Varsóvia, aos 76 anos, noticiou a rádio pública do país, citando uma fonte familiar.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Stanko, mestre na arte da balada – que foi beber em nomes da grande escola do jazz norte-americano, como Miles Davis ou Chet Baker –, era considerado o precursor do free jazz na Europa. Mas, ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas e mais de quatro dezenas de discos, Stanko afirmou uma marca muito própria, que soube beber também na tradição da música do seu país, nomeadamente no pianista e compositor Krzysztof Komeda (1931-1969), com quem tocou ainda na década de 60 (disco Astigmatic, 1965), e a quem viria depois a homenagear com um álbum normalmente visto como um dos pontos altos da sua carreira, Litania (ECM, 1997).

"A mim, tudo me inspira", disse um dia Stanko numa entrevista à AFP agora recordada pelo Jornal do Brasil. "O mundo oferece-nos quantidades incríveis de obras geniais. Em todos os cantos do mundo, sempre houve artistas geniais, e na nossa era da comunicação e informação podemos finalmente conhecê-los", acrescentou.

Nascido no dia 11 de Julho de 1942 na cidade de Rzeszów, no sudeste da Polónia, Tomasz Stanko cresceu como músico de jazz a ouvir a música que passava no programa da rádio Voz da América, dos raros que ultrapassavam a Cortina de Ferro que então separava a Europa de Leste do Ocidente.

"Na época, eu estava imerso no existencialismo, na nova onda do cinema francês e no neo-realismo italiano: pintura, livros de Faulkner e Joyce, boémia parisiense... Tudo me inspirava”, recordou Stanko na citada entrevista, em que falou também da importância de ouvir o jazz moderno norte-americano, de Davis e Baker, mas também de John Coltrane, Ornette Coleman e Don Cherry.

Ultrapassando as fronteiras do seu país, Stanko associou-se a músicos ocidentais, nomeadamente ao baterista Jack DeJohnette e ao contrabaixista Dave Holland, com quem chegaria à ECM. Foi para esta etiqueta alemã fundada por Manfred Eischer que, em 1997, gravou – numa formação de septeto que incluía outros nomes maiores do jazz mundial, como o pianista Bobo Stenson, o baixista Palle Danielsson ou o baterista Jon Christensen – Litania, em que toca versões de temas de Komeda – o compositor que fez as bandas sonoras dos primeiros filmes de Roman Polansky, de A Faca na Água (1962) até A Semente do Diabo (1968).

Mas, ao longo da sua carreira, Tomasz Stanko liderou também formações de quinteto e de quarteto, com as quais gravou dezenas de discos – entre eles está o também muito elogiado Wislava (2013), um álbum duplo dedicado à poetisa sua compatriota e Prémio Nobel da Literatura (1996) Wislawa Szymborska (1923-2012).

Wislava foi gravado com o quarteto nova-iorquino de Stanko, formado por David Virelles (piano), Thomas Morgan (contrabaixo) e Gerald Cleaver (piano), “uma formação extraordinária que parece feita à medida da música de Stanko, proporcionando-lhe o rigor e a devoção lírica de que tanto necessita, mas também o fogo imprevisível de que só os improvisadores de excepção são capazes e a interacção telepática das grandes secções rítmicas”, escrevia o PÚBLICO na recensão então dedicada ao disco.

Tomas Stanko pisou, de resto, mais do que uma vez palcos portugueses, com diferentes formações, nomeadamente no Centro Cultural de Belém (1997), no Festival de Jazz do Porto, em 2002, e no AngraJazz, nos Açores, em 2012, quando foi apresentado, pelo crítico do PÚBLICO Rodrigo Amado, como “um dos últimos grandes heróis do jazz europeu”, e “um dos mais vibrantes jazzmen da sua geração”.

"Estou em estado de choque... [Stanko] foi um profeta absoluto, um músico grande e consistente", disse agora Michal Urbaniak, violinista e saxofonista de jazz polaco, comentando para a Reuters a morte do trompetista com quem tocara várias vezes, nomeadamente no disco Komeda.