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Willis Earl Beal continua o mesmo espírito rasgado, tão à beira da lucidez como da loucura: felizmente, não se amaciou

Os novos discos de Willis Earl Beal, d3ö, Arctic Monkeys, Julianna Barwick e Tomasz Stanko.

Pop

Ele é que sabe

Ao segundo álbum, Willis Earl Beal volta a cantar o que é ser um sobrevivente. Todos os dias. Vítor Belanciano

Willis Earl Beal

Nobody Knows

XL Recordings

mmmmn

A estreia foi no ano passado com Acousmatic Sorcery, magnífico álbum que, suspeita-se, poucos terão ouvido. E não foi por falta de exposição. A história de Willis Earl Beal foi contada pelos mais diversos órgãos de comunicação. Não espanta. Era muito apetecível. Era a história de um cantor de voz assombrosa que sempre vivera na rua ou entre empregos que a sociedade tende a desrespeitar. De repente foi descoberto, deixou as ruas de má fama e viu-se em cima dos palcos. Uma história cintilante.

Mas o seu álbum de estreia não o era, assente numa música artesanal, descarnada, crua e suja, e na sua voz áspera, exposta de forma quase sempre dilacerada. Fizeram-se analogias com Tom Waits ou Bob Dylan, porque se insere na mesma tradição, mas Willis Earl Beal é apesar de tudo outra coisa. E muitos quando puseram os ouvidos no seu álbum de estreia perceberam-no.

Ao segundo álbum poderia ter tido a tentação de amaciar a sua música, mas nada disso. Nobody Knows é talvez mais inteligível do que o seu antecessor e ligeiramente menos torturado, mas volta a ser feito a partir de blues, soul, carne, músculo e inquietação. As letras são lamentos carregados de agonia e perda, embora também haja espaço para canções mais luminosas - como Coming through, que conta com a participação de Cat Power.

Ao que parece, as letras ainda pertencem à fase em que vagueava pelas ruas, mas lendo entrevistas recentes percebe-se que ter assinado por uma editora como a XL Recordings (Adele, Radiohead, Vampire Weekend) e ser comparado a Nick Cave ou Scott Walker não o modificaram. Continua o mesmo espírito rasgado, por vezes à beira da extrema lucidez, outras vezes perdido, um pouco louco, ruminando consigo próprio, expondo-se em baladas introspectivas que não existem para confortar, mas sim para exaltar os que optaram por uma existência desassossegada.

Reencontro feliz

d3ö

Love Binder

Lux Records; distri. LeveMusic

mmmmn

O início é uma novidade: uma voz embriagada a clamar em castelhano por garrafas e a prometer o espectáculo único de algo nunca antes visto. Depois cai um trompete mariachi sobre o andamento mexicali do instrumental e, não, nunca ouvíramos os d3ö assim. Ai caramba é a apresentação. Porque depois chega Hard to explain e este é o rock"n"roll dos d3ö como se os d3ö não tivessem estado ausentes do olhar no último par anos. Essa é, de resto, a grande virtude da banda. Sobrevoa o tempo indiferente às frenéticas mudanças do cenário musical. Neles, isso é uma virtude. Uma grandíssima virtude. Os d3ö já definiram para si uma linguagem: as duas guitarras em diálogo, uma delas libertando-se para dar chicotadas eléctricas nas canções, uma batida tão precisa quanto desejosa de dança e uma voz que sabe perfeitamente como navegar as águas revoltas e como liderar a natureza insinuante do rock"n"roll.

Os d3ö de Love Binder surgem com uma nova claridade sonora, conferida pelo processo de gravação inédito (por pistas, uma de cada vez, como é norma, em vez da norma deles do "ao vivo no estúdio"), mas isso não diminuiu a sensação de que estas canções estão a acontecer perante nós no preciso momento da interpretação - para o perceber basta ouvir, por exemplo, o momento em que se ergue o solo hendrixiano, sibilante, de Poison heart, óptima canção a chafurdar alegremente em blues-rock lamacento.

Love Binder são dez canções: uma Too late que há-de desembocar em interlúdio de órgão para banda sonora sci-fi (óptima viagem), um riff, o de Hard to explain, que deixaria orgulhoso Dave Davies ou Mick Collins, essa Take all of it que oferece uma dimensão paralela à revisão blues dos Led Zeppelin (perdem o lado bombástico e trocam a naturalidade inglesa por uma qualquer cidade perdida dos Estados Unidos onde o tédio se combate com r&b bem além do limite da distorção). Love Binder são os d3ö. De sempre, como sempre (e isso, asseguramos, é muito bom). Love Binder são os d3ö de sempre, mas não propriamente. E isso, confirma-se, torna ainda mais feliz este reencontro. Mário Lopes

Na América

Arctic Monkeys

AM

Domino distri. Edel

mmmnn

Quando os ingleses Arctic Monkeys surgiram a meio dos anos 2000, muitos melómanos acharam que era coisa com vida breve, de putos para putos. Como a esmagadora maioria das bandas rock desses anos (dos Franz Ferdinand aos White Stripes), também eles expunham influências à flor da pele, mas ao contrário desses e de outros exemplos, as ascendências (Jam, Undertones, The Smiths) pareciam ser tudo menos conscientes.

Passados oito anos aí estão eles com cinco álbuns. Somos da opinião que os dois primeiros são do melhor que o rock ouviu nos anos 2000 - som contundente mas de envolvimento físico, secção rítmica dinâmica, solos de guitarra vigorosos mas enxutos, voz jovial de acento regional e letras que nos devolviam o quotidiano juvenil com precisão documental. Era rock possuído por uma energia revitalizante.

Depois vieram mais dois álbuns, indiciadores de mudança de agulha, em especial o último Humbug, com a sombra dos Queens Of The Stone Age (foi produzido por Josh Homme) a pairar sobre quase todos os sons de guitarra e não só. No novo AM libertam-se desse feitiço, mas apenas parcialmente, naquele que acaba por ser o álbum mais diverso do grupo, apontando para diversas latitudes mas parecendo ter o mercado americano na mira.

Há canções de guitarras estridentes e som robusto como no álbum anterior (Do I wanna know?, R u mine?), mas também evocações do rock mais sumptuoso - dos T Rex dos anos 1970 aos Pulp dos anos 1990 - em Arabella ou No1 party anthem, e até memórias dos Velvet Underground (Mad sounds). A voz e a atitude de Alex Turner estão mais teatralizadas, sobretudo nas baladas, e até existem alusões ao R&B (Knee socks), com a sonoridade geral a revelar-se mais solta e menos milimétrica.

Dir-se-ia um álbum de transição, onde os outrora ingleses pouco viajados, agora a residir em Los Angeles, se inspiraram em diversas matérias com competência. Mas aquele rock nervoso, de melodias directas e ritmo balanceado preciso, que seduzia em primeira instância, ressente-se dessa variedade. V.B.

Dez vezes bonito

Julianna Barwick

Nepenthe

Secretly Canadian; distri. Popstock

mmmnn

De cada vez que alguém faz música que vive do silêncio e onde coros planantes emergem, duas ou três coisas acontecem: ou a música é acusada de ser new age, ou alguém gasta linhas e linhas de texto a falar do carácter contemplativo daquelas notas. Nas notas que tirámos enquanto ouvíamos Nepenthe, porém, nada disto se passou, antes abusámos do adjectivo "bonito". Mais propriamente, escrevemos dez vezes a palavra "bonito", tantas quantas as faixas do disco. Para que não nos acusem de repetição, convém realçar que por vezes escrevemos "muito bonito" e outras apenas "bonitinho". Quase tudo em Nepenthe vive da voz, que dispensa palavras. São ahs e ohs em ascensões delicadas (vide The harbinger), acompanhados por efeitos e por um mínimo de instrumentação (o que parece ser um piano, algumas cordas), que vão acumulando detalhes e aumentando de intensidade. E tudo isto é, invariavelmente, bonito, sendo que às vezes é muito bonito e outras apenas bonitinho. (O que não invalida que por uma vez, em Crystal lake, tenhamos usado o adjectivo "lindíssimo".) Estamos a esforçar-nos por evitar mencionar o lado "contemplativo" desta música, a fugir o mais que podemos a usar a expressão "minimalismo repetitivo", pelo que optamos por dizer que há algo de formulaico nestas dez peças, uma espécie de ausência propositada de soluções capaz de impor uma beleza quase angelical (Forever) ou de conduzir gente com problemas de sono ao descanso mais merecido. No campeonato da música em que nada acontece, Virginia Astley ainda leva a dianteira. João Bonifácio

Jazz

Entre Varsóvia e Nova Iorque

Aos 71 anos, Tomasz Stanko grava um dos álbuns mais poderosos da sua carreira, sob o signo de Wislawa Szymborska. Rodrigo Amado

Tomasz Stanko New York Quartet

Wislava

ECM; distri. Distrijazz

mmmmn

Cada novo registo de Tomasz Stanko merece, por si só, particular atenção, criando de imediato a expectativa de uma música elegante e solene, atmosférica, feita de traços familiares mas também de rasgos de brilhante criatividade e do tipo de magia que transforma a música e nos transforma. O grande mestre polaco habituou-nos a isso, numa discografia marcada por momentos de excepção como Music for K, o álbum de estreia, Astigmatic, a celebrada colaboração com Krzysztof Komeda, ou Matka Joanna, o álbum de regresso à ECM em 1995, depois de um hiato de mais de dez anos. Desde essa altura, e a entrar no novo milénio com uma força anímica notável, Stanko demonstrou uma capacidade rara de renovação e actualização da sua música, tocando e gravando com formações consistentemente fortíssimas. Mas nada nos tinha preparado para a demonstração de força e de criatividade que surge em Wislawa, álbum duplo dedicado à poetisa Wislawa Szymborska e gravado com o seu novo quarteto nova-iorquino - David Virelles no piano, Thomas Morgan no contrabaixo, e Gerald Cleaver na bateria. Uma formação extraordinária que parece feita à medida da música de Stanko, proporcionando-lhe o rigor e devoção lírica de que tanto necessita, mas também o fogo imprevisível de que só os improvisadores de excepção são capazes e a interacção telepática das grandes secções rítmicas.

São precisamente esse fogo e essa interacção que fazem a diferença em Wislawa, demarcando este novo álbum da relativa previsibilidade de anteriores registos. Ao longo de cerca de 100 minutos, em temas notáveis como Assassins (vertigem rítmica num groove avassalador), Faces (mais livre, tonal e ritmicamente), ou as duas versões do tema-título, Wislawa, que abrem e fecham o disco numa suspensão poética de absoluta elegância, os músicos revelam uma unidade magnética que envolve toda a música. David Virelles, expatriado cubano e habitual colaborador de Steve Coleman (gravou recentemente em nome próprio o excelente Continuum, e participa no álbum Sirens, de Chris Potter), é a grande surpresa aqui, tocando com uma autoridade e liberdade de gestos pouco usual num instrumentista tão jovem. Na secção rítmica, próxima da perfeição, a dinâmica impressionista e orquestral de Cleaver constitui o contraponto perfeito às linhas profundas e bem marcadas de Morgan. Aos 71 anos, dividindo o seu tempo entre Varsóvia e Nova Iorque, Tomasz Stanko grava um dos álbuns mais poderosos da sua carreira.