Música

Como anda o Mimo a mostrar a música construída e a desconstruí-la também

Festival vai continuar em Amarante por, pelo menos, mais três anos. Para o ano acontece de 26 a 28 de Julho.
Fotogaleria

Seria intimista. Mais sério do que uma roda de choro. Algo “presunçoso”, na sua opinião. “Mas mesmo assim com o signo do samba apontando o norte.” Moacyr Luz liderou o concerto até onde quis para depois o deixar nas mãos do público que lhe pedia para aproximar o Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, a algo parecido com a sua roda de Samba do Trabalhador, no Rio de Janeiro. O concerto no último dia do festival Mimo terminou levantado, com samba nos pés descalços, na roda que uma das figuras maiores da música popular brasileira não esperava que chegasse.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Moacyr andou a brincar com a música, como sabe e pode quem compôs perto de 280 temas, muitos deles empregues nas vozes de outros. Com Carlinhos Setes Cordas no violão que lhe dá nome e Sergio Krakowhi no pandeiro, o trio foi encaixando, tema a tema, a história da MPB: desde Zuela de Oxum, à apoteótica Saudades de Guanabara (cantada duas vezes como manda a saudade de muitos brasileiros presentes) e Vida da minha Vida que Zeca Pagodinho canta. Chico Buarque (Quem te viu, quem te vê) e Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Chega de saudade) tiveram honras de medley.

E Moacyr repetiu a jogada: entre o refrão de Que batuque é esse? surge Brasil Pandeiro, o tema popularizado pelos Novos Baianos. Depois, um manifesto que a plateia repete até à voz de Luz lhe tremer: “Estranhou o quê?/Preto pode ter o mesmo que você.” Aos 60 anos de vida, 40 de samba, o cantor e compositor diz que “tem vida para se maravilhar” com coisas como esta. E continua a agradecer à música por o levar a tantos lugares. “Eu nunca sei se sem a música eu teria conhecido Amarante. E sem vir cá ficaria mais pobre”.

Chama a cantora Branka para o tema Bença, Nã-Buruquê e ao fim de quase 20 músicas uma das grandes figuras do samba – que recusa ser só do samba – despede-se de mão no peito. Arrisca-se pensar que o lema que tem na música se aplica também aqui: “Tenho uma sensação de dever cumprimento, mas com vontade de seguir. A curiosidade permanece. Quero nunca poder achar que fiz tudo.”

Otto e Almério

E se parte da música foi construída por Moacyr Luz, os pernambucanos Otto e Almério, nomes fortes da nova música brasileira, andam por aí a desconstruí-la.

A insurreição de Otto, sem censura que lhe dobre a língua, anda a responder ao que vê de mal no mundo. É assim há 20 anos desde rumou a solo depois de Nação Zumbi (que passaram pelo Mimo no ano passado) e Mundo Livre, mas ganhou novo folgo no álbum Ottonomatopeia – em resposta ao impeachment de Dilma Rosseff. E de um disco político só se pode fazer um concerto político: no sábado à noite, segundo dia de festival, grita pela libertação de Lula, entre temas como Bala, Atrás de você e Carinhosa, navegando também em retrospectiva pelos cinco álbuns anteriores. Entre eles o primeiro e icónico Samba para Burro de onde toca Bob e a efusiva Ciranda de Maluco.

Já antes Almério avisara que não viera de “tão longe para a gente ficar de preguiça”. O pernambucano de 37 anos, de gestos teatrais, entrega-se ao início da noite à bem oleada maquinaria crítica do álbum Desempena. Atira contra a hipocrisia social e política, o fanatismo religioso. Atira contra a homo e transfobia numa comovente versão de Androginismo – “Quem é esse rapaz que tanto androginiza?/Que tanto me convida pra carnavalizar?” É uma constante interpelação de consciência.

“Esse fanatismo é muito perigoso, traz guerra, traz caos.” Acompanhado à guitarra, contrabaixo, flauta transversal e o público a fazer as vezes da precursão, percorre temas como Queria ter pra te dar, Lá vem ele e Tattoo de Melancia. Traz o Fado Tropical de Chico Buarque de volta a casa e Perto demais de Deus de Chico César. E volta a baixar a invisível muralha que o defende, expondo-se à vulnerabilidade, em Do Avesso – “Nesses dias em que é necessário colocar toda a mobília da casa pra fora/Pra fazer a faxina detalhada e limpar bem os quatro cantos da alma”. É o final da sua tour europeia, que passou pelos coliseus e Coimbra. “Agora a gente se vê pelo Mundo.”

Pelos três dias de Mimo (o PÚBLICO esteve lá dois), passaram por Amarante os Dead Combo, Dona Onete e Baiana System, Rui Veloso, Bruno Pernadas, Gogo e o projecto Hudson de Jack Dejohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley.

Festivaleiros

Para a organização do Mimo a missão é muito clara há 15 anos: promover a economia e cultura local de cidades históricas. A esse pretexto estão expostas as obras d’“Os Modernistas”, os contemporâneos de Amadeo de Souza-Cardoso, desafiadores das escolas e das ideias concebidas de beleza e forma na pintura (pode ser visitada até 28 de Outubro). Também, por isso, no largo da Igreja de São Gonçalo “choveram” todos os dias versos de Hilda Hilst (1930-2004). É a poetisa, ficcionista e dramaturga brasileira (a homenageada deste ano na Festa Literária Internacional de Paraty) que se fez artista como os homens numa sociedade em que papel e os temas femininos pareciam mais do que definições, barreiras sociais.

Quem também anda a desafia-las é Jaime (clarinete), Gonçalo (guitarra) e João (bateria), cuja banda de improviso na onda do jazz encontrou palco nos passeios da cidade. Com 23 aos 25 anos, de origens diferentes – Vila Viçosa, Setúbal e Lisboa –, conheceram-se na rua onde todos tocavam. O Mimo foi um pretexto para uma paragem em comum. E o motivo por que se dança, por estes dias, no meio da ponte em Amarante.

Eles fazem parte dessa espécie até há dois anos rara nesta paragem: festivaleiros. Chegam de mochilas, lancheiras e tendas, prontos para abalroar as margens do Tâmega. Nunca como este ano o rio fora tão emoldurado de tendas, quadro de salpicos coloridos de lonas, barcos e gaivotas, tal a afluência de jovens de outros lugares. É a confirmação da entrada do Mimo no roteiro festivaleiro nacional, diz Lú Araújo, produtora e fundadora do festival há 15 anos em Olinda, no Brasil, e que o trouxe há dois para Portugal.

Também, por isso, são raros os artistas que passam por Amarante e não se assolam pelas memórias de outros Mimos. Acontece com Pablo Lapidusas, onde o seu International Trio formado em 2014 teve dois dos seus melhores concertos. A abrir, o de Amarante, vai pelo mesmo caminho: “Não é todo o dia que se pode tocar e trazer um piano (de cauda) para o meio de um museu.”

O pianista argentino, feito mestre em Jazz em Lisboa, aceitou o desafio de abrir uma tarde quente de sábado e pôr os rostos virados para o sol, olhos fechados, para os ouvir melhor. A ele como a Leo Espinosa, baixista cubano, e ao português Marcelo Araújo. A plateia aplaude-os de pé, no fim, aprontando-se para nova levada de jazz com o jovem pianista israelista Shai Maestro. Igualmente em trio, igualmente internacional: com o baixista dinamarquês Jasper Hoiby e o baterista compatriota Ofri Nehemya.

Na rota pelas sonoridades novas, a voz forte de Noura Mint Seymali e o virtuosismo do trio com quem toca, neste sábado, contornaram rapidamente a estranheza que a música, que ela define como “pop baseada na tradição mourisca” e as suas escalas árabes, poderia causar. Uma conquista que Goran Bregovic já não tinha que fazer pela sua associação ao popular tema Bella Ciao. Uma plateia eufórica dançou, no último concerto de domingo, ao ritmo festivo dos instrumentistas sérvios e das duas cantoras búlgaras, fazendo o Mimo terminar com os pés deslocados do chão.

Para o ano um dos maiores festivais gratuitos do Brasil volta a Amarante nos dias 26 a 28 de Julho. E fica, pelo menos, por mais três anos.