Opinião

Tudo menos "que se lixem as eleições"

O Governo está disposto a fechar um acordo com os professores em Setembro. Para este primeiro-ministro, é mais "que venham as eleições, que estamos a preparar o caminho até lá".

O PS teve nas últimas eleições legislativas 1,747 milhões de votos. Grosso modo, precisa ter mais meio milhão de votos para conseguir alcançar a maioria absoluta nas próximas eleições legislativas. Não será tarefa fácil. Quer ver isto em percentagem? O PS tem que registar um aumento de 30% na sua votação.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Outro número interessante: os funcionários públicos subiram em 2017, pelo terceiro ano consecutivo, para 669.725, de acordo com as estatísticas oficiais do Ministério das Finanças. No fim do primeiro trimestre deste ano, já eram 674.379. Destes, 134.940 são professores do ensino básico ou secundário, ou seja, representam 20% da totalidade do emprego público.

Estes números poderão ajudar a perceber por que razão o Governo, que inicialmente parecia inflexível perante a reivindicação dos professores do quadro – 93.295 no ano lectivo de 2015/2016, segundo os últimos dados disponíveis – de ver contado todo o tempo de serviço congelado (nove anos, quatro meses e dois dias), afinal dá sinais de mudança. Tal como o PÚBLICO hoje noticia, o executivo socialista aceitará dar mais do que os dois anos, nove meses e 18 dias inicialmente oferecidos em Maio e negociar um faseamento para o futuro. Por causa do impacto que isso terá no Orçamento para 2019, António Costa quer fechar um acordo com os sindicatos em Setembro, ou seja, quer ter este dossier fechado antes de se desenhar o resto do mapa de receitas e despesas do Estado, que é apresentado ao Parlamento até 15 de Outubro. Ainda não se conhecem todos os pormenores mas fica-se a saber desde já como o Governo não quer alienar os professores, uma parte do eleitorado que no passado esteve com o PS. Isso significa também que António Costa não desiste de tentar alcançar a maioria absoluta e sabe que nessa corrida não pode gerar anticorpos. Sugestões, como a que o ex-ministro socialista António Vitorino fazia no ano passado, de que o Estado deve ter a coragem de promover um programa de rescisões amigáveis para funcionários públicos, é coisa que não deverá voltar a ouvir-se tão cedo.

Em 2012, pouco tempo depois de entrar em funções como primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho avisava os deputados de "que se lixem as eleições" – uma tirada que ficou no ouvido embora não tenha sido levada à letra pelo próprio PSD quando as eleições se aproximaram. Agora, é caso para dizer que este primeiro-ministro nunca o repetirá. É mais "que venham as eleições, que estamos a preparar o caminho até lá".